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Para fechar nosso breve ciclo
que enfoca o cinema americano e alguns de seus gêneros,
nada melhor do que Brian De Palma, o representante mor
da autoconsciência (mais que isso, da auto-reflexividade)
do gênero e dos dispositivos por ele engendrados
dentro de um filme. Não foi por acaso que o ciclo
começou com Vampiros de Almas, de Don
Siegel, clássico da ficção-científica
low-budget: a definição de gênero
no cinema passa não apenas pela criação
de um grau de parentesco entre filmes que partilham
temas e/ou procedimentos estéticos/narrativos,
mas também pela identificação dos
filmes B, ou simplesmente de produções
sem maiores "aspirações" que
o "simples" entretenimento, com temáticas
e padrões estilísticos que histórico-culturalmente
estão associados a uma arte mais popular, "barata",
vulgar mesmo. Contrariando qualquer preconceito com
o cinema de gênero, contudo, Vampiros de Almas
revela tanto um inquestionável conteúdo
político quanto uma profunda reflexão
sobre ontologia da imagem.
Don Siegel, John Carpenter,
Brian De Palma: três diretores relativamente malditos,
cada qual dentro do contexto particular de seus cinemas.
De Palma até traz no currículo grandes
produções que foram sucesso de público
(Os Intocáveis, Missão Impossível),
mas trabalha justamente naquele campo aberto à
exaltação do artifício, aos jogos
de ilusionismo (são recorrentes suas "pegadinhas"
de enquadramento), ao "realismo grotesco"
que reúne luxo e submundo, à eventual
breguice (as cenas românticas de O Pagamento
Final e Dublê de Corpo), à pornografia
(novamente Dublê de Corpo).
Mas já é necessário
voltar a Femme Fatale, filme tão recente?
Com os filmes de predileção, a questão
não é tanto de necessidade. Em cinema,
há sempre o retorno a um prazer originário.
Voltar a Femme Fatale é desnecessário,
porém fundamental.
O filme não se insere
na categoria de revisão do filme noir
que se fazia no final dos anos 70 e início dos
80 (pensar em Chinatown, Corpos Ardentes,
Cliente Morto Não Paga, Hammett).
O que De Palma toma emprestado do noir não
é a estrutura, mas a preparação
do terreno ficcional de um modo tal que toda sorte de
pulsão e de desejo primário vem à
tona com facilidade. Em Femme Fatale, o noir
é um "gênero" tão presente
quanto subterrâneo (trata-se, no fundo, da consolidação
do "gênero De Palma").
Há, de um lado, voyeurismo,
instintos, invasão de privacidade, a câmera
intrusa; mas há também, do outro lado,
a provocação, a sedução,
o disfarce, a maquiagem, o convencimento. E, figura
que permeia todo o filme, o eterno desejo de consumo
– a própria revelação do miolo
do filme como produto da mente em processo de transição
entre sono e vigília já traduz um suposto
"estado ideal" de consumo (o devaneio dos
sonhos somado a um mínimo necessário de
ação). Em grande medida, Femme Fatale
é uma aguçada reflexão sobre a
imagem publicitária: se a seqüência
final remete direta e indiretamente à publicidade,
é porque há mesmo um produto à
venda, a existência (mais detalhes, ver um clássico
texto de Jean Douchet, "La troisième clé
d’Hitchcock", Cahiers du Cinéma nº 102,
dezembro/1959).
Femme Fatale é
um momento privilegiado da carreira do seu diretor,
representando uma evidente depuração plástica
e até conceitual do continuum metacinematográfico
que ele vem construindo desde filmes como Um Tiro
na Noite, Vestida para Matar e Síndrome
de Caim. Em vez dos planos-seqüência
megalômanos que vinham abrindo seus filmes, verdadeiros
exercícios de engenharia cinemática, De
Palma começa Femme Fatale de maneira mais
singela, mantendo a duração alongada do
plano, mas concentrando a ação no quarto
de um hotel e movendo a câmera com suavidade.
A primeira coisa que aparece no filme é uma tv
passando o clímax de Pacto de Sangue,
de Billy Wilder, com o corpo nu de Rebecca Romijn-Stamos
se refletindo na tela da tv (ou seja, sobrepondo-se
à outra femme fatale, a personagem de
Barbara Stanwick no filme do Wilder) – e nesse registro
se entregam logo de cara dois movimentos-padrão
do filme.
O primeiro diz respeito ao fato
de que Femme Fatale é o ápice da
proposta depalmiana de partir de uma proto-imagem e
construir o filme como uma espécie de ramificação
dessa imagem – sem falar em toda a questão da
citação em De Palma, que se apresenta
na base mesma dos filmes. De Palma não cita (explicitamente,
até) seus mestres para buscar filiação
num certo tipo de cinema e ali se acomodar: ele busca
na lista de seus filmes prediletos uma ou outra imagem
capaz de lhe servir de "tema" (e aqui devemos
preconizar o emprego musical desse termo). Partindo
dessa imagem-tema, são elaboradas as variações
– exatamente como a trilha sonora do início de
Femme Fatale, que se estrutura num crescendo
à "Bolero de Ravel", repetindo a mesma
melodia ad nauseaum, mas acrescentando mais e
mais instrumentos. A própria sofisticação
visual com que ele demonstra a imbricação
de gêneros e de referências está
condensada naquela imagem na tv: no vidro da tela, amalgamam-se
o filme noir e um tipo de nudez feminina
a meio caminho tanto do slasher quanto do pornô
softcore. Seus filmes são obras abertas
porquanto vazados por todos os cantos (não propriamente
filmes de final aberto, mas filmes/textos propensos
à contaminação escritural). De
Palma se entende menos como contador de histórias
do que como orquestrador de signos, estímulos
sensoriais e iconografias que, juntos, compõem
uma filmoinstalação de ampla fluidez textual.
E, como ocorre ao personagem de Banderas, seu trabalho
se divide entre a "cara-de-pau" do paparazzo
e a sensibilidade plástica do fotógrafo
artístico (o painel de fotos que ele monta ao
longo de sete anos, e que se completa ao final do filme,
exprime bem o que Femme Fatale representa na
obra de seu diretor: a imagem que estava faltando para
completar um mosaico).
O segundo movimento-padrão
é o confronto das imagens: sua câmera realiza
um constante sobrevôo pelo espaço, com
a ressalva de que ela desliza não exatamente
sobre o espaço, mas antes sobre outras imagens,
ou sobre um espaço já-imagem. Afinal de
contas, trata-se da mise-en-scène de um
déja vu. Mas há de se tomar cuidado,
pois o déja vu depalmiano não é
uma refilmagem (a filmagem do "já visto"),
e sim a confecção de uma memória
do futuro. Ao contrário da realidade entrecortada
pelo sonho, Femme Fatale traz um sonho bom entrecortado
por um pesadelo. É um filme-sonho que recoloca
a metafísica hitchcockiana do combate entre luz
e trevas, a luz precisando vencer as trevas para reintegrar
o cosmos. Após a protagonista ter seu destino
salvo pelo sol – que ganha forma de providência
divina –, o convite de Banderas muda do café,
que eles tomam na parte do pesadelo, para um drink.
Não é mais preciso despertar.
Luiz Carlos Oliveira Jr.
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