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"Estrela é aquilo que se põe
no chão pro tripé não correr."
Pio Zamuner
* * *
Foram dois dias de entrevista. No primeiro, estávamos
mais ocupados em beber em comemoração
à mostra Cinema Brasileiro: A Vergonha de
Uma Nação. Terminamos o dia assistindo
ao genial Patty A Mulher Proibida, de
Luiz Gonzaga dos Santos, cinefotonovela policial baseado
num conto de Marcos Rey (Mustangue Cor de Sangue)
com personagens fantásticos como o anão
Jujuba, a vedete Clorofila e o intelectual Escriba numa
narrativa tão experimental quanto um filme de
Sganzerla sem dever nada ao mesmo. Um filme que
se encontra absolutamente ausente de qualquer revisão
crítica ou não do cinema
brasileiro mais recente. (Mas aguardem: será
exibido no próximo volume da "Vergonha...",
garante Remier Lion). O segundo dia de entrevista foi,
enfim, dedicado à gravação da conversa.
O cenário é um quiosque do calçadão
de Copacabana, debaixo de um calor infernal, rumo à
hora mágica. (Luís Alberto Rocha Melo)
Remier Lion Eu comecei a gostar de cinema
na mesma época em que reabriu a Cinemateca do
MAM. Foi então que eu decidi que iria virar cinéfilo...
Que ano, isso?
Ah, sei lá, eu tinha acabado de entrar pro
segundo grau, eu já colecionava disco, já
era viciado em comprar disco e aí eu decidi que
tinha que começar a ler e ir ao cinema, e que
essas coisas iriam ser importantes por algum motivo.
E, como eu te falei, isso foi mais ou menos na época
em que reabriu a Cinemateca do MAM, em 1986. E aí
o Cosme [Alves Neto] passou todo o acervo da Cinemateca
e foi muito bom, porque a gente pôde assistir
tudo, né? Mesmo naquelas cópias podres
da Cinemateca, a gente pôde ver bastante coisa
representativa dessa história clássica
do cinema que é apresentada aí pra gente.
E aí tinha essa "versão" do
cinema brasileiro que é oferecida Cinema
Novo, e tal e eu comecei a ver alguns desses
filmes, mas rapidamente descobri que tinha alguma coisa
ali que não era ainda aceita, mas que aparecia
de alguma maneira, e que era o Cinema Marginal. Então
eu vi O Bandido da Luz Vermelha devia
ter uns 17 anos , e fiquei maluco. Eu achei que
era o melhor filme de todos os tempos, tranqüilamente
o melhor filme brasileiro, e tal... Eu virei um obcecado
pelo Bandido da Luz Vermelha, e pelo Cinema Marginal,
udigrudi, que na época ainda era uma coisa
marginal pra caralho! Eu me lembro que, quando a Belair
ia fazer 20 anos, eu já trabalhava na Cinemateca
do MAM, e aí eu quis fazer uma mostra lá
e foi uma coisa totalmente vetada. Acabou sendo feita
no Estação Botafogo.
Você entrou pra Cinemateca do MAM em que ano
e fazendo o quê?
Ah, foi em 1989. Meu primeiro emprego foi na Cinemateca.
Eu ficava lá direto, vendo tudo, e aí
o Cosme...
...Você já trabalhava com o Hernani
Heffner?
Não, o Hernani não trabalhava na Cinemateca,
nessa época. Ainda era aquela equipe clássica,
com o Zé Roberto de Morais, a Tereza, o Leonardo
Gavina, o Ronald Monteiro, a Fafá, o Adélio,
o Paolo, o Cadu, o gerente Antônio, o bilheteiro
Taurino e o projecionista Cícero... E eu virei
aquele fã clássico do filme udigrudi,
né? Inventei uma série de desculpas pra
me aproximar do Sganzerla, do Bressane, do Ivan Cardoso,
do Neville, do Elyseu Visconti... Fiquei um bom tempo
pra cima e pra baixo com o Sganzerla, andando de um
lado pra outro...
Quer dizer, você foi conhecendo eles também
pessoalmente...
É, e eles sempre me trataram muito bem, e
tal. E o que aconteceu? Quando eu já tinha conhecido
boa parte desses filmes, e já tinha convivido
bastante com os diretores, houve ao longo da década
de 90, um movimento grande de absorção
desse cinema por esse lado oficial do cinema brasileiro...
Muitos curta-metragistas diluíram da forma mais
tosca e burra possível o que seria uma "herança"
desse cinema, e meio que "acabaram" com esse
cinema, virou uma coisa chata. Antes era uma coisa maldita,
então era interessante, porque ninguém
gostava. Você gostar desses filmes era do caralho,
entendeu? Mas quando começou a aparecer um monte
de intelectual chato falando que esses filmes eram o
máximo, e qualquer estudante de cinema do primeiro
período já vinha com essa... quer dizer,
é a coisa do default, né? É
o que já vem instalado na máquina, o cara
achar que o Cinema Marginal é genial, e isso
é uma coisa meio chata...
Acabou virando regra...
É, exatamente, virou mais um capítulo
na história oficial do cinema brasileiro. Mas
isso, claro, não tira o mérito dos filmes.
Agora, eu estou falando do Cinema Marginal, mas eu comecei
a me ligar nos filmes populares brasileiros pelo seguinte:
em 89 veio ao Brasil um punk americano maluco,
que tinha um fanzine sobre filmes americanos classe
B independentes bizarros, chamado Psychotronic.
E esse cara fez uma seleção de filmes
em torno desse repertório de cinema popular-classe
B-americano-independente-obscuro-e-bizarro, e classificou
esses filmes como "psychotronic films", criou
esse rótulo, né?
Como é o nome dele?
Michael Weldon. Aí ele editava um fanzine
que ele mandava pra casa das pessoas ele lia
a grade de programação da televisão
da semana, e selecionava os filmes psychotronic
que estavam passando. Fazia um fanzine sobre esses filmes
e mandava pra casa das pessoas. Isso foi uma coisa que
emplacou, começou a funcionar, criou uma sub-cultura
em torno desses filmes, que nos Estados Unidos é
uma coisa essencialmente punk, e aí ele
acabou publicando um livro que é uma enciclopédia
do filme psicotrônico. Em 89, que foi quando eu
descobri a existência disso, ele veio pra São
Paulo, na mostra do [Leon] Cakoff, trazer uma seleção
desses filmes. Aí foi a primeira vez que eu vi
isso, era uma coisa inacreditável, sensacional.
E na seqüência, quando eu entrei na Cinemateca,
o diagramador e curador João Juarez Guimarães
falou pra mim de um livro que tinha na Cinemateca, e
que na verdade era uma edição especial
de uma publicação punk dos mesmos
editores de um fanzine americano clássico chamado
Search and Destroy (Procure e Destrua).
E esse caras cresceram, ficaram meio "cabeças"
e começaram a editar uma revista chamada Re
Search, com números especiais. Então,
tinha números especiais sobre William Burroughs,
sobre os pranksters e a arte do prank,
que é uma espécie de "pegadinha intelectual",
uma forma de você sacanear os outros e depois
dizer que é arte. E aí tinha um do caralho,
e junto com o Psychotronic bateu: se chamava
The Incredibly Strange Films. Era genial, porque
tinha entrevistas com Herschell Gordon Lewis, Russ Meyer,
David Friedman, que é uma espécie de Galante
americano, e tinha capítulo de filmes sobre droga,
sobre motocicleta, filmes de tele-catch, quer
dizer, eu percebi que tinha uma outra história
do cinema que não era essa história babaca
que te apresentavam nas universidades, nas cinematecas,
nos livros. E isso foi uma coisa que bateu totalmente
com o melhor do lance do Cinema Marginal, que é
o lance do Bandido da Luz Vermelha, do Cuidado
Madame e do Segredo da Múmia, filmes
que dialogavam diretamente com esse universo do filme
B. Aí eu comecei a desconfiar olha a precariedade
da memória do cinema no Brasil eu desconfiei
que talvez existisse um tipo de cinema assim no Brasil,
também, entendeu? É claro que, por exemplo,
você vê a pornochanchada, é uma coisa
muito presente na nossa infância, mesmo que a
gente não fosse ao cinema, tinha a "Sala
Especial", você via e tocava uma punheta,
no dia seguinte no colégio era um assunto, quem
tinha conseguido ver a "Sala Especial", e
tal, mas não tinha muito essa amarração.
O intelectual e o artista, que são as pessoas
que têm a tarefa de amarrar esses valores da cultura,
eles... os intelectuais são uns merdas e os artistas
são sempre sacaneados de todas as formas, então
tem momentos em que a gente vive num gap absoluto,
então... Aí eu peguei o maior e melhor
livro sobre o cinema brasileiro já escrito, que
é aquele dicionário do Luiz Felipe Miranda
[Dicionário dos Cineastas Brasileiros,
São Paulo Art Editora, 1990] e
comecei a ler, li tudo, entendeu? Ia ali rastreando
o que me parecia que pudesse ser esses filmes "psicotrônicos"
brasileiros, entendeu? E aí fui descobrindo esses...
como diz um garoto cinéfilo lá de São
Paulo, o Matheus Trunk, esses "gigantes desconhecidos"
do cinema brasileiro, como o Nilo Machado, e tal...
Eu me lembro, aliás, que quando eu vi o título
A Psicose do Laurindo, eu falei ..."mas
o que que é isso"...??!! Eu tinha que descobrir
do que se tratava! Eu me lembro que eu peguei o catálogo
de telefone e fui ligando pra todos os Nilos Machados,
até que... um deles era o Nilo, e tal, aí
eu marquei, fui lá na casa dele...
Tinha vários Nilos Machados?
Tinha, por incrível que pareça, tinha...
Era outra época, né?... (risos)
Hoje não tem mais nenhum...
Não, não tem... Inclusive quando eu
liguei e era o Nilo, o Nilo mesmo, dentre os
vários Nilos que eu liguei, eu fiquei falando
que gostava de cinema, que queria conhecer ele, que
tinha ficado muito curioso com os filmes, e tal... e
ele não acreditou, achou que era trote...
É mesmo...? E ele morava onde?
Ele morava em Ricardo de Albuquerque. Na década
de 70 ele construiu um estúdio em Ricardo de
Albuquerque, que era um puta galpão, cheio de
lata de filme, refletor, câmera, moviola... E
aí, no meio, tinha uma cama... (risos)
...que era onde ele dormia, entendeu? Tinha um galinheiro,
também, na piscina. A piscina tinha sido transformada
num galinheiro.
E os filmes dele, ficavam onde?
Ficavam entre o estúdio e o galinheiro...
(risos) O Hernani, por exemplo, me ajudou a salvar
os filmes do Nilo Machado, levando eles pra Cinemateca
do MAM. E depois me permitiu fazer a limpeza e identificação
de todo o material. Eu tenho inclusive um projeto de
recuperação dos filmes do Nilo. Mas aí,
como eu trabalhava na Cinemateca, era ótimo,
porque eu podia ir diretamente nas pastas, e ver as
fotos, os cartazes, ver o material iconográfico
dos filmes. E me influenciou muito a publicidade desses
filmes, que era genial. Eu me lembro que tinha um livro
de anúncios, um caderno com todos os anúncios
daqueles clichês de jornal, que são fac-símiles
dos cartazes, em preto-e-branco, dos filmes do Cineac-Trianon,
que era programado pelo Osíris Parsifal de Figueroa.
E eu comecei nessa, né?, e rapidamente me liguei
que as minhas teorias estavam certas, quer dizer, existia
um cinema psicotrônico original no Brasil. Porque
esse cinema era justamente o cinema que o Rogério
construía e desconstruía o tempo todo.
Resumindo: o caminho que me fez chegar à Vergonha
de Uma Nação começa sem querer
com a descoberta do Cinema Marginal, com o culto ao
Bandido da Luz Vermelha, ao cinema do Sganzerla
e do Ivan Cardoso, passa pela descoberta desses dois
livros, quer dizer, na verdade, pelo trabalho feito
por essa galera punk americana de resgatar esse
cinema classe B independente bizarro, que era uma coisa
que seria a Vergonha de Uma Nação americana,
e que acaba amarrando com a descoberta desses filmes
populares que eu agora estou exibindo. Na verdade, você
atira no que vê e acerta no que não vê.
O Bandido da Luz Vermelha nada mais é
do que um apanhado geral desse cinema: ali você
tem o Adolpho Chadler, o strip-tease, o Quinto
Poder, o filme policial, e o único gênero
que não está expressamente no filme, que
seria o bang-bang, aparece na frase que o Sganzerla
usa pra definir o filme, que é um "faroeste
do Terceiro Mundo"...
O próprio manifesto que o Rogério escreve
já é uma declaração antropofágica...
... do filme trash, exatamente. O Sganzerla
fez melhor o trabalho que a nouvelle vague fez
na França, só que aqui era uma guerra
de um homem só. Na França você tinha
lá uma porrada de diretor, dinheiro, uma revista...
Mas quanto ao formato mesmo da mostra, como você
chegou a ele?
Quando eu percebi tudo isso, a primeira coisa que
eu pensei é: "vou fazer um filme..."
Vou fazer alguma coisa sobre isso, né? Aí
rapidamente deixou de ter importância o que seria,
entendeu? Qualquer coisa valia a pena: ou fazer um livro,
ou fazer um filme, ou fazer uma mostra, tudo ainda podia
ser feito, qualquer coisa podia ser feito em torno desses
filmes. Isso era um universo que os nossos "gênios
maiores", os "arquitetos" da nossa cultura
desprezavam totalmente. E aí, fiquei com essa
coisa de fazer o filme, etc. e tal, mas, porra, pra
eu fazer um filme a dificuldade era sobre-humana, né?
Já tinha o título nessa época?
O título foi o seguinte, foi muito simples:
eu tava uma vez doidão no Circo Voador, alucinado,
entendeu?, conversando com um amigo meu, o Alexandre
Mandarino, falando merda pra caralho, e aí dentre
as babaquices de improviso que a gente estava falando,
me veio essa: (com voz enrolada de bêbado)
"porra, vou fazer um filme foda: O Cinema Brasileiro,
a Vergonha de Uma Nação!" Aí
eu achei tão bom que não esqueci. Eu também
desenvolvi essa fixação pelos títulos,
eu acho que o título é a coisa mais importante
num filme, entre outras mídias, né? Eu
penso tanto em filmes quanto em mostras como pertencentes
a um movimento só, quer dizer: agora em São
Paulo surgiu a idéia de fazer, junto com o pesquisador
Rodrigo Pereira a mostra Procurados: Clássicos
do Bang-Bang Brasileiro; com a Laura Canepa, que
trabalha com filmes de terror produzidos na Boca, veio
a idéia da mostra Sinistro: o Terror no Cinema
Brasileiro. Eu tenho também a idéia
de fazer uma série intitulada Franco Atiradores,
pegando Carlo Mossy, Alex Prado, Cláudio Cunha,
Tony Vieira, Francisco Cavalcanti, Carlos Imperial.
Seriam mostras e depois uma série de documentários,
com produção do Alessandro Gamo. Tenho
um projeto sobre o Beco da Fome, que eu penso em fazer
com o Severino Dadá e o André Sampaio.
E um curta chamado Nilo Machado – O Aventureiro do
Sexo Maldito. Quer dizer, projetos e idéias
não faltam. A coisa principal é você
ter o conceito que você quer trabalhar bem presente,
bem fixado.
Então explique aí o porquê desse
título Cinema Brasileiro: A Vergonha de Uma
Nação.
Esse título é muito rico, porque trabalha
com várias questões diferentes, né?
Vou falar antes de tudo do conceito da mostra: pra começar,
ela mata dois coelhos numa cajadada só. Primeiro
porque oferece uma visão pop do cinema
brasileiro, uma tradição do cinema brasileiro
que comunica direto com a cultura pop, que não
é aquela coisa rançosa de OSPB, sabe?,
essa visão da cultura que é o maior ranço
da ditadura, que é esse negócio do "Brasil
grande", do "orgulho nacional". A mostra
oferece essa coisa inédita que é a leitura
do cinema brasileiro sem ranço intelectual, ligada
à cultura pop, e desmonta esse golpe de
marketing que é essa idéia que
foi construída de cinema brasileiro. Cinema é
marketing, né?
Hoje em dia a Globo, como está falida, utiliza
o cinema, o marketing do cinema pra se vender.
De repente surge na TV cineastas e atores globais denunciando
o que eles chamam de "dirigismo cultural".
Mas a verdadeira "vergonha de uma nação"
é encontrar cineastas declarando que
a "classe" deveria perder a culpa de "estar
tirando dinheiro das criancinhas pobres do país"...
Esse problema é muito complexo, porque se exterminou
com a possibilidade de você ter um cinema independente.
O cinema independente que eu falo, é assim: um
cinema que um indivíduo, um particular,
sozinho, consiga produzir.
De uma certa forma, esse processo de formatação
ideológica acaba dificultando a entrada de uma
porrada de gente, de pensamentos novos, de construções
novas dentro do cinema brasileiro. Agora, Remier, você
recentemente ganhou o prêmio da Ancine pra desenvolver
um projeto, um roteiro chamado Cinema Brasileiro
é a Maior Diversão. Como é esse
projeto?
Pois é, isso aí foi uma surpresa... O
Cinema Brasileiro É a Maior Diversão
trabalha com a mesma leitura da Vergonha de Uma Nação,
da mostra... Na verdade, originalmente, é o que
seria o projeto de filme do Cinema Brasileiro
A Vergonha de Uma Nação. O título
mudou, mas é porque realmente esse cinema brasileiro
popular é a maior diversão, eu me divirto
muito... E esse filme vai ser um filme na linha do Maldição
do Samba, vai ser um filme-colagem, um filme-mostruário
desse outro cinema brasileiro. Vai ser produzido pela
Cinédia, que também é a produtora
do Maldição do Samba...
Você tem um outro filme-colagem, o Clube
do Rock.
É, A Maldição do Samba é
de 1997 e O Clube do Rock foi feito agora, em
2004. Mas nenhum desses filmes na verdade estão
prontos, quer dizer, eu não os considero prontos.
E eles estão nessa linha de trabalhar com material
de arquivo, que é uma coisa que, sem querer-querendo,
eu acabei herdando do Sganzerla, e depois do Bressane...
Esse Festival do RECINE, por exemplo, é inclusive
uma coisa muito inteligente, porque isso é uma
tendência lógica do cinema, que você
vê muito na música contemporânea:
você tem um acervo muito grande de imagem, e você
tem que retrabalhar esse acervo. É uma coisa
muito rica pra você simplesmente dispensar, né?
E pra gente que não tem grana, que não
tem condição nenhuma de filmar com atores...
Eu fazer esses filmes de colagem já é
um milagre, já é o máximo que eu
consegui espremer... E a idéia Cinema Brasileiro
É a Maior Diversão é fazer
mesmo um super-trailer, um filme-mostruário,
um filme pra vender esses filmes, pra recolocar esse
outro cinema brasileiro no mapa... Não tem nenhuma
intenção de ser um documentário
careta, ou contar história... Os filmes falam
por si, e o cinema brasileiro é sempre auto-referencial,
principalmente esses filmes classe B... Todo filme mal-feito
é metalinguístico, você vê
toda a estrutura, eles abrem mão do truque
do truque não, da...
...da ilusão.
Da ilusão. É um cinema desiludido...
(risos)
Então, voltando à mostra...
Voltando à mostra, ela tem essa dupla função:
primeiro, resgata esses filmes e oferece uma tradição
e uma leitura do cinema brasileiro como cultura pop
e, fazendo isso, ajuda a destruir esse monopólio
que a elite tem sobre a história do cinema brasileiro.
E aí o título: por que A Vergonha de
Uma Nação? Primeiro porque esses filmes,
a desculpa pra que eles tenham sido limados da história
do cinema brasileiro pra usar duas expressões
que a galera da Brutal Crew gosta de usar foi
"pura xenofobia e moralismo". Esses filmes
foram atacados porque eles se apropriavam da linguagem
clássica do cinema mundial, principalmente do
cinema de entretenimento americano, quer dizer, o faroeste,
o filme de horror, o policial, o noir, o cinema
catástrofe, todos esses estilos, esses gêneros,
e aí eles eram atacados por causa disso e também
por questões moralistas, porque são todos
filmes que trabalham com repertório popular,
que não têm meias-palavras, né?,
é "sexo, drogas e rock’n roll".
Quer dizer, iam contra a noção de nacionalismo
perpetuada por essa história que surge desde
os anos 50.
É, eles foram limados, porque representavam
um cinema que não era feito pela elite, esse
é o problema principal, na verdade é um
problema de classe, de preconceito de classe...
...o cinema é uma "questão de
classe"...
É, "Banditismo Por Uma Questão
de Classe", a música do Chico Science...
E a desculpa pra que eles tenham sido limados, ou era
(pra usar os termos e os argumentos da crítica
da época), porque eles não eram filmes
"brasileiros", porque eles não trabalhavam
com o repertório nacional, e sim com o repertório
alienígena, estrangeiro, ou porque eles trabalham
com as formas de apelo popular clássico, que
é o sexo, a violência, o politicamente
incorreto, o horror, e tal... No site da mostra [http://malditosfilmesbrasileiros.blogspot.com]
você pode ver no apanhado da crítica da
época, que não é propriamente uma
"fortuna crítica", e sim um "infortúnio
crítico"...
Ou "antalogia crítica..."
Pois é. A gente vê que os críticos
fazem os mesmos barbarismos que eles condenam nos filmes.
Então, essa foi a desculpa pra que esses filmes
tenham sido limados, eles eram a "vergonha de uma
nação", o crítico não
quer que sejam brasileiros filmes como esses...
Ô, Morris, você não pode deixar de
citar aquele negócio lá que você
falou do B. J. Duarte que tem no livro do Autran...1
Por que é que você não fez essa
mostra da "Vergonha..." aqui no Rio, como
aconteceu com a primeira, feita em outubro do ano passado?
Pois é, eu queria fazer essa mostra há
muito, muito tempo. Embora eu trabalhasse na Cinemateca
do MAM, durante boa parte da década de 90, lá
não teve espaço. A Cinemateca Brasileira
de São Paulo resolveu comprar a idéia.
E ela com isso fez um trabalho inédito: recuperou
esse cinema brasileiro de uma forma representativa.
A idéia da mostra foi pegar um exemplo de cada
subgênero. A princípio não há
como fazer essa mostra fora de uma cinemateca, porque
tem os problemas dos direitos autorais, de locação
de filme... As cinematecas são espaços
em que você pode exibir qualquer filme depositado
lá sem ter que pagar direito autoral, então
se não fosse a Cinemateca Brasileira... Isso
é a principal questão que toca o cineclubismo:
o cineclube, aquele que é de boa fé, estritamente
cultural, ele tem que ter uma legislação
própria, porque essa questão de direito
autoral te impossibilita tudo. E muitas vezes você
está exibindo filmes num cineclube, nesse tipo
de mostra, e está "esquentando" o filme.
Por exemplo, agora a gente vai exibir o Patty, a
Mulher Proibida, do Luiz Gonzaga dos Santos, vamos
fazer essas exibições alternativas, porque
todos esses filmes merecem atenção. Indiretamente
você está fazendo uma coisa que vai muito
além do que exibir esse ou aquele filme. Do ponto
de vista da zoação, da brincadeira, do
lúdico, você fala: "ah, legal, é
aquele bang-bang obscuro, é aquele filme noir
mal-feito, aquele filme noir que é tão
escuro que você não vê nada, completamente
noir..." Mas a coisa vai além.
Além da Cinemateca Brasileira, quem mais te
ajudou?
Entre as pessoas que mais apoiaram a mostra estão
o pesquisador Hernani Heffner, da Cinemateca do MAM,
o colecionador Márcio Melges, que cedeu todos
os filmes da primeira mostra, os projetores 16 mm, e
cedeu agora dez filmes para a mostra da Cinemateca Brasileira...
Outro cara que ajudou foi o "imperiólogo"
Denilson Monteiro. Esse Denilson tem um projeto de uma
mostra dos 69 anos do Carlos Imperial. O Carlão
Reichenbach, que foi uma pessoa... Nunca vi uma pessoa
assim tão generosa, e atenciosa, usando tão
bem o prestígio. Ele é sempre um cara
que sabe que tem uma opinião e sabe que isso
é uma força, e que isso é uma coisa
que pode ser muito mal ou muito bem usada, e que ele
usa muito bem, de uma forma muito honesta e íntegra.
E tem os artistas homenageados pelas sessões,
que eu consegui contactar e que foram lá e participaram
tanto da primeira quanto da segunda edição.
No primeiro volume da "Vergonha...",
por exemplo, foram Olivia Pineschi, Remo Usai, Pabla
Matos, Jorge Silva, Carlo Mossy, o Seu Ademar, que é
um cinéfilo que merece um documentário
e uma estátua, destas que estão sendo
feitas no Rio. No segundo volume foram Carlão,
Cláudio Cunha, Roberto Buzzini, Alex Prado, Heitor
Gaiotti, Luiz Gonzaga dos Santos, Virgílio Roveda,
Luciana Araújo, José Inácio de
Mello e Souza, Mauro Alice, Carlos Roberto, Alessandro
Gamo. A primeira edição, em outubro de
2003, foi totalmente underground, ali no Instituto
de Arquitetos do Brasil. Ninguém quis deixar
fazer a mostra em nenhum lugar, fui em vários
espaços culturais pedindo pra fazer a mostra
e os caras "ah, tá maluco". Então
fui lá no IAB, que é um lugar super-importante
mas não é badalado, e tinha uma salinha
lá. Cheguei, consegui falar com o próprio
presidente do IAB, expliquei pra ele o problema, fui
franco, e ele falou: "cara, você pode passar
o que você quiser, quem faz a programação
do cineclube é o programador... não tem
que atender a A, B ou C..." É igual você
querer que o DJ toque só sucesso...
E as sessões que você anda fazendo na
Casa França-Brasil?
É, chama-se Malditos Filmes Brasileiros.
São sessões que têm sérios
problemas de periodicidade, quer dizer, eu não
consigo fazer todo mês. Mas é uma jogada
que vem também dessa coisa do título,
né? Esse título eu peguei da matéria
que o Jaime Biaggio fez no Globo sobre a primeira edição
da "Vergonha...", eu pedi pra ele e
ele achou legal que eu usasse... E é ótimo,
porque não é "filmes brasileiros
malditos", mas (bate com a mão sobre
a mesa) "malditos filmes brasileiros...!",
quer dizer...
Uma frase típica de filme de gênero,
né?
Exatamente... Hoje em dia a gente vive num
filme de gênero o tempo todo. Toda hora é
bang-bang, às vezes é musical, terror,
catástrofe, ficção-científica.
A vida é um filme B e o Rio de Janeiro um filme
do Rogério Sganzerla da fase Belair...
Enrevista realizada por Luiz Alberto Rocha Melo (ou
Morris Albert), em 19 de dezembro de 2004, Capacabana,
Rio. Transcrição e revisão: LARM
1.
"'E foi a época áurea das fitas sem planejamento, das
películas feitas ao Deus-dará, dos 'alôs alôs!', apelativo
vindo no rastro de uma série horrorosa de fitas carnavalescas
Alô, Alô, Brasil!, Alô, Alô, Carnaval!
as de pura cavação, melodramas medonhos,
cujos títulos, até agora, nos recusamos a escrever.
Não os citaremos como não mencionaremos os nomes dos
autores desses crimes cometidos friamente contra o nosso
cinema. (...) Em verdade, tais argumentos eram os mais
primários e tinham no carnaval, no samba e na favela,
no futebol, na novela de rádio e em outras coisas parecidas,
a sua matéria-prima mais procurada.'"
"A transcrição acima [do texto "As Idades do Cinema
Brasileiro", in Retrospectiva do Cinema Brasileiro,
São Paulo, 1954] demonstra o elitismo do autor [B. J.
Duarte], que leva à compreensão moral da história do
cinema, ou seja, na falta dos dignos assumem
os cavadores. Isso acarreta uma total descontinuidade
histórica, pois é impossível qualquer relação mínima
de causa-conseqüência. Trata-se de uma história que
se envergonha da nossa incivilidade, com o popular sempre
visto de forma negativa, levando à omissão de filmes
ou personalidades."
(Alex Viany: Crítico e Historiador, Arthur Autran.
Ed. Perspectiva, São Paulo, 2003, p. 156)
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