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"O ponto de partida de
nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como
também de nossa sociedade, de nossa estética,
de nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmera
é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos.
Nesse país tudo é possível, e por
isso o filme pode explodir a qualquer momento".
Assim terminava "Cinema fora da lei", manifesto
escrito por Rogério Sganzerla em maio de 1968,
abrindo caminho para a revolução dentro
do cinema brasileiro que seria o seu primeiro longa-metragem,
O Bandido da Luz Vermelha. E, exatamente, um
cinema "fora da lei" foi aquele perseguido
por Sganzerla ao longo de seu trajeto de cineasta. Essa
"lei", aqui, é menos a lei jurídica
ou outra lei, talvez até mais burocrática,
que é a lei do cinema narrativo. Uma das leis
da qual Sganzerla sempre esteve fora foi a lei do compadrio,
elemento muito presente no cinema brasileiro desde as
épocas da institucionalização do
cinema novo (a famosa passagem da Difilm para a Embrafilme)
até os dias de hoje, em que os cineastas de sempre
aderem à "globalização"
do audiovisual brasileiro. Mas, acima de tudo, e para
falar de coisas dignas, a lei que Rogério Sganzerla
sempre se recusou a seguir foi a lei do óbvio.
Documentário,
seu primeiro curta-metragem, de 1966, não é
parecido com nada feito em sua época, a não
ser Olho por Olho, de Andrea Tonacci, em que
Sganzerla foi montador (Tonacci, por sua vez, fotografou
Documentário). Trata-se de um filme de
ficção em que os personagens seguem os
mesmos trajetos e têm os mesmos interesses daqueles
que estão por trás das câmeras:
cinema, meninas, bate-papos e dinheiro. A afinidade
entre o que se fala à frente e atrás das
câmeras bastaria para que se desse ao filme o
nome de um gênero do qual ele certamente não
faz parte? Duvidoso, mas, em todo o caso, o "documentário"
de Documentário não é o
das conversas, mas o da simples filmagem. "Documentário"
no sentido em que Jean-Luc Godard ia filmar Acossado
(1959) sem roteiro, sem história, como um
"documentário sobre Jean Seberg e Jean-Paul
Belmondo" (a expressão é do próprio
Godard), os atores principais, antes que François
Truffaut lhe encaminhasse algumas linhas de história:
registros sobre algo que acontece, sobre a vida que
palpita, sobre as pessoas que fazem coisas.
Quinze anos depois, quando Sganzerla
vai aos estúdios de gravação em
que João Gilberto prepara, com Caetano Veloso,
Gilberto Gil e Maria Bethânia, o disco Brasil,
a carreira do cineasta ainda guarda a mesma preocupação
com a captação da vida, e a mesma magia
no momento da filmagem. Mas, ao mesmo tempo, Sganzerla
já soube fazer da montagem um instrumento de
observação analítica, e Brasil
(1981) é uma maneira de colocar em cena através
da mesa de montagens uma série de questionamentos
sobre cultura nacional que serão cada vez mais
pregnantes até o fim de sua carreira. Com a palavra,
o diretor: "Com Brasil, decompus ideograficamente
em termos de montagem de acordo com a melodia e letra
da composição ‘Aquarela do Brasil’; personalidades
apresentadas no cine-jornal brasileiro de 40: Getúlio
Bragas, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Grande Otelo, Vinícius
de Moraes, Orson Welles, Richard Wilson, Eros Volusia,
os jagadeiros (da travessia Fortaleza-Rio) Jacaré
(José Olimpio Meira), Jerônimo e Tatá
desfilam rapidamente nesse curta-metragem comemorativo
de meio décilo de vida nacional representados
em uma situação limite (‘O que é
o Brasil? O que é o Brasileiro?’) – o Brasil,
dizia Oswald de Andrade em 1924, vive em estado de sítio
desde a idade trevosa das capitanias."
A partir dos anos 80, Rogério
Sganzerla vai fazer de suas biografias de artistas nacionais
(Oswald de Andrade, Noel Rosa) e estrangeiros (Jimi
Hendrix, mas principalmente Orson Welles) a forma de
colocar em cena uma pungente reflexão sobre os
artistas malditos e sobre o ódio dos poderosos
– que querem o poder porque não têm talento
– contra aqueles à quem o gênio foi concedido.
Tanto Oswald quanto Welles viveram carreiras sabotadas
depois de viverem momentos de glória e gênio
incontestável quando jovens. Noel Rosa e Jimi
Hendrix (sobre quem Sganzerla fez Mudança
de Hendrix) morrem jovens, um de doença,
outro devido ao uso de drogas, mas ao mesmo tempo pode
ser entendido que a verdadeira causa mortis é
a intoxicação pelos modos e costumes da
sociedade (Quanto a você, que é da aristocracia/Que
tem dinheiro, mas não compra alegria/Há
de viver eternamente/sendo escrava dessa gente/que cultiva
a hipocrisia", dizia a "Filosofia" de
Noel).
Isto É Noel, de
1991, faz parte desse período, assim como toda
a filmografia de Sganzerla dedicada a compreender a
passagem de Orson Welles pelo Brasil e a intrincada
tarefa de ser artista transgressor no país (Nem
Tudo É Verdade [1986], Linguagem de Welles
[1993], Tudo É Brasil [1997] e O
Signo do Caos [2003]). O artista é um sujeito
de corpo frágil, fácil de ser abatido
justamente porque seu negócio não é
correr atrás dos negócios, mas do impalpável
e daquilo que ainda não tem nome. Ele tosse para
purgar tudo aquilo que existe de óbvio, de redundante
em seu corpo, para que sua arte atenda à tensão
dinâmica de uma força ativa, e não
às pressões regressivas da convenção.
O artista pode até morrer, mas o que brota de
sua vida é o traço vivo e intocado do
gênio que se eterniza nas obras e atinge outros
para além de seu próprio espaço
e tempo. Era válido para seus retratados, e hoje
se faz válido também para Rogério
Sganzerla, um dos nomes mais fundamentais da cultura
brasileira no século XX. E se o oficialato ainda
não o descobriu como tal, tanto melhor, porque
ele fica sendo só nosso.
Ruy Gardnier
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