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Muitos jargões e lugares comuns são repetidamente
evocados quando se tenta esboçar e delinear as
principais características e obsessões
temáticas da extensa (35 longas) e pouco conhecida
obra de Arturo Ripstein. O primeiro e mais óbvio
deles, e que precisa urgentemente ser relativizada,
é o vinculo sempre enfatizado entre a sua filmografia
e a obra de Luís Buñuel, principalmente
na sua fase mexicana (1946-1965). Efetivamente, a experiência
de assistir as filmagens de Nazarín (Luís
Buñuel/1958), e a oportunidade de anos mais tarde
fazer a assistência de O anjo exterminador
(Luís Buñuel/1962), foram grandes marcos,
conforme repetido inclusive pelo próprio Ripstein,
na sua formação intelectual-cinematografica.
Porém, a sua aproximação com o
cinema, atribuída em parte pela influência
do pai (o renomado produtor Alfredo Ripstein jr.), foi
ainda mais precoce. Tendo uma ligação
muito mais íntima e sanguínea com o melodrama
cinematográfico, Ripstein realiza operações
bem diversas das postas em prática por Buñuel.
Enquanto o cineasta espanhol tentava se adequar à
industria cinematográfica mexicana subvertendo
de maneira quase imperceptível (aos olhos dos
produtores) certos padrões prefixados, e esculpindo
assim um melodrama que transgredia sutilmente os limites
do gênero (Susana, demônio y carne
e Abismos de pásion ),Ripstein
o ataca em sua gênese. Dotado, por razões
óbvias, de uma visão articulada por alguém
que está ocupando o lado de dentro, e não
um olhar estrangeiro, o autor efetiva um processo de
remapeamento do melodrama manuseando códigos,
climas, ambiências e materiais iconográficos
representativos do período em que o melodrama
vigorou absoluto. Não é por acaso que,
em 1991, Ripstein faz a sua versão para o grande
clássico do cinema mexicano La mujer del puerto
(Arcady Boytler e Raphael Sevilla/1933), e que a maior
parte de seus filmes tenha como tempo diegético
as décadas de 30 e 40. Mesmo os que não
são declaradamente ambientados nesse período
(como O evangelho das maravilhas e Assim é
a vida) já que apresentam objetos contemporâneos,
como um mini game, reunidos no mesmo espaço
com signos antigos - evocando assim uma atemporalidade.
A evocação
destes anos, ao se mesclar com outros elementos como
a banda sonora (sempre recheada de boleros e uma trilha
incidental reiterativa dos sentimentos experimentados
pelos personagens) e a gesticulação dos
atores, na maioria das vezes tendendo propositalmente
para o exagero, e o culto da encenação
(Assim é a vida, A virgem da luxúria)
faz com que Ripstein crie um universo extremamente
peculiar e característico. Um universo onde se
é possível encontrar o belo nos seres
e nos atos aparentemente mais repugnantes. Um mundo
acima de tudo cru, visceral, truculento - e inegavelmente
sublime. È justamente nesse limite entre o ignóbil,
o abominável e a mais profunda transcendência,
proporcionada por sentimentos absolutos como o amor,
que residem as atmosferas e as sensações
de Vermelho Sangue.
Tomemos, primeiro então,
o amor: sentimento cultivado pela cultura judaico-cristã
como puro, nobre e edificante, está sempre associado
ao bem e à produção - quem ama
não é um inativo e sim um fabricante de
valores-ações dignos para si e para a
sociedade. Adotado pelo melodrama, esse amor produtivo
consistia em ser o maior diferencial para quem o possuía;
assim, amando o pobre tornava-se rico e o fracassado
um vencedor. Em Vermelho Sangue, ao nos contar
a história de Nicolas Estrella (um conquistador
barato que vive de enganar jovens senhoras) e Carmen
Fabris (uma enfermeira solitária), o autor faz
da transgressão desse sentimento o seu objeto
de estudo. O amor como algo nocivo e demolidor. O que
poderia acontecer quando o amor torna-se grandiosamente
incondicional? O amor fou (ou o amor louco),
tão estimado pelos surrealistas e explorado inúmeras
vezes por Buñuel, recebe em Vermelho Sangue
tintas que ressaltam o seu aspecto mais amoral, imoral
e subversivo. A lógica deste amor louco consiste
em fazer com que os seus participantes não tenham
a capacidade de enxergar nada para além de seu
objeto amado: é um circulo fechado em que esse
objeto se transforma em um mundo que gira em torno de
si mesmo apresentando o aspecto de um totem sagrado.
Cena-símbolo que sintetiza essa idéia
da construção de um mundo fechado habitado
unicamente por Carmen e Estrella é a do hotel,
quando Carmen produz a peruca de seu amante com o seu
próprio cabelo. Atormentado pelo fato de ser
careca, atributo que o faz se sentir um "palhaço,
monstro e deformado", Estrella utilizava a sua
peruca como uma espécie de varinha mágica
capaz de transfigurá-lo em galã. Quando
esta se perde, se vê desesperado, louco e com
a sua habitual enxaqueca. Carmem então, para
aliviá-lo de sua dor, extrai de seu próprio
corpo o material capaz de restituir a virilidade do
amado. União orgânica, que traduz o relacionamento
do casal: instinto, carne e sangue. União marcada
pela dependência mútua que irremediavelmente
se vê obrigada a se conectar com a morte - já
que apenas ela poderá sacramentá-la e
torná-la eterna.
Para poder seguir com
o amante, Carmem desrespeitou outra lei cara ao melodrama:
o seu papel de mãe. O protótipo da mãe
do melodrama é regido por regras bastante delimitadas
e a principal delas é que a prole, ou seja, a
sua continuidade estará sempre em primeiro lugar.
Transgredindo esse código, deixando de se sacrificar
pelos filhos e sim os sacrificando por um homem, Carmem
dará com ele o derradeiro passo em direção
á morte. Renunciando à sua descendência,
Carmem também está renunciando à
sua vida. Cada momento dessa união, desde o começo
até o seu patético fim será marcada
pela lenta e gradual respiração da morte.
È curioso sublinharmos
que a trajetória empreendida pelo casal de trambiqueiros
pelas estradas do México, sempre em busca de
mais uma vítima, é marcada pela total
falta de planejamento. Nada é calculado, não
existe nenhuma estratégia de ação,
os eventos se sucedem ou ao sabor do improviso ou acionados
por um descontrole de Carmem, que apesar de ter aceitado
a empresa, não consegue evitar o impulso de sabotá-la.
A união, portanto, não funciona sequer
como empreendimento lucrativo: fadada ao fracasso, cada
investida à uma mulher solitária não
deixava de ser uma tentativa de suicídio. Como
isso nunca acontecia, já que a sociedade não
conseguia capturá-los para assim puni-los, eles
resolvem, de maneira consciente, dar um fim nesse sinistro
pacto de amor e sangue, se entregando às autoridades.
A seqüência em que os dois tomam essa decisão
e aparecem sentados, sérios e silenciosos, sendo
destrinchados pela câmera (que insiste em catalogar
cada mínima expressão) é particularmente
bela. A trilha tema do casal complementa a atmosfera,
sublinhando a total ciência do fim trágico.
Previsível como toda tragédia, Vermelho
Sangue nos brinda com um desfecho igualmente patético
e sublime.
Constantemente insastifeitos
com a sua imagem (Estrella não queria ser careca,
Carmem não queria ser gorda), os dois não
abandonam as suas vaidades na hora do justiciamento.
Estrella quer estar com a sua peruca na hora em que
provavelmente a imprensa fotografaria o seu cadáver,
Carmen deseja estar arrumada para o dia que seria "o
mais importante de sua vida". Finalmente, o esperado
evento acontece: caídos e entrelaçados
na poça (ou para ser ainda mais cru, na lama),
os amantes se realizam e se encontram com a humanidade.
Estevão Garcia
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