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Parece que finalmente
descobriram o óbvio: é um absurdo colocar
dinheiro público na produção de
filmes sem a existência de uma estrutura de distribuição
e exibição sistemática desta produção
nas telas de cinema e televisão. Mas isso aí
todo mundo já tinha percebido - ou quase todo
mundo... Ou não?
Informando para quem ainda
não sabe: o Tribunal de Contas da União
(TCU) anunciou no final desta semana o resultado de
uma auditoria nas contas da atual ANCINE – que levou
à conclusão de que o governo federal não
deve colocar dinheiro via renúncia fiscal (leis
de incentivo) em filmes que não garantam retorno
de público. Por conta disso, agora a ANCINE deverá
cobrar dos projetos dos filmes, para serem aprovados
para captação de recursos (portanto, ANTES
de serem filmes, quando ainda são apenas projetos),
que eles tenham a garantia de que chegarão ao
público.
Poderíamos perguntar,
de cara, desde quando o retorno de público de
um filme pode ser garantido a partir de uma análise
de projeto? Que tipo de garantia, além da associação
com alguma grande máquina midiática ou
major norte-americana, pode ser dado para assegurar
o sucesso de uma obra cinematográfica? Ou, por
outra: então só deve ser concedido incentivo
fiscal para empresas coligadas a redes de televisão
ou conglomerados estrangeiros? Só deve ser concedido
incentivo fiscal, que cede dinheiro do Estado, para
quem já tem dinheiro?
É importante que
se diga que o relatório do TCU aponta o problema
certo e, no entanto, indica soluções equivocadas
– porque, restringindo os benefícios fiscais,
sentencia que estes descontos de impostos devem ser
concedidos somente para produções ligadas
a grandes grupos empresariais (que não têm
precisado de ajuda para manter seu domínio no
mercado). Mas a questão é que a invisibilidade
de muitos filmes brasileiros não é um
problema de qualidade dos filmes que não são
produzidos por empresas americanas ou globais - é
um problema ligado à ausência de uma estrutura
condizente de distribuição e exibição.
O que ninguém discute é que os filmes
precisam ser vistos, e do TCU (e de qualquer outro órgão
estatal) é preciso esperar por decisões
técnicas e políticas – e não por
decisões estéticas. Estas decisões,
no entanto, podem servir para obrigar as instituições
do Estado a uma reavaliação necessária
da ação destas leis. Sobretudo porque
é preciso que se diga que a decisão do
TCU, caso seja cumprida ao pé da letra não
irá alterar o panorama em grande coisa: cada
vez mais, os filmes que conseguem obter patrocínio
com incentivo fiscal já têm acordos de
produção com a Globofilmes ou com as majors
norte-americanas.
Qual é a falha
técnica portanto, segundo o TCU? Filmes custam
caro e não dão retorno ao Estado. Bingo.
Qual é a questão política? Aí
chegamos ao ponto crítico.
A primeira observação
a ser feita é que, sendo o benefício fiscal
às empresas patrocinadoras uma ação
cultural do Estado, não se deve esperar desta
ação retorno financeiro, e sim cultural.
Se o benefício fiscal não se justifica
culturalmente, e sim financeiramente, então é
preciso cobrar do Estado ações culturais
onde ele vem sendo omisso - e, tendo em vista a existência
de um órgão de financiamento governamental
(o BNDES), é o caso de perguntar se a produção
comercial de filmes (como o relatório do TCU
pretende que exista) não deve ser para lá
encaminhada. O que não é aceitável
é que o TCU tome para si o papel de elaborador
de uma política cultural do país, porque
esta simplesmente não é sua função.
Ele deve julgar se as contas do Estado batem, se as
prestações são condizentes e, eventualmente,
sugerir ações – mas não convém
ao Tribunal dar normas de funcionamento de ordem puramente
financeira a algo que serve também a outros fins.
Sob risco de, amanhã, resolvermos não
investir mais em escolas ou hospitais, porque eles não
dão retorno financeiro garantido.
Parece exagero, mas no
fundo não é. Afinal, se o apoio a filmes
é decidido dentro do Ministério da Cultura,
então a decisão política é
de que este é um assunto cultural - e a questão
é que a decisão do TCU aponta um problema
técnico e sugere uma solução política:
produção de cinema não deve ser
assunto de cultura.
Porque, ao contrário
do que sugerem as decisões do TCU, absurdo é
colocar mais dinheiro na produção de meia
dúzia de filmes de orçamento inchado (que
não têm que dar qualquer espécie
de retorno ao Estado, seja cultural ou financeiro) do
que no incentivo à produção, distribuição
e exibição de muitos projetos possíveis
de filmes de pequeno porte – projetos que não
contam com o apoio das empresas gigantes que dominam
o mercado de distribuição para cinema
e canais de televisão. Oitenta filmes anuais
a custo médio de um milhão de reais irão
dar maior retorno cultural (por razões óbvias,
porque são mais idéias criando cinema),
maior retorno social (porque produzirão mais
empregos em todas as escalas da estrutura) e possivelmente
maior retorno econômico do que oito filmes anuais
patrocinados por majors e redes de televisão
com apoio da Lei do Audiovisual a partir de venda de
títulos na bolsa de valores. Se a preocupação
dos burocratas é que sejam produzidos oito filmes
industriais de qualidade internacional, então
é o caso de deixar o cinema para outro ministério
dissociado de questões culturais – o da Indústria
e Comércio, ou então o Itamaraty...
No entanto, se o problema
é de trazer os filmes à sociedade, provocando
verdadeira circulação cultural, se essa
é a preocupação das decisões
do TCU, então a questão política
é outra: é preciso que se crie mecanismos
de inserção desses filmes nas salas de
exibição já existentes e que se
crie um circuito alternativo para a democratização
do acesso aos filmes. Porque este problema existe e
precisa ser encarado - esta sociedade paga pelos filmes
produzidos em seu país e tem o direito de vê-los
e de ser brindada com o máximo de diversidade
estética e ideológica possível.
Não apenas nas salas de cinema (que estão
presentes em menos de 10% das cidades brasileiras),
mas também (ou até mesmo principalmente)
nas redes de televisão. Não custa lembrar,
o Estado brasileiro mantém um canal de televisão
público. E patrocina, via incentivo fiscal, filmes.
No entanto, seu canal de televisão não
tem direito de exibição dos filmes que
o Estado patrocina. Isto nunca intrigou a ninguém
do TCU? Não ocorreu a ninguém questionar
a razão desta situação insólita?
Ao examinar as contas da Rede Brasil (o que o TCU certamente
faz), não surgiu uma alma mais curiosa para somar
dois mais dois e ligar produção audiovisual
(via leis de incentivo) e exibição audiovisual?
Uma exibição na TVE com um ponto de audiência
pode ser, potencialmente, um público maior que
qualquer filme da Globo Filmes consegue nos cinemas
do país.
Fato é que um cinema
co-financiado pelo Estado não pode depender de
normas de marketing ditadas por esse ou aquele conglomerado
econômico – uma ação cultural do
Estado precisa representar um espaço possível
de investigação e cultivo da diferença.
Uma ação estimulando pontos inativos,
como discursou o atual Ministro da Cultura. E é
preciso que se garanta que essa diferença vai
ter espaço (e não necessariamente comercial)
para se chegar ao público, seja através
da exibição em redes estatais de televisão
depois de alguns anos de exploração comercial
do filme, seja através de uma porcentagem de
exibições gratuitas dos filmes, ou seja
através do mecanismo de difusão que for.
E isso vale do filme da Xuxa ao Nietzsche do
Bressane: todos esses filmes têm que dar um mínimo
de retorno a uma sociedade que os banca – por exemplo
através de apresentações/projeções
abertas e sem caráter comercial. É preciso
produzir mais e difundir mais.
Pensar o contrário
pode ser necessário para os funcionários
dos órgãos de contabilidade, mas esta
é uma opção política. O
TCU está certo: os filmes não estão
dando retorno. Mas o TCU está errado: é
preciso fazer com que mais filmes dêem mais retorno,
e não que menos filmes sejam feitos. O que se
deve criar é um teto, um limite para os orçamentos
– para que os filmes caros possam obter seu investimento
através de linhas de créditos especiais
e outras formas de financiamento que não funcionem
com a lógica de fundo perdido (que é a
que rege as iniciativas culturais). Porque as leis de
incentivo a fundo perdido só fazem sentido dentro
de uma lógica de fomento à pequena produção
- ou mesmo de incentivo inicial para filmes de grande
porte darem o pontapé inicial em suas produções.
Mas não para a manutenção de uma
proto-indústria. Sobretudo porque a produção
comercial, feita a custos industriais, pela sua própria
natureza, precisa ter a capacidade de se manter baseada
em sua própria competência - e não
esmagando as pequenas iniciativas (seja secando as fontes
de verba, seja ocupando todas as salas de exibição).
Portanto, para nós
da Contracampo a questão política que
se coloca é esta: é preciso fazer mais
filmes, de cada vez mais lugares e indivíduos,
e portanto é preciso que os filmes sejam muito
mais baratos. Quem quiser e puder apostar alto e caro
certamente deve ter um apoio inicial do Estado, mas
tem que apostar também por fora deste apoio -
como acontece com qualquer comerciante honesto - tirando
o dinheiro público da reta e colocando o seu
próprio.
Senão, é
preferível acabar de vez com a era das leis de
incentivo fiscal: o MinC passa a investir o dinheiro
até então cedido via leis do Audiovisual
e Rouanet em concursos públicos, como o de Baixo
Orçamento, e os produtores independentes entram
na fila e se submetem aos julgamentos subjetivos dos
jurados - pode-se, então, aumentar consideravelmente
o número de projetos premiados por ano. E os
filmes comerciais que tratem de conseguir provar
a investidores que terão o retorno comercial.
Se são comerciais mesmo, certamente encontrarão
quem invista dinheiro para obter lucro – numa sociedade
capitalista, é assim que funciona.
O que não se pode
aceitar é essa tautologia precária: "Damos
dinheiros para fazer filmes e eles não estão
conseguindo chegar ao público? Qual a solução?
Não fazer mais esses filmes".
Felipe Bragança - Daniel Caetano - Eduardo Valente
Revista de Cinema Contracampo
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