SUÍTE HAVANA
Fernando Pérez, Suite Havana, Cuba, 2003

Construir cenas ficcionalizadas através do acompanhamento da rotina e dos hábitos de não-atores não é nenhuma novidade, pelo contrário (como demonstra o cinema de Jean Rouch, talvez o mais feliz exemplo). Trata-se de um gesto que já deu diversos sinais da riqueza, da força e de um potencial incrível para escapar aos clichês fáceis de um cinema de não-ficção interessado pelo mito do "real" na tela. Suíte Havana, porém, parte dessa premissa cênica de inúmeras possibilidades narrativas, para praticar nada mais do que um cinema de gestos friamente marcados e de uma violenta redutibilidade da rotina de seus personagens. Um cinema de submissão, acima de tudo.

Da trilha sonora opressiva, aos enquadramentos que buscam uma espécie de melancolia coletiva, Pérez faz um filme sem vida, monotônico e que, ao contrário do que sua premissa cênica parecia insinuar, está muito pouco interessado nas dualidades e fraturas que uma fórmula work-in-progress de dramaturgia poderia lhe trazer. A impressão que o filme passa é que, desde a pesquisa e escolha de seus personagens, o diretor já havia delineado, de forma rígida, o perfil que lhe interessa pintar de cada personagem, fazendo deles antes títeres de uma ficcionalização acovardada do que corpos agentes de sua auto-representação.

A câmera antes cerceia os personagens do que compartilha de sua temporalidade e gestualidade. Não há faíscas no filme porque seus não-atores estão por demais domados (ou assim o quis a montagem) diante de uma tonalidade lírica monolítica, imposta pela edição de som e pelo roteiro que parecem antes sugar e ordenar a boa ordem da vida de seus não-atores do que se deixar encantar por elas. Isso para não citar a maneira pornográfica com que Pérez filma o menino com Síndrome de Down e os idosos do filme com movimentos de montagem que insistem em querer emocionar por uma espécie vil e fetichista de misericórdia. "Ah, o povo cubano e seus rostos, e sua rotina, e seu talento noturno para as artes, e sua melancolia estrutural, todos tão iguais em serem diferentes..."

Um gesto de um humanismo ditatorial como poucas vezes visto nessa linhagem de cinema (e mais comum aos cinejornais oficialescos), Suíte Havana ainda se dá ao luxo de um desfecho constrangedor, onde os personagens aparecem em sépia, com seus rostos congelados, sob sinopses e "sonhos" escritos em pequenas sentenças lacrimejantes. Difícil não lembrar uma não tão antiga campanha publicitária de um certo banco carioca, onde jovens senhoras, da Zona Sul, citavam seus sonhos e onde a resposta para tudo estava na forma como a instituição citada estaria ali justamente para ajudar a alcançá-los...

Suíte Havana repete o procedimento, mas agora quem "cuida de tudo" é esse humanismo apolítico e esse desejo de emocionar através de personagens ricos transformados (e simplificados) em fantoches ao som de uma mesma e reticente música. O quê se deixa clarear aqui é a incapacidade de Fernando Pérez de saber/poder compartilhar/friccionar seu discurso e suas verdades cênicas se mostrando incapaz de se tornar um agente tão disponível/frágil/corajoso, quanto aquelas pessoas/personagens se souberam tornar.

E aí eu me pergunto, por fim: se era mesmo para que os personagens fossem tão obedientes à diretrizes pré-concebidas, se o filme queria antes domá-los do que encontrá-los, porque não chamar os bons e velhos atores tradicionais e a eles apresentar um roteiro tradicional? Estes, ao menos, saberiam (desde o começo) o quanto (e o tanto!) seriam submetidos... Ou será que Fernando Pérez teria se utilizado desses não-atores somente como ferramentas, como muletas realistas para uma dramaturgia não mais que banal, não mais que covarde com o espectador?

Felipe Bragança