MÁ EDUCAÇÃO
Pedro Almodóvar, La mala educación, Espanha, 2004

O último protagonista-artista de Almodóvar era a escritora de A Flor do Meu Segredo. É um filme capital na obra de seu cineasta, uma vez que instaura um outro tom em seus filmes, uma maneira mais nuançada de tratar os dramas de cada personagem, um ritmo mais lento que se aproxima muito mais do melodrama do que das comédias screwball que constituíam boa parte da primeira fase de sua carreira (Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Kika). A Flor do Meu Segredo é um filme de transição, que abre para um momento de sua carreira que está repleto de obra-primas (Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela).

Pois Má Educação também tem um artista-protagonista. É Ernesto, cineasta em crise de inspiração que não sabe mais que filme fazer, e recorta reportagens em jornais que possam virar tema de sua próxima realização. Seria fácil demais aproximar a figura de Ernesto da de Almodóvar. Um não sabe mais a história que tem para contar, enquanto o outro sofre de excesso de histórias. O esboço de Má Educação data da época de adolescência do diretor, como um conto muito pessoal sobre prestação de contas com a educação religiosa. Mas a história só é retomada em 1992, e desde então Almodóvar grama para criar uma aproximação menos maniqueísta de seus personagens, principalmente a figura do padre. Ora, um projeto dessa proveniência acaba curto-circuitando momentos diferentes de um percurso pessoal de artista, e Má Educação acaba aparecendo a nossos olhos como um novo filme de transição para um outro momento, talvez outra fase na carreira. Ou ao menos uma tomada de fôlego.

Não que Má Educação possa ser encarado como um "filme menor" - embora não seja tão forte e cheio de ressonâncias quanto seus últimos filmes. Há nele uma tal gama de sentimentos frustrados, um cara-a-cara com histórias do passado que definiram situações do presente, e um novo questionamento de uma geração (sua própria) que trabalham pesado com todas as problemáticas que interessam a Almodóvar e que nos encantam há pelo menos vinte anos. A paixão arrebatadora, pela qual se vive e morre, pela qual se comete loucuras e gestos terríveis, essa ainda está no cerne de Má Educação. No cerne e no fim, porque é com ela, bem grande, que Almodóvar decide fechar o último plano do filme. Só que, dessa vez, mais do que tentar seguir o percurso dessa paixão, o realizador prefere pesquisar todos os caminhos que fizeram com que uma grande paixão (a dos colegas de escola Ignacio e Ernesto) não tenha podido se realizar. Tarefa de arqueólogo a que Almodóvar se propõe: escavar um momento do passado, fazê-lo brotar inesperado à superfície, observar atentamente que tipo de reviravoltas ele pode concretizar no presente. Momento também de prestar contas com seu próprio passado, o passado coletivo de uma geração que é educada com determinados valores de punição e culpabilidade que acabam frustrando a vida tanto dos desviantes (Juan que se torna um travesti junkie) quanto dos repressores (Padre Manolo que se apaixona loucamente por uma criança).

Muita gente viu, não sem certa preguiça, Má Educação como um simples libelo contra a educação religiosa, ou como um filme que diz que os padres são todos depravados. Ou então, e talvez de uma forma pior, deplorou que o filme não tivesse se fixado no comportamento dos padres pedófilos, num momento em que estouram escândalo atrás de escândalo sobre a recorrência de padres que se apaixonam por seus coroinhas ou por seus alunos. Ora, Almodóvar não é Louis Malle, e sua vontade não é a de parasitar temas "polêmicos" para adicionar à agenda dos questionamentos culturais mais um assunto que estará na moda discutir. Seu interesse é compreender e maravilhar-se em como certos corpos se aproximam uns dos outros, e que conseqüências podem decorrer desses encontros. A moral, que estabelece quais destes encontros são válidos e quais não são, esta moral não é aquilo que explica um determinado comportamento, mas antes é algo que deve ser explicado. A moral é algo que vem sempre depois -- como "polícia dos costumes" que jamais impede os sentimentos, mas pode impedir a ação --, numa tentativa de frear a inexorável "lei do desejo" na qual agem e padecem os personagens. Ser, num filme de Almodóvar, é ter paixão. E há muito tempo só os personagens apaixonados o interessam.

Três histórias, três personagens (ou melhor, quatro), muitas paixões: Padre Manolo que ama um de seus alunos, Ignacio e Ernesto que se amaram, um novo Ignacio agora chamado Angel que renasce das profundezas do passado para fazer delirar novamente o mundo de Ernesto. Mas também paixão pela arte: Ernesto, o cineasta; Juan, o ator; o amor das duas crianças pelos filmes de Sara Montiel, e o próprio amor de Almodóvar pelas histórias que se acavalam uma dentro da outra, um relato que dá origem a outros relatos.

Má Educação é também, em muitos aspectos, um filme sobre o ator. Sobre como ser ator na vida, primeiramente: Manolo que precisa interpretar um papel social que não condiz com sua paixão, Juan que precisar interpretar na vida o papel de seu irmão para fazer com que Ernesto rode o filme que pode saciar sua vingança, ou Ignacio/Angel que se traveste para ser o personagem que seu corpo não permite.

Se Má Educação não encanta tanto quanto os filmes precedentes de Almodóvar, é menos pelo tratamento dos personagens (todos, em alguma medida, encantadores por suas paixões, mesmo o Padre Manolo) do que uma mudança de perspectiva que talvez não tenha encontrado o ritmo e o tom exatos de seu encadeamento. Filmar aquilo que trunca uma paixão demanda talvez um outro "colocar em cena", algo mais frio com o que Almodóvar parece não ter se acostumado completamente (a cena da piscina, por exemplo, em que o corpo de Juan desperta curiosidade e suspeita em Ernesto, talvez seja a que mais se ressinta disso: a cena é filmada para acender centelhas, e nenhuma acende). Depois de fazer em Fale Com Ela um filme em que a beleza daquilo que provoca paixões dispõe e organiza tudo aquilo que vai se ver na tela o que faz com que até uma apresentação de Caetano Veloso ou um homem nadando na piscina tenham seu lugar inquestionável dentro dele , a mudança de guinada em Má Educação, onde só há paixões frustradas, pede uma outra aproximação dos corpos que se realiza em parte (o que dá grandeza ao filme), mas ainda não completamente. Se essa ligeira mudança de percurso será continuada e depurada em suas próximas realizações, cabe somente ao futuro dizer. No momento, cabe assistir a Má Educação com a certeza de que Almodóvar ainda choca a moralidade com aquilo que, para ele e para nós, é ainda o que dá motivação e sentido na atividade humana: a paixão.

Ruy Gardnier