Cantinho do Tiagão
crônicas

Eulália


Eulália, uma senhora idosa, mora sozinha em um apartamento em São Paulo. Solitária e amargurada, seu único amigo é um gato, de quem cuida como o filho que nunca teve. Como sua aposentadoria advinda da pensão do falecido marido não permitia que ela pagasse o aluguel, ela resolve alugar um quarto. É quando conhece sua nova inquilina, uma jovem chamada Nina.

Nina torna a vida de Eulália um inferno. Um poço de boçalidade e despreparo, ela não paga o aluguel porque simplesmente não consegue se manter em um emprego, nem em ocupações tão simples e isentas de responsabilidade como a de garçonete. Seus pais enviam algum dinheiro para ajudar, mas ela gasta a mesada em drogas e noitadas com seus amigos clubbers com cara de mau que ainda vivem estilisticamente no início dos anos 90. Eulália começa a tratar Nina com dureza, ela por sua vez, começa a considerar a senhora a fonte de todos seus problemas.

Após meses sem receber um aluguel de Nina, Eulália toma uma atitude drástica e tranca a geladeira. Nina só poderia comer o que pagasse. O que não é muita coisa, já que ela não procura uma ocupação, não controla suas economias e mesmo quando está mais desesperada recusa uma proposta de dançar em uma boate, preferindo assaltar e depredar a casa de um homem cego, coisa muito mais digna. Não que ela consiga manter esse dinheiro que roubou, porque no caminho de casa paga o taxi para uma prostituta que estava prestes a ser espancada pelo motorista (a clássica boçal de bom coração). A prosituta, alias, é Renata Sorrah. Explico: parte da debilidade mental da personagem se manifesta em alucinações aonde ela vê o rosto de celebridades projetados em pessoas sem importância narrativa. Dessa maneira ela tem a impressão de que sua vida é um lugar cheio de participações especiais que se não tem sentido algum pelo menos a deixam se achando zuper chique.

Para Nina, Eulália é a culpada por sua falta de dinheiro, por sua incapacidade social, pelo furo na camada de ozônio e pela morte da princesa Diana. Ela solta o único companheiro de Eulália no centro da cidade, aonde ele provavelmente vai morrer de fome, atropelado ou morto com crueldade por alguma criança de rua. Sem saída, Eulália resolve guardar para si a mesada de Nina para este mês, já que não tinha mais como manter aquela pessoa ali de graça (quem tem pena é galinha e quem filho barbado é gato). Nina se revolta ainda mais quando descobre que Eulália está tentando alugar seu apartamento para um rapaz com aparência responsável que provavelmente vai pagar o aluguel em dia.

Eulália, indefesa contra Nina, é finalmente morta, sufocada por um saco plástico. Claro que Nina tem uma justificativa Raskolnikoviana pro crime, mas no fundo ela só queria uma vida sem aluguel. Os restos mortais de Eulália ficam por dias estirados no chão de sua casa, lugar aonde morou por mais de 40 anos e aonde passou os momentos mais felizes de sua vida. Perdão, isso foi um sonho da inquilina. Eulália infarta depois de discutir com sua algoz e só então passa dias jogada no châo como um saco de batatas. A assassina por omissão de socorro fica com o apartamento e vive feliz para sempre. Eulália, como se podia esperar, fica um pouco chateada. Dostoievski também, mas eu não consegui entender o que ele resmungou por causa de toda aquela terra que jogaram em cima do conjugado aonde ele mora hoje. A acústica de lá é horrível e o meu russo anda enferrujado.


Tiago Teixeira