Enfim, Sós

A Mostra Internacional de Cinema é, antes de tudo, um evento social. É nesse período de quase um mês que temos a oportunidade de ver e rever os amigos, observar os freqüentadores de carteirinha, trocar idéias, participar (ativa ou passivamente) das atividades do lounge, e por aí vai. Durante esses 20 dias, o contato com aquelas pessoas que parecem que saíram da toca, que dão a impressão de que hibernam o ano todo pra acordar somente em outubro, é uma experiência única, atípica e indescritível. Só mesmo freqüentando as salas do Directv, do Cinearte e do Cinesesc pra entender. Sim, esse contato físico, tanto com sujeitos de bom coração quanto com aquelas figurinhas carimbadas indesejadas e inconvenientes, é igualmente inevitável e necessário. A Mostra não chega a ser exatamente uma busca pela badalação, a não ser pra quem organiza: a presença de famosos nas sessões é mínima, a cobertura que a imprensa faz (especialmente a TV) é pequena e restrita, e todos os holofotes, todo o auê que se cria está mais voltado para o evento em si do que para o público. Mas não dá pra deixar de ter esse convívio com as pessoas mais próximas, de carne e osso, com formação, peculiaridades, idéias e opiniões diferentes das nossas, mas com as mesmas virtudes e defeitos que a gente. Pois, nesses 20 dias integrais de maratona, daria muito bem pra assistir a quase 100 filmes fazendo cálculos aritméticos precisos que conciliem e privilegiem as cabines e as sessões em vídeo na Central da Mostra. Mas o que faz nascer essa vontade de ir pras salas? Qual será o segredo, que bicho será que pica a gente, que substância é essa que nos é injetada, que faz com que tenhamos uma atração quase hipnótica pelo ser humano em geral? Se a Mostra fosse um acontecimento frio que se fechasse somente à exibição dos filmes, como explicar então os diversos encontros regados a muita cerveja, nas madrugadas chuvosas da Terra da Garoa, em bares que já estão recolhendo as mesas e lavando as calçadas? É impressionante a constatação, num desses dias após a exibição do último filme, Conjunto Nacional quase fechando, que minha vontade de conversar e aprender foi maior que a vontade de dormir. Estava lá eu, cercado por catedráticos no assunto de cinema, alunos e professores da USP, pessoas altamente gabaritadas, discutindo sobre os problemas e malefícios da presença do narrador onisciente na atual cinematografia nacional. Será que, nesse horário, um chocolate quente e um cobertorzinho no aconchego do meu lar não fariam melhor à minha saúde?

Claro que, igualzinho à curva gráfica de Gauss, todo acontecimento social tem seu momento de pico, mas também atravessa sua fase de declínio. À medida que os dias vão se passando, os sinais de desgaste desse público considerado exótico tornam-se cada vez mais evidentes. Toda aquela produção glamurosa, toda aquela maquiagem carregada, cede lugar a uma aparência mais desbotada, um semblante mais pálido. Não dá pra esconder as seqüelas do cansaço: olheiras, rugas, rouquidão, etc. A halitose chega a dominar as conversas paralelas nesse período derradeiro de festival. Ausências são sentidas pelo grupo devido a casos isolados de indigestão. Enfim, o indivíduo, aquele ser humano tão contemplado no intróito da patuscada, chega a ser percebido como uma presença rotineira nem tão indispensável assim. É o próprio metabolismo orgânico sendo regido pela orquestração idêntica ao evento: há um começo bem-disposto e aplaudido, um meio compenetrado e, fatalmente, um fim absolutamente carreira-solo.

Nesse momento, no minguar dos filmes a ser vistos na repescagem, por incrível que possa parecer, e acredito que não há uma explicação sólida pra isso, a Mostra passa a se tornar um evento puramente individual. É chegada a hora de acordar para o mundo, ou se voltar pras tocas, sei lá. A rotina, aquela verdadeira rotina, volta a aparecer: contas a pagar, telefonemas a fazer, trabalhos pendentes a produzir. Tudo aquilo que deixamos de lado, numa espécie de alienação consciente, devemos pôr em dia. E não há cinéfilo que possa nos ajudar nesse sentido, em filas de banco ou ligações interurbanas. Aqui, excepcionalmente, o clarão do sol é metáfora para o fim do ciclo. Nesse período, imediatamente seguinte à festança, é quando os filmes passam a ter um maior significado se digeridos e analisados por nós mesmos, ninguém mais. É a época em que o cinema deve ficar armazenado nos confins do nosso organismo, ao invés de ser compartilhado pelos amigos de farra. Os colegas de classe que me perdoem, mas nenhum catedrático da USP poderá participar desta orgia solitária. Trata-se do momento apropriado do solilóquio, da reflexão, da introspecção. Esse contato interior entre o homem único e a arte é, por definição, egoísta. Convidarei a este desfrute eu, eu mesmo, e nada de Irene. Estão definitivamente proibidas intervenções divinas e externas a esta restritíssima maçonaria composta e liderada por mim mesmo. E, para montar o cenário intimista que o momento pede, nada mais adequado do que aquela lembrança triste e nostálgica do desmanche dos alicerces e da estrutura do lounge da Mostra. Funcionários uniformizados, vestindo sujos macacões que nada lembram o visual colorido dos habitués da maratona, arrancando e desfazendo cartazes e panos que a eles não têm significado algum. O toar das marteladas, o barulho do rock industrial de fim de feira, são arquivos sonoros que permanecem na minha cabeça justamente para me lembrar que, agora, todo o cinema exibido durante estes dias estafantes cabe em mim. Aquele retrato pictórico carnavalesco de outrora, com escolas de samba desfilando e camarotes lotados, foi simplesmente destruído sem o menor pudor. Uma alegoria fantasiosa, substituída pelo recolhimento do lixo e pelo eco do silêncio, que é a própria encarnação da saudade. Para mim, hoje deve ser Quarta-Feira de Cinzas. Foliões nababescos e dionísicos, agora só no ano que vem.

Érico Fuks