Vai-e-Vem
Portugal/França, 2003

A segunda vez em que me apaixonei

O conceito do "filme favorito" ou "filme da nossa vida" costuma estar associado a fitas assistidas em um período de formação e descobertas no âmbito da cinefilia. Após algum tempo – e no meu caso já se vai tempo nisso... – a tendência é assistir a novos filmes, e, se for o caso, merecidamente amá-los, mas descobrir após um certo tempo um filme que nos proporcione uma revisão de conceitos e idéias pessoais já mais que estabelecidos é um fenômeno a meu ver sui generis para um cinéfilo, por assim dizer, veterano. Bom, foi justamente isso que me aconteceu ao assistir, em 25 de outubro passado, Vai-e-Vem pela primeira vez.

Em edições antigas aqui na Contracampo já tivemos oportunidade de divagar sobre uma sessão de cinema que nos proporcionou algum momento de descoberta em especial ou sobre o filme que, algum dia, gostaríamos de ter feito. Hoje, sem qualquer constrangimento, digo que tais textos poderiam ser reescritos: Vai-e-Vem é o filme que mais gostaria de ter feito e aquela sessão no Cinearte 1 durante a Mostra de São Paulo tornou-se igualmente inesquecível. Inesquecível por uma série de fatores, entre eles por ser como começou minha primeira (e tardia) incursão pela Mostra de São Paulo.

Partiríamos eu e o companheiro Luiz Carlos Junior da rodoviária no Rio num sábado às 6 e tal da manhã, pretendendo chegar em Sampa a tempo de iniciar nossa maratona às 13:00. Maratona apressada para mim, pois eu só dispunha de dois dias para assistir o que fosse possível, e Vai-e-Vem era obrigatório. Seria o único Monteiro que se encaixaria em minha apertada agenda quando a mostra apresentava uma retrospectiva completa de seus longas. Pois bem, não lembro por que razão o ônibus atrasou e saiu mais de uma hora depois do previsto, o que inviabilizou o filme das 13:00. Meio putos, chegamos na Augusta, almoçamos, compramos os ingressos do dia e, após um hilário episódio na bilheteria do Cineclube Directv que não cabe aqui contar, finalmente, às 15:50, Vai-e-Vem. Na sala de projeção lotada, pura festa, já sentamos junto com o Ruy e encontramos vários membros da nossa grande família cinéfila. Tela preta. Paulo Branco apresenta: Vai-e-Vem. Com menos de 30 minutos de projeção, se não me falha a memória após a seqüência do "Bella Ciao", me virei para o Junior e falei: "Já valeu tudo o que rolou e o que possa vir a rolar." Estava em estado de completo êxtase e deslumbramento.

Eu e Monteiro, Monteiro e eu

E aqui, penso eu, estou falando demais. Mas demais também fala João Monteiro-De Deus-Vuvu. Sem pressa, querendo expressar detalhadamente seu rico pensamento, principalmente quando faz digressões sobre seus ideais e opiniões diversas. Daí parte muito de meu fascínio por Monteiro, principalmente com o Monteiro dos filmes a partir de Recordações da Casa Amarela: uma quase completa identificação. O que havia se iniciado como uma admiração pelo lado um tanto exótico do cineasta-personagem, que vinha das experiências com A Comédia de Deus e As Bodas de Deus (e era só isso que eu conhecia de Monteiro até aquela sessão de Vai-e-Vem), se transmutou na descoberta de uma figura extremamente lúcida, coerente e cujas diversas idéias, gostos e visões de mundo eram em vários aspectos semelhantes às minhas. Sustenta-se ainda um mais absoluto respeito por quem não arreda o pé de tais idéias e convicções, independente destas poderem não agradar ou não aos indivíduos e a sociedade. Uma espécie de "É isso aí mesmo o que sou, penso e tenho a dizer, e quem não gostar, foda-se!", já expresso desde os créditos de seu primeiro longa, Fragmentos de um Filme-Esmola, em que Monteiro se apresenta fazendo para a câmera o clássico gesto obsceno com o dedo médio em riste.

Vale destacar que toda essa aparente agressividade inerente a Monteiro nada tem de gratuita, do simples, impulsivo e puro ato de negar de um jovem punk que pouco conhece do mundo. Mais certeiro seria nem chamar tal atitude de agressividade, mas sim de uma iconoclastia intensa de quem muito aprendeu, muito viveu, muito questionou e concluiu que nessa vida nada existe de sagrado ou intocável. Monteiro é antes de tudo um provocador e seus alvos principais parecem ser o conformismo, a mediocridade e a irracionalidade.

A visão quase completa de sua obra, coisa que tive a oportunidade de realizar ao longo do último mês, não faz outra coisa se não tornar mais claras essas idéias, com as quais, ressalto, confesso identificar-me sobremaneira. Assim como também me identifico com sua admiração pelao binômio indissociável beleza-juventude feminina – e João de Deus ou João Vuvu, mesmo velhos e nada atraentes, jamais dirigem sua, digamos, atenção para mulheres feias ou com mais de 25 anos – e também com seu descaramento ao não ter vergonha de usar com freqüência um discurso grosseiro ou mesmo vulgar entremeado a sua notória erudição, como se ambos fossem antes de tudo complementares. Figuras assim como Monteiro são espécie em extinção, daí que, ao saber de sua morte, em fevereiro de 2003, mesmo ainda não conhecedor de toda sua grandeza, ter feito na lista interna de e-mails desta revista o seguinte comentário: "Mas com tanto filha-da-puta pra morrer!".

Um filme de amor

Voltando então específicamente a Vai-e-Vem, por que este passou a ser o filme de minha vida, o filme que gostaria de ter feito? Bem, acredito ser essencial que um artista, ao construir uma obra pessoal, consiga colocar nessa obra de forma clara todas suas intenções e seu íntimo, no caso do cinema, fazendo chegar às telas um filme exatamente idêntico àquele que planejara, o que, sabemos, raramente é possível. Ora, nesse caso estou apenas supondo, mas, tendo visto filmes e mais filmes ao longo dos anos, foi Monteiro com Vai-e-Vem quem me pareceu melhor ter concluído tal intento. Já sabendo ser ele um radical mantenedor de suas convicções, ao ver a morte se aproximar, parece ter tentado – e conseguido pôr na tela o máximo daquilo que ainda teria a mostrar ou a dizer. E isso já fica bem claro na primeira seqüência na praça, quando João, agora Vuvu, atira um pedaço de fígado aos passarinhos e, ao ser criticado, rebate: "Não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar."

Ainda mais impressionante torna-se o fato de que, mesmo sabedor de seu destino, Vai-e-Vem é um completo ato de amor à vida. Nas longas e belísssimas cenas de viagens de ônibus por Lisboa, vemos o profundo afeto de João Vuvu por sua cidade, por seu povo, por uma rotina que não tardará a ficar para trás. Em suas passagens por praças e árvores, um lirismo nostálgico, mas que, como era de esperar em seu autor, nem de longe tangencia um sentimentalismo fácil. E Monteiro filma estes momentos como sempre gostou de fazê-lo, com planos longos e distanciados, mas que nos transmitem uma intimidade e uma proximidade poucas vezes vistas.

Quanto ao amor pelas atraentes raparigas, neste quesito João Vuvu mostra-se insuperável. Um certo conhecido, não admirador de Vai-e-Vem, definiu o filme como "uma série de papos intermináveis para tentar comer as mulheres-a-dias". Sem sombra de dúvida, isso não deixa de ser verdade, mas nas infinitas situações que monta para seduzir as várias empregadas domésticas ("mulheres-a-dias" em Portugal) que contrata, João revela mais e mais seu pensamento e sua personalidade. Quem mais seria capaz de, mesmo envelhecido, fraco e adoentado, escovar o chão enquanto a empregada espreguiça-se sorrateiramente num divã, ao som do hino anarquista "Bella Ciao", na mais antológica das seqüências de um filme que por si só já configura uma antologia? Qual outro, se não Deus/Vuvu para atirar pelas janelas, gritando "Antigone with the wind", as roupas mal-passadas por uma empregada que nem sabe ligar o ferro, mas trabalha semi-nua, ou então alimentar outra moça com papas de milho para compartilhar com ela suas "doces peidocas".

Além do transparente amor, Vai-e-Vem é um filme, como era de se esperar em Monteiro, banhado em muito humor e deboche. Em suas quase três horas, Monteiro direciona sua metralhadora giratória contra tudo que lhe é possível. Seus longos monólogos criticam a indústria do cinema, políticos (de direita ou esquerda), igreja, polícia, instituições familiares, com um misto de sutileza e grosseria tão característicos e aqui melhor explorados que nunca. Apesar de Vai-e-Vem estar longe de ser um filme rancoroso, o autor não perde a oportunidade de apontar se desprezo aos medíocres (o filho), os irracionais (o velho saudoso do imperialismo português que esbraveja numa das viagens de ônibus) ou mesmo quanto ao quadro político internacional. Não faltam até piadas de americano e afegão. Os poucos minutos em que a foto de George Bush aparece ao fundo do quarto de hospital são muito mais expressivos que tudo que o presepeiro Michael Moore já tenha feito ou venha a fazer.

Mais motivos por que Vai-e-Vem mexeu tanto comigo: quando João Vuvu, ao contratar uma empregada comunista, é indagado quanto ao salário e responde: "Pago pouco para manter acesa a consciência revolucionária", dei a mais franca gargalhada desde Quém Vai Ficar Com Mary. E tem também João Vuvu descrevendo à amiga Fausta sua versão sobre a vida de Cristo, com toda a irreverência e iconoclastia a que se tem direito; tem a menina circundando a praça de bicicleta; tem todos os diálogos banhados em duplo sentido; tem Urraca, a empregada cabeluda; tem João Vuvu narrando ao som de um realejo e num plano de cerca de 15 minutos a história do filho à policial; tem todas as viagens de ônibus.

E tem os fantásticos 40 minutos finais, melancólicos, mas nem por isso deprimentes, muito pelo contrário. Após uma viagem no ônibus onde todos, inclusive o frágil João Vuvu dançam uma música ucraniana, o protagonista vê o anoitecer em uma praça, e regressa no ônibus de sempre em companhia de um garoto que toca sanfona com um cachorro pousado sobre ela, em momentos de um beleza indescritível. Ao despedir-se do garoto, este diz a João Vuvu que completará 11 anos no dia seguinte, ao que João responde: "Pode ser que sim, pode ser que não." É quando João vê chegar em sua vida a doença de forma definitiva, e, para um amante da vida como Monteiro, a proximidade da morte só pode ser retratada pela nada sutil metáfora de ser enrabado por um caralho gigantesco. Mas mesmo ao sair do hospital antes da alta e ciente de sua condição – "É um viver do olho-do-cu desgraçado", diz João Vuvu – o autor/personagem não se entrega e deseja continuar vivendo enquanto for possível, não partindo sem antes seduzir a bela enfermeira. E volta à praça para despejar sobre nós o seu derradeiro olhar. Só que, mais que o longo (quase 5 minutos) plano final do olho de Monteiro em close-up, sobre o qual muito tem sido escrito, talvez fosse necessário que eu tivesse a oportunidade de vislumbrar meu próprio olho neste momento, imerso no fascínio e emoção da descoberta de um filme mais que marcante.

Gilberto Silva Jr.