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Considera-se Ken Loach
o arquétipo do engajamento político no
cinema. Com Sweet Sixteen, cabe a pergunta: não
seria melhor rebaixar o cineasta inglês a simples
estereótipo?
Arquétipos servem
de modelo, são originais. Quando Ken Loach (ainda
assinando Kenneth Loach) egressa da BBC para realizar
dois marcos do Free Cinema, Cathy Volta para Casa
(1966) e Kes (1969), inaugura-se a vertente
social na cinematografia inglesa, ao se olhar pela primeira
vez para a classe operária, para o dia-a-dia
dos subúrbios, para a questão da marginalidade,
da pobreza e da falta de perspectivas em uma sociedade
que se proclama desenvolvida. Aos épicos espetaculares
de David Lean, as produções modestas,
financiadas pela televisão, que enquadram a vida
das pessoas comuns: o estilo semidocumental de Loach
influencia os demais cineastas britânicos que
se seguem, seja Stephen Frears, de Minha Adorável
Lavanderia (1985) e de Coisas Belas e Sujas (2003),
seja Mike Leigh, de Segredos e Mentiras (1996)
e de Agora ou Nunca (2002).
Semidocumental, porque
Loach jamais dispensou o melodrama, usado para forçar
a identificação da platéia com
o personagem principal que, via de regra, sofre como
o diabo. Convencional, estritamente clássico-narrativo,
é nesta via melodramática que reside a
força de Cathy Volta para Casa e Kes,
sobretudo pelo que se aproximam de Luchino Visconti:
o herói, tal Rocco de Rocco e Seus Irmãos
(1960), que presencia seus sonhos desmoronarem em contato
com a dura realidade, tanto o casal que migra de cortiço
a cortiço, aquém dos planos românticos
anteriores ao casamento, em Cathy Volta para Casa,
quanto o menino cuja família desajustada destrói
a possibilidade de escapatória representada pela
insuspeita amizade com o falcão, o qual dá
título ao filme.
Sweet Sixteen,
prêmio de melhor roteiro para Paul Laverty no
Festival de Cannes 2002, também parte do conflito
entre o desejado e o possível. Na Escócia,
Liam (Martin Compston), junto a seu amigo Pinball (William
Ruane), envolve-se com o tráfico de drogas. Prestes
a completar dezesseis anos, o protagonista pretende,
com o dinheiro da atividade ilegal, oferecer melhores
condições de vida à mãe
(Michelle Coulter), ela própria viciada, que
sai da cadeia, além de livra-la do namorado traficante,
Stan (Gary McCormack). Como símbolo do recomeço
sonhado por Liam, há o trailer longe da cidade,
onde planeja morar com a mãe, com a irmã
Chantelle (Annmarie Fulton) e com o sobrinho.
Loach, no entanto, parou
no tempo, como se ainda existissem carvoeiros na Inglaterra,
como se trabalhistas e conservadores permanecessem diferentes,
como se o Muro de Berlim não tivesse caído
e, com ele, o socialismo, como se a globalização
não complexificasse os métodos de exploração
e de dominação econômica, política
e cultural do agora neoliberalismo. Se Visconti, por
exemplo, renova-se com O Leopardo (1963), ao
refletir sobre suas próprias decadência
aristocrática e homossexualidade, e com Vagas
Estrelas da Ursa (1965), ao abandonar a câmera
antropomórfica para adotar o zoom que perscruta
e desvenda livremente o ambiente, Ken Loach apenas se
repete em Sweet Sixteen: as mesmas imagens, pretensamente
naturalistas, mas carregadas de melodrama piegas, da
delinqüência juvenil, do desajuste familiar,
da pequena bandidagem, dos bairros pobres. Da necessidade
de realizar filmes socialmente engajados, ou seja, com
"mensagens" para passar aos espectadores que
os assistem, o diretor – que consegue, ans discussões
e rachas entre as diversas facções da
esquerda que lutam na Guerra Civil Espanhola em Terra
e Liberdade (1995), ou no anacronismo romântico
de Pão e Rosas (2000), momentos de rara
inspiração – faz de Sweet Sixteen mero
pastiche de Kes, sua obra-prima.
Portanto, no panorama
atual do cinema engajado, melhor ficar com Rosetta
(1999), estrela da primeira edição da
mostra De Olhos Abertos, ou com O Filho (2002),
ambos de Jean-Pierre e Luc Dardenne, já que Ken
Loach, em Sweet Sixteen, apenas estereotipa a
si mesmo.
Paulo Ricardo de Almeida
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