Sonho de Fábrica
de Luc Decaster, Rêve d’usine, 2002, França

A fábrica de colchões suíça Epeard, na pequena cidade francesa de Mer, está para fechar. Os funcionários – que receberam as cartas de dispensa durante o ano novo de 2000 – lutam para manter seus empregos. A derrota, porém, é certa.

No documentário Sonho de Fábrica, selecionado para a abertura da 2a. Mostra Internacional de Cinema Engajado (De Olhos Bem Abertos), Luc Decaster filmou cerca de oitenta horas de material com os trabalhadores de Mer para, segundo ele, através da montagem, permitir que cada espectador compreendesse o filme a partir de suas próprias experiências pessoais. A proposta do cineasta, desse modo, consistia em fugir do cinema de tese, ou seja, do documentário que organiza as imagens captadas apenas para dar razão ao ponto de vista do diretor, já determinado a priori.

Luc Decaster escapa, em Sonho de Fábrica, de direcionar / manipular a atenção da platéia, mas o faz pela absoluta falta de talento quanto ao espetáculo cinematográfico. Como não consegue copiar Michael Moore, Decaster opta pela forma mais convencional de documentário, a entrevista com os personagens e a filmagem do dia-a-dia na fábrica, sem abandonar, contudo, as mesmas pretensões totalizantes que movem o paladino da democracia americana: se Michael Moore arma verdadeiro circo para provar associações estapafúrdias entre a venda de armas nos EUA e os massacres escolares em Tiros em Columbine (2002), ou entre a família Bush e os Bin Laden em Fahrenheit 11 de Setembro (2004), o diretor francês parte para o "registro" da realidade, como se o simples ato de ligar a câmera fosse capaz de apreender o real que lhe se apresenta.

Trata-se, assim, da afirmação de ambos como portadores únicos da verdade, cada um a seu modo (mesmo que Decaster se aproxime de Moore na constrangedora seqüência em que os empregados cercam, ironizam e exigem explicações do diretor-geral da fábrica). Para o cineasta francês, está em jogo a defesa dos trabalhadores de Mer – e não poderia ser diferente, pois jamais um documentário "engajado" defenderá os patrões –, utilizando-se do antigo pressuposto socialista da luta de classes, dos ricos contra os pobres, dos exploradores contra os explorados (com diz explicitamente uma operária durante o filme).

Como questão central da acumulação capitalista permanece, claro, a dialética entre burguesia e proletariado. Decaster, no entanto, simplifica-a, moldando-a aos padrões do século XIX, quando havia clareza a respeito dos papéis desempenhados por cada classe, bem como a certeza de que a fábrica regulava o relacionamento entre elas. Em pleno século XXI, quem são os patrões? Certamente não o diretor da Epeard, funcionário como os demais, que segue ordens de acionistas dispersos e sem identidade (não seria mais incisivo questionar a falta de ética envolvida nesta estrutura econômica que coloca companheiros de trabalho em lados opostos?). Quem são os empregados, já que os operários da França divergem daqueles do Sudeste Asiático ou da América Latina? E que fábrica é esta, no momento em que se busca flexibilidade e eficiência na produção, em que se cortam os custos e se descentralizam as operações?

Decaster passa ao largo dos rumos da nova economia. Há, contudo, em Sonho de Fábrica, seqüências que aludem às mudanças ocorridas no mundo e especialmente na Europa, e que salvam o filme do fracasso: quando os trabalhadores discutem sobre o plano da empresa de emprega-los em outros países do continente, remetendo ao livre mercado da União Européia; a divisão dos operários quanto a ação a seguir para evitar o fechamento da fábrica, refletindo a impotência dos sindicatos com o fim do socialismo e das velhas bandeiras de luta, as quais não se adequam ao neo-liberalismo vigente; a troca da razão social da Epeard para Epearf, mostrando como as corporações se tornam horizontais, fluidas, maleáveis e praticamente inatingíveis.

Portanto, com Sonho de Fábrica, Luc Decaster não investiga as novas relações de trabalho que se impõem na França e na Europa, para em troca se refugiar na segura, porém insípida, dicotomia socialista herdada do século XIX.

Paulo Ricardo de Almeida