Sacrifícios
de Oussama Mouhamad, Sunduk al Dunya, 2002, Síria

- Que foi?

- Que foi que foi?

Repetido à exaustão, este é o diálogo que atravessa Sacrifícios de ponta a ponta: à pergunta, que expressa perplexidade, responde-se com o mesmo questionamento, de forma a amplificar a desorientações dos personagens. Selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2002, o filme de Oussama Mouhamad (formado pelo Instituto de Cinema de Moscou) abusa do simbolismo - lembra A Cor da Romã (1968), de Sergei Paradjanov - para refletir acerca do conflito árabe-israelense, bem como sobre a insanidade que tal guerra inflige aos que nela se envolvem.

Na história contada em Sacrifícios (caso se possa falar em história neste filme que foge tanto ao cinema clássico-narrativo), mostra-se o cotidiano de uma família, a qual vive em local indeterminado - sabe-se apenas, pela língua e pela religião, que são árabes -, a partir do nascimento, no mesmo dia, de dois primos (há ainda um terceiro). Através da série de sketches que preenchem a estrutura narrativa, Oussama Mouhamad apresenta o relacionamento entre os três primos e seus familiares, sobretudo após a partida do pai de um deles para, possivelmente, a Guerra dos Seis Dias.

Rogério Sganzerla, no curta-metragem Informação: H. J. Koellreutter (2003), diz que, por não sabermos como nos expressar, inventamos metáforas. O cineasta sírio, frente à impossibilidade de representar a guerra sem, de maneira imoral, espetacularizá-la - Amos Gitaï, em O Dia do Perdão (2000), filma a guerra do Yom Kippur sem mostrar uma batalha sequer -, frente ao desafio de exibi-la sem apelar para os clichês do gênero, resolve apreende-la por símbolos, os quais desconcertam os espectadores, desafiados a construir sentidos para as imagens inusitadas criadas por Mouhamad: o olho da face coberta de lama, os ovos, os bigodes que nascem nos meninos, as interpretações anti-naturalistas ao extremo, os onipresentes contornos de portas e de janelas, o rádio que não pára de tocar.

As respostas (ou as possíveis respostas, já que Sacrifícios permite diversas leituras) se encontram no pai que retorna da guerra, pois é dele o olho enlameado que abre o filme. Desde o início, Oussama Mouhamad fala a respeito da querela entre árabes e israelenses, mesmo que apenas o descubramos em retrospectiva, ao reunir os fragmentos não-narrativos a fim de, como no quebra-cabeça, desvendar a imagem enigmática em sua totalidade.

O indício mais evidente das intenções do cineasta está, por certo, no rádio - da esposa que espera o marido regressar da batalha - que executa sem cessar canções militares. No entanto, há, em Sacrifícios, igualmente, as portas e janelas que aprisionam os personagens - os quais, arfantes e aos berros, desesperam-se por não entenderem o mundo caótico em que vivem -; o professor mais preocupado em evitar o sol do que em ensinar o Corão; as crianças que, forçadas a crescerem em tal ambiente hostil, desenvolvem bigodes a princípio injustificáveis; e a tensão sexual pronta a explodir entre os três primos e a jovem, bela e misteriosa Faryouzka.

Mouhamad, assim, traça quadro essencialmente repressivo da sociedade árabe, ao atacar com violência as bases que a sustentam, ou seja, a interdição do sexo, a religião islâmica, a família patriarcal e o militarismo. Não surpreende, por conseguinte, que o meio social agressivo onde sobrevivem os personagem acabe por leva-los à insanidade e ao horror, especialmente o pai, o qual regressa enlouquecido da guerra: sujo de lama - externalização simbólica do câncer armamentista que o corrói por dentro -, ele obriga seu filho e seus sobrinhos a beberem óleo, a fim de prepara-los para a luta de morte contra Israel. Seqüência assustadora, na qual se invoca A Grande Nação Árabe, o pan-arabismo, professado por Nasser (presidente egípcio que liderou as ofensivas militares contra o Estado judeu), que sustenta a causa palestina no momento anterior à ascensão dos xiitas no Irã e à adoção dos atentados terroristas como método principal de combate.

Em meio à violência e à angústia, com o pai obcecado pela guerra contra Israel, resta ao garoto se esconder no caixão, como se já estivesse morto. Mouhamad, contudo, não o abandona à própria sorte: pelo buraco feito na tampa, ele consegue ver uma árvore, que ocupa todo o quadro. A árvore da vida, tão presente nas pinturas simbolistas de Gustav Klimt, e homenagem do exasperante Sacrifícios ao derradeiro título da filmografia de Andrei Tarkovski.

Paulo Ricardo de Almeida