Nativos
de Jesse Lerner, Natives, 1995, EUA

Filmado para o curso de cinema da University of Southern California, o curta-metragem Nativos mostra fenômeno atualíssimo no contexto político dos EUA: a imigração ilegal de mexicanos para a Califórnia, através da fronteira entre o país latino-americano subdesenvolvido e o estado mais rico da União.

Como ponto de partida, Jesse Lerner escolhe a fundadora do movimento "Acendam a Fronteira", que defende o término da imigração mexicana em favor os "verdadeiros" valores da sociedade americana. A escolha como operação fundamental, o próprio recorte do tema investigado enquanto ato político, na medida em que o cineasta deixa falar, em seu documentário, somente os que se opõem à imigração, ou seja, as vozes conservadoras da Califórnia que se vêem ameaçadas em seu estilo de vida pela entrada maciça de mexicanos no país.

A preocupação com a ameaça estrangeira é apresentada com clareza desde o início, quando a primeira entrevistada (a já citada de "Acendam a Fronteira") refere-se à imigração mexicana como forma de invasão, na qual cultura menos desenvolvida se apropria de outra mais avançada. O postulado racista desta declaração, como dos demais que constituem o filme, é evidente. No entanto, todos os personagens consultados, sem exceção, negam-no enfaticamente, pois dizem estar contra os imigrantes mexicanos ilegais, e não contra os imigrantes mexicanos em geral. Trata-se de mero jogo de palavras, que Jesse Lerner desmonta a cada nova entrevista, a cada nova declaração preconceituosa. De sorte que Nativos opera sobre o nível discursivo, já que, se o cineasta permite a livre enunciação por parte do grupo selecionado, é para montar seu próprio discurso, valendo-se dos absurdos filmados pela câmera com a intenção e criticar violentamente esta parcela nacionalista e atrasada da população californiana que considera não apenas mexicanos, mas também qualquer estrangeiro (os "aliens", enfim), como espécies sub-humanas.

Jesse Lerner suscita indignação, porém não manipula a platéia. Por reconhecer a força do material que tem em mãos, o cineasta dispensa recursos apelativos e vis, tão em voga nos documentários americanos recentes, tais como o sensacionalismo barato para chamar a atenção (o filme, por sinal, é em preto e branco), as "pegadinhas" que divertem e satisfazem a sede de vingança do "homem comum" ou as ironias grosseiras que desqualificam os objetos da crítica, ao taxa-los simplesmente de idiotas (o mais grave desta estratégia é acabar com a discussão em prol da afirmação imediata de conceitos formulados a priori). Como não se incomodar quando se responsabilizam os imigrantes mexicanos pelo aumento da criminalidade? Como permanecer passivo frente a idéia de enviar os fuzileiros navais ao México para fuzilar quem atravessar a fronteira? Como se desinteressar pela acusação de que os latino-americanos são incultos e de que, em conseqüência, desconhecem o significado real da democracia?

Em Nativos, Jesse Lerner realiza exercício de alteridade, dando a palavra aos entrevistados, escutando-os (algo que os "nativos" não concedem aos imigrantes). O cineasta enquanto ouvinte. Há, por certo, clara divergência de opiniões entre aquele que representa e os que são representados, como está patente na seqüência em que o diretor tenta argumentar com duas senhoras fundamentalistas, conseguindo somente se constranger. Porém, aceitar as diferenças implica necessariamente em conviver com tensões, as quais servem para renovar a sociedade, além de possibilitarem o surgimento de belos e incisivos filmes como Nativos.

Paulo Ricardo de Almeida