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Filmado para o curso de
cinema da University of Southern California, o curta-metragem
Nativos mostra fenômeno atualíssimo no contexto
político dos EUA: a imigração ilegal de mexicanos para
a Califórnia, através da fronteira entre o país latino-americano
subdesenvolvido e o estado mais rico da União.
Como ponto de partida, Jesse Lerner escolhe a fundadora
do movimento "Acendam a Fronteira", que defende o término
da imigração mexicana em favor os "verdadeiros" valores
da sociedade americana. A escolha como operação fundamental,
o próprio recorte do tema investigado enquanto ato político,
na medida em que o cineasta deixa falar, em seu documentário,
somente os que se opõem à imigração, ou seja, as vozes
conservadoras da Califórnia que se vêem ameaçadas em
seu estilo de vida pela entrada maciça de mexicanos
no país.
A preocupação com a ameaça estrangeira é apresentada
com clareza desde o início, quando a primeira entrevistada
(a já citada de "Acendam a Fronteira") refere-se à imigração
mexicana como forma de invasão, na qual cultura menos
desenvolvida se apropria de outra mais avançada. O postulado
racista desta declaração, como dos demais que constituem
o filme, é evidente. No entanto, todos os personagens
consultados, sem exceção, negam-no enfaticamente, pois
dizem estar contra os imigrantes mexicanos ilegais,
e não contra os imigrantes mexicanos em geral. Trata-se
de mero jogo de palavras, que Jesse Lerner desmonta
a cada nova entrevista, a cada nova declaração preconceituosa.
De sorte que Nativos opera sobre o nível discursivo,
já que, se o cineasta permite a livre enunciação por
parte do grupo selecionado, é para montar seu próprio
discurso, valendo-se dos absurdos filmados pela câmera
com a intenção e criticar violentamente esta parcela
nacionalista e atrasada da população californiana que
considera não apenas mexicanos, mas também qualquer
estrangeiro (os "aliens", enfim), como espécies sub-humanas.
Jesse Lerner suscita indignação, porém não manipula
a platéia. Por reconhecer a força do material que tem
em mãos, o cineasta dispensa recursos apelativos e vis,
tão em voga nos documentários americanos recentes, tais
como o sensacionalismo barato para chamar a atenção
(o filme, por sinal, é em preto e branco), as "pegadinhas"
que divertem e satisfazem a sede de vingança do "homem
comum" ou as ironias grosseiras que desqualificam os
objetos da crítica, ao taxa-los simplesmente de idiotas
(o mais grave desta estratégia é acabar com a discussão
em prol da afirmação imediata de conceitos formulados
a priori). Como não se incomodar quando se responsabilizam
os imigrantes mexicanos pelo aumento da criminalidade?
Como permanecer passivo frente a idéia de enviar os
fuzileiros navais ao México para fuzilar quem atravessar
a fronteira? Como se desinteressar pela acusação de
que os latino-americanos são incultos e de que, em conseqüência,
desconhecem o significado real da democracia?
Em Nativos, Jesse Lerner realiza exercício de
alteridade, dando a palavra aos entrevistados, escutando-os
(algo que os "nativos" não concedem aos imigrantes).
O cineasta enquanto ouvinte. Há, por certo, clara divergência
de opiniões entre aquele que representa e os que são
representados, como está patente na seqüência em que
o diretor tenta argumentar com duas senhoras fundamentalistas,
conseguindo somente se constranger. Porém, aceitar as
diferenças implica necessariamente em conviver com tensões,
as quais servem para renovar a sociedade, além de possibilitarem
o surgimento de belos e incisivos filmes como Nativos.
Paulo Ricardo de Almeida
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