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Em Ernesto Che Guevara,
Diário da Bolívia (Ernesto Che
Guevara, Jounal de Bolivie, 1994, França),
Richard Dindo se antecipa à despolitização
da imagem do guerrilheiro efetuada por Walter Salles
em Diários de Motocicleta. Como no filme
de Salles, Dindo canoniza Che Guevara, ao mostrá-lo
como homem essencialmente bom, que se sacrifica pelo
povo boliviano, mas que acaba incompreendido por este.
Ernesto Che Guevara, Diário da Bolívia
é obra fúnebre, que apresenta os locais
(agora vazios) por onde Che empreendeu sua luta, contrapostos
à onipresente narração em off (pronunciada
com a gravidade típica dos documentários
de Silvio Tendler) de seus escritos, a fim de tão
somente acusar a população indígena
local por não ter ajudado àquele que veio
lhe "libertar" da opressão capitalista.
O Lado Esquerdo da
Geladeira (La Moitié Gauche du Frigo,
2000, Canadá) parte de conceito instigante: questionar
a inserção do cinema, arte burguesa por
excelência, na sociedade capitalista, a qual se
baseia na mais-valia da força de trabalho. Através
da trama em que documentarista filma seu companheiro
de quarto à procura de emprego, o cineasta Phillippe
Falardeau busca colocar em xeque as separações
tradicionais entre sujeito do enunciado e sujeito da
enunciação, entre aquele que representa
e o objeto representado, as quais estão no cerne
da estrutura cinematográfica, visto que, na realidade,
elas apenas reproduzem as desigualdades do meio econômico-social
onde se originam. Falardeau, no entanto, peca na execução
do conceito, pois opta por narrativa convencional -
que força situações dramáticas
visando impactar a platéia, mas que soam falsas,
desnecessárias e desonestas - repleta de piadas
sem graça e de "pegadinhas", saídas
mais fáceis do que romper com a estética
e com a linguagem burgueses que, efetivamente, impregnam
o filme.
Há esquizofrenia
gritante em O Lucro e Nada Mais (Le Profit
et Rien D’autre, 2002, Haiti), uma vez que o diretor
Raoul Peck transita - e se perde - entre exibir a realidade
miserável de seu país e realizar investigação
intelectual acerca da "essência" do
capitalismo. Às imagens do Haiti, Peck sobrepõe
narração em off pomposa que se assemelha
à colagem de discursos antiglobalização,
os quais, apesar de nada dizerem de novo, satisfazem
a esquerda desamparada com antigas ladainhas socialistas.
Com Defeito Zero
(Zero Defaut, 2002, França), Pierre Shöeller
fala sobre a influência nefasta da sociedade capitalista
sobre as relações afetivas, por intermédio
da família que se desestrutura quando a esposa,
para aumentar seu salário, aceita emprego noturno
na fábrica onde o marido também trabalha.
Existem, contudo, dois defeitos em Defeito Zero.
Primeiro, de ordem narrativa: o cineasta não
consegue que a trama paralela, envolvendo amor platônico
entre a já citada esposa e seu vizinho árabe
recém-aposentado, adquira mínima função
dramática. Por fim, conceitualmente, Shöeller
não reflete a respeito da célula familiar
enquanto pilar fundamental da estrutura de dominação
imposta pelo capitalismo aos indivíduos. Incomoda,
igualmente, a passagem superficial do diretor sobre
os dilemas éticos e morais enfrentados pelo casal
protagonista, embora seja interessante a idéia
de que, na estrutura capitalista, homens e mulheres
são tratados como meras máquinas em meio
a outras tantas.
O material com que Ferenc
Moldovanyi trabalha em Children: Kosovo 2000
(idem, 2002, Bósnia) revela-se poderoso, pois
permite ao cineasta descortinar o ódio secular
entre sérvios e albaneses, bem como a dor e o
ressentimento gerados pela Guerra do Kosovo de parte
a parte, mas também perigoso, visto que apela
para a face mais inocente do massacre - as crianças
- a fim de proporcionar ao público identificação
imediata com o filme. Conflito conteúdo / forma:
como criticar documentário com tema tão
relevante? É a pergunta atrás da qual
Moldovanyi se esconde, já que Children: Kosovo
2000 manipula e dirige a atenção,
sobretudo através ad música arquidramática
que preenche a obra inteira, e da oposição
entre as entrevistas "objetivas", em preto
e branco e com câmera fixa (ou seja, com mínimo
de recursos para parecerem, aos olhos da platéia,
mais críveis), e a filmagem subjetiva, com câmera
trêmula, dos ambientes devastados pelas batalhas.
Em outras palavras, o cineasta bósnio apenas
explora as experiências trágicas das crianças
de Kosovo para, de maneira imoral, levar os espectadores
à catarse. Todavia, destaque positivo para a
seqüência na estação de rádio,
onde menina pergunta às crianças sobre
como sobreviveram durante a guerra: cinema observacional,
em que Moldovanyi deixa que um pouco de real bruto entre
no filme, sem a mediação de técnicas
narrativas mal-intencionadas.
Em Além de Gibraltar
(Au Delà de Gibraltar, 2003, Bélgica),
está em jogo o atualíssimo fenômeno
da imigração árabe em direção
à Europa. Trata-se de clássica história
de amor entre diferentes - ele, imigrante pobre e desempregado,
ela, belga bem estabelecida - a qual, salvo os conflitos
excessivamente dramáticos com que os diretores
Taylan Barman e Mourad Boucif pontuam a narrativa (como
se o cotidiano repleto de privações da
comunidade árabe já não fosse suficiente),
funciona bem. De que forma o afeto pode sobreviver em
meio à exclusão social, ao preconceito,
à pobreza, à violência? Segundo
os cineastas, ele consegue, quando o amor desce da pura
abstração romântica para se transformar
em método de resistência às injustiças
de nosso tempo. Sentimento igual à política,
a fórmula simples, porém verdadeira, de
Além de Gibraltar.
Paulo Ricardo de Almeida
Textos sobre filmes exibidos na mostra De Olhos Bem
Abertos:
Nativos,
de Jesse Lerner
Sacrifícios,
de Oussama Mouhamad
Sonho
de Fábrica, de Luc Decaster
Sweet
Sixteen, de Ken Loach
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