A FAMÍLIA
Sergio Sollima, Cittá Violenta, Itália/EUA, 1970

Dos cineastas que fizeram parte de uma história bastante particular do cinema italiano, a do chamado cinema de gênero, Sergio Sollima talvez seja o menos estudado entre os grandes nomes que bateram ponto ali. A beleza de seu cinema difere de diversas vertentes em voga na época, das possíveis aberturas políticas, trabalhadas por cineastas como Sergio Corbucci e Damiano Damiani, ao extremo do trabalho com a câmera de um Leone. Embora traga mais do terceiro que dos outros citados, o cineasta parece estar mais para um Enzo Castellari, cineasta que tal qual Sollima vai trafegar entre todas estas vertentes sem necessariamente fazer parte de uma. Todavia, para além de fugir de possíveis aprisionamentos, o cinema de Sollima tem momentos de uma pureza raríssima.

Todo o filme é pensado e arquitetado entre dois atos, o primeiro abrindo e o segundo fechando. São duas cenas compostas com extremo cuidado pelo cineasta, talvez duas das melhores seqüências de ação já filmadas. Na primeira acompanhamos a priori Charles Bronson e sua esposa Jill Ireland em um barco, numa cena filmada com atmosfera quase surreal. Logo em seguida seremos introduzidos ao primeiro momento chave do filme, uma em nada pequena obra-prima do cinema de baixo orçamento, envolvendo uma perseguição de carros com o protagonista. O primor da decupagem de Sollima na exploração dos pequenos becos em que os carros se metem é de uma maestria rara. A seqüência se fecha quando Bronson finalmente descobre que fora traído, e que sua esposa estava envolvida. Tudo o que se segue no filme é o mais puro sentimento da espera o personagem de Bronson não vive, ele somente vaga aguardando o momento em que estará livre para se extinguir em paz. O filme perseguirá então este sentimento, sempre ao lado de seu protagonista.

Entre estes momentos Sollima estabelecerá diversos dos códigos básicos dos filmes de gênero, mostrando todo o mundo que cerca o personagem de Bronson, uma porção de personagens bastante ambíguos com os quais Bronson faz contato, uma longa seqüência de ação onde o cineasta explora ainda mais o sentimento da espera, e aguardamos por um longo tempo até que o protagonista acerte um tiro a longuíssima distância em uma vitima que lhe pagaram para matar, com o detalhe de que a pessoa participava de uma corrida de carros. Sollima aguarda o momento exato para a precisão perfeita não só da execução do trabalho de Bronson, mas para alcançar o limite de uma tensão construída em torno de uma cena onde sequer temos acesso direto com a vítima, além de fazer com que nos preocupemos um tanto mais com a execução ser bem-sucedida. Sobram ainda outros libelos feitos com maestria, como as cenas em que Bronson contracena com Ireland, sempre na dúvida da posição da personagem em relação a tudo em sua volta, mas principalmente dominando-a fisicamente, sobretudo na cama. Em certo momento, Telly Savalas surge em cena como um chefão do crime que pode não ser tão poderoso assim é impressionante que a cadeia de personagens com que Bronson cruza abra sempre tantas brechas e permita que muitas destas sigam em dúvida até o fim. Numa atuação completamente picareta, Savalas deixa sua marca rapidamente no filme, mas trabalha precisamente o equilíbrio entre o cômico e o servir como alimento para as tensões permanentemente em cena no filme.

Quando o filme parece estar a ponto de explodir, clarificando seu sexismo (francamente genial), surge provavelmente sua cena mais pura (como cinema) em seu todo: o ato final, o momento tão aguardado e Sollima não decepciona de forma alguma. A seqüência é ainda mais bem pensada que a primeira, com exímio trabalho no tempo e no uso da ausência de som. Em um grande prédio, um elevador carregando personagens-chave do filme sobe assim como Bronson, podemos lhes observar do lado de fora, pelo vidro. A tensão parece nunca ter sido feita com tanto talento os cortes nos momentos exatos, o aguardar do último suspiro em um fim pré-anunciado. O final surge como a única saída possível, em que uma sensação de paz fica um tanto clara. A perseguição chegou ao fim. Obra-prima
.

Guilherme Martins