 |
|
Por
um Antidocumentário
Leitor bissexto de Contracampo, onde, inclusive já publiquei
ensaio ("Cinema Hagiográfico"), gostaria de comentar alguns
equívocos e omissões constantes do artigo, "Eu
não vou falar sobre "documentário brasileiro", de
Felipe Bragança (edição número 60). Igualmente, quero
deixar registrado que nada do que será dito a seguir é
pessoal, pois desconheço a formação intelectual do autor,
outros textos e até livros dele (se houver), o que não
deixa de ser, sem ironia, uma lástima. A ironia reside
em que ambos nos desconhecemos a obra, a minha imodestamente
constituída de trinta e seis filmes e dezoito livros (roteiros,
ensaios e poesia). Nem por isso estas palavras são menos
pertinentes.
Mas, vamos ao artigo: a começar pelo própria amnésia recorrente
dele. Pelo que, inclusive, desde logo vou pedindo desculpas
ao leitor por ser forçado a uma auto-referência antes
de ir em frente. Além de cinco filmes de ficção (Lance
Maior, A Guerra dos Pelados, Aleluia,Gretchen,
Cruz Sousa - O Poeta do Desterro e do inédito,
Lost Zweig), sou autor de mais uma trintena de
documentários, alguns deles, "docudramas", cinco deles,
de longa-metragem, a saber, Revolução de 30, República
Guarani, Guerra do Brasil, Rádio Auriverde
e Yndio do Brasil (todos lançados em vídeo pela
TV Cultura de São Paulo e distribuídos pela Frontlog -
novamente, me perdoe o leitor...). E, no momento, estou
concluíndo um sexto, Véu de Curityba, sem falar
em dois outros, in progress, O Contestado - Restos
Mortais e Transparências de São Paulo.
Pois bem, causou-me espécie o tônus, um misto de preguiça
investigativa e soberba acadêmica (relevem a redundância...),
da suposta exegese analítica produzida pelo articulista
a respeito do doc brasileiro. Primeiro, por passar a impressão
de que o cinema documental no país nasceu quando ele começou
a se interessar pelo tema; depois, por dar como definitivo
a sua presunção de "eliminar" assim, numa canetada - corroborando
o seu discutível breviário conceitual -, a existência,
sim, de um estilo de documentário brasileiro e, de cambulhada,
passar por cima da existência, sim, de uma vasta filmografia
de "docudramas" e colagens (que é onde me alinho). Assim,
estes poucos parágrafos se prestam (se é que se prestam...)
como uma inesperada contribuição para tentar "atualizar"
e, também, "incluir" o "pensamento" do articulista na
memória do doc brasileiro, bem como, homenagear o leitor
momentaneamente "cegado" pelo censura histórica promovida
pelo autor. Do jeito que está, suspeito que seu texto
seja fruto de um incontrolável compadrio afetivo, ou é
ventriloquismo de algum inconfessável ideário político-ideológico,
ou ainda é pura e depurada desinformação, mesmo! Todos,
enfim, insuportáveis para um comentarista que se queira
isento e eticamente impoluto, e que escreve para uma revista,
como "Contraponto", seara de tantos talentos jovens da
crítica cinematográfica brasileira.
A par dos vesgos insigths emitidos (cinema de ficção versus
documentário - o que é isso!? (Gramado entrando de carona:
concorri nesse e em Brasília inúmeras vezes e venci algumas
"ficções"; documentário tout court e não ao "documentário
brasileiro", documentarismo (sic), etc.) - o ostensivo
desconhecimento da minha filmografia acabou sendo o que
mais me chamou a atenção, lógico! Exatamente, porque mexe
com toda ela, perpassada que é, dessas inquietudes e contradições.
Ainda que, curiosamente, nas entrelinhas do texto eu consiga
vislumbrar inequívocas pistas de que a freqüenta, mas
prefere calar a citá-la, pois isso desmontaria o seu incensado
parque hagiográfico. Na verdade, devo "reverenciar" a
omissão do articulista, que nada mais faz do que dublar
outros escribas e editores do mesmo jaez que insistem
em banir o meu cinema, ao invés de buscar nele e na vasta
filmografia de docs brasileiros, obras que não se "enquadrem"
no seu vade-mecum reducionista.
Por partes: "ignora" o articulista que, há mais de vinte
anos, com Revolução de 30, inaugurei no cinema
brasileiro um estilo de colagem com filmes de arquivo
(sempre imitado, inclusive, por professores da academia
que vez por outra se travestem de cineastas (sic), retomado
com novas cores e riscos em Rádio Auriverde e Yndio
do Brasil, no entanto, jamais citado, melhor dizendo,
reconhecido, pelos amanuenses oficiais da história da
nossa cinematografia; igualmente "ignora" que há mais
de duas décadas, com República Guarani inaugurei
no cinema brasileiro a "dramaturgia da entrevista", tornada
um estilo no anos '80 em Vida e Sangue de Polaco,
O Auto-Retrato de Bakun e Guerra do Brasil.
E, quando falo em "dramaturgia da entrevista", não se
trata apenas de enfatizar uma técnica, sem mais. Porém,
de uma ética discursiva inextricável da estética dos filmes,
que, aliás, se espraia sobre toda a minha obra, seja ficcional,
seja documental (qual a diferença!?), caracterizando o
que, há anos, intitulo de um "cinema desideologizado".
Uma filmografia eqüidistante de todo e qualquer modismo
estético e alinhamento político-ideológico, onde não se
procura fundar verdade alguma, nem transformar figurinhas
mediáticas e "heróis da nacionalidade" em santos. Um cinema
crítico de fero engajamento moral, humanista e de irresgatável
respeito ao "outro" e ao dissenso.
Face a isso, não é de espantar o encantamento (leia-se,
cacoete) do articulista pelo que chama de "documentário
por excelência": o doc tipo "reality show", com as pessoas
transformadas em espetáculo, na linha de "Esta é a sua
vida", must que ultimamente vem se repetindo à náusea,
e que não vai além de um mix de "Big Brother", "Cidade
Alerta", "Linha Direta" e do "antigo" "Globo Repórter"
(nada contra, também dirigi GR nos anos '70, programa
que acabou carimbando até um formato que uma geração inteira
de documentaristas copiou e mal!). Um cinema que "reinvente"
o doc no seu sentido moral, um cinema que se volte contra
os macetes da estrutura documental "clássica" (no pior
sentido...), se insurja contra a entrevista "emocional"
herdada ao telejornalismo policialesco, ou com locutor
levando o espectador pela mão (fui o primeiro a eliminar
a figura draconiana e autoritária do narrador nos meus
filmes - isso há mais de duas décadas!), um cinema que
desestruture ontologicamente a realidade (sempre conservadora)
e o olhar cinematografico de outros tempos, que não seja
servil a idéias, imagens e personalidades servis, um doc
antidoc, um cinema antichapa branca, antiutópico, um cinema
anti-hagiográfico, um cinema livre e libertário - isso
não vem ao caso e à tona diante da necessidade de o texto
do articulista manter-se fiel à sua "camisa-de-força"
estética e ideológica.
No fundo, faço toda essa constatação acompanhada de um
travo de tristeza e decepção. A cada dia que passa, mais
e mais, na maior impunidade e imunidade institucional,
uma certa históriografia hegemônica do cinema brasileiro,
criminosamente excludente, expele, congela e despreza
um "outro cinema" (a minha obra é exemplo lapidar!), como
se alguns cineastas fossem pretos, judeus e índios e não
merecessem direito à memória, à diferença formal e ética,
direito à vida, enfim!
Ainda que nada de pessoal, repito, me tenha animado a
contestar o tom arrogante do artigo, cotidianamente venho
reagindo, na maior solidão (esse é mais um protesto que
também acabará caindo no vazio, exceto as surdas represálias
a ele...), a um pesado custo intelectual e profissional,
a um constante patrulhamento, a um olvido e a tentativas
de achatamento da minha filmografia em retrospectivas,
publicações e na historiografia. Impossível deixar de
associar esse sistemático "castigo" à diabólica e sórdida
rotina estalinista de apagar da foto quem, por pensar
e filmar a contrapelo, não devia estar ali, e, no entanto,
está porque de alguma forma colaborou para que o flagrante
fosse possível. Um dado, porém, é líquido e inquestionável:
o documentário brasileiro dos útimos quarenta anos existe
(também) porque a minha obra existe!
Sylvio Back
sylvioback@msm.com.br
|
|
| |
|
|
|
|