Corrida em busca do cinema
(Sobre a exibição de Corrida em Busca do Amor)

Mesmo não se tratando de um grande filme - na verdade, longe disso - Corrida em Busca do Amor, o primeiro longa-metragem de um de nossos maiores cineastas (em importância fílmica e histórica), Carlão Reichenbach, é uma experiência única. Tendo sido exibido em São Paulo pela primeira vez em mais de trinta anos, o estado da cópia - em 16mm, é parte do acervo de um colecionador - é impecável (jamais tendo sido restaurada ou guardada em cinemateca - a cópia em posse desta em São Paulo não possui som). É preciso contextualizar para que se possa compreender como foi gerado este filme. Reichenbach fora contratado para dirigir o que inicialmente seria uma variação dos filmes estrelados por Roberto Carlos e dirigidos por Roberto Farias, um filme de corrida de carros, a ser estrelado por um ícone mais barato da jovem guarda, Ronnie Von. Mas mais barato ainda era o orçamento do filme - que não só impediu a presença do cantor como deixou na mão a equipe do filme em certo momento. O interesse do cineasta então baseava-se muito mais na própria experiência de realização do que na ambição em expor suas idéias (e o filme possuir diversas das características que Carlão viria a usar em seus filmes posteriores é só mais uma prova da força do autor). O filme é essencialmente interessante como reflexo do caos e de um certo tesão por este - daí notar que os problemas passados pela equipe técnica mais do que desviaram o curso do filme originalmente entendido, mas lhe trouxeram a salvação milagrosa.

Na sua primeira metade, o filme só parece sobreviver em uma ou outra seqüência engraçada, enquanto se mostra todo o percurso em que duas equipes se preparam para uma corrida de carros. A péssima construção de personagens irá prejudicar fatalmente o filme inclusive em seus melhores momentos, dado tamanho o desinteresse que parece presente perante estes; logo a disputa pela garota vai ser estabilizada num ambiente onde a música e alguns momentos inspirados de experimentos com a câmera (acompanhados, é verdade, de experiências meio lamentáveis também) se tornam o que de mais interessante se espalha na tela, mas nada prepara o espectador pra tamanha mudança que se dá na segunda metade.

Livrando-se da fraca narrativa do roteiro, Corrida vai da água pro vinho a cem por hora. Passa a ser possível notar ali naquelas imagens um dos cineastas que mais bem filma o corpo humano no mundo, a ação física mesmo nos momentos onde a situação técnica era precária sobrevive graças ao tesão pelo cinema físico. Corrida vai se tornando mais do que o grande aprendizado de Carlão Reichenbach, mas uma verdadeira busca pelo cinema, de todas as partes. Enquanto impera o caos e a anarquia em cena, brilha mais do que nunca a estrela de Sylvio Renoldi na montagem, traduzindo na ação narrativa o caos ali imprimido, mas também a imaginação refrescante do cineasta que coloca em cena momentos brilhantes que surgem do nada. A participação de Jairo Ferreira, uma anárquica cena envolvendo uma briga com tortas, o impagável Dr. Ivan, o Terrível, encarnado em cena pelo próprio cineasta; em certo momento, quando o carro superveloz que "titio Ivan" deveria ter construído não está mais em mãos, ele saca uma pílula que transforma suas pernas num motor turbinado (!), e vence a corrida correndo com uma ambulância que troca de cidade repentinamente. Factualmente, aliás, a narrativa do filme não tem o menor sentido, tornando-se genial acompanhar como os personagens parecem trafegar num mundo totalmente cinematográfico e absurdo. Como o próprio cineasta apontou após a sessão, este é um dos poucos filmes onde, a quinze minutos do final, entra em cena um novo personagem importante, o radialista, que vai acabar sendo o protagonista dos quatro (!) finais do filme.

Ao se desprender do que sugeria ser um roteiro fraco e esquemático, subvertendo-o em algo anárquico e fascinante até em seus momentos que não funcionam, torna-se difícil não colocar Corrida em Busca do Amor como algo mais que um grande aprendizado para o cineasta - como um excelente expoente do que o cinema pode ser no seu estado mais puro. O interesse de Reichenbach pela ação filmada revela que, opostamente à mera subversão do cinema de gênero, o filme é na verdade essencialmente o gênero em si - para além das regras, imagens em movimento. A constatação, talvez numa escala menor, vai lembrar certamente um dos grandes mestre do diretor (e de todos nós), Samuel Fuller. Não será propriamente num sentido de que o objeto lembre-o, mas sim a inversão e a paixão ali exibidas que causam a aproximação com Fuller. Ainda que com alguma distância na comparação (Corrida tem suas muitas pedras no caminho, mesmo na segunda metade, tais não eram presentes na grande maioria dos filmes de Fuller), haverá sempre poucos elogios mais fortes.


Guilherme Martins