A QUESTÃO DA CULTURA (1970)

64 e 68 não foram suficientes ainda para a inteligência brasileira (a estas alturas pode-se ler burrice) superar o culturalismo e o liberal-reformismo institucionalizado a partir de 1922 por Mário de Andrade.

Longe das metrópoles ocidentais que tentam se libertar da moral e da cultura opressivas do passado, nas colônias distantes os culturalistas continuam sabotando toda invenção em nome da "cultura brasileira" e da Arte com A maiúsculo para tranqüilizar o ocupante. Oswald de Andrade (1894-1954) continua sendo tabu pois fora do revisionismo oficial ninguém admite a invenção considerada "irresponsável".

(os culturalistas que tentaram matar Oswald vão pagar em futuro próximo a dívida histórica; jamais conseguirão substituí-lo por Mário, o diluidor, o bibliotecário erudito.)

Sabotando toda criação fora dos moldes oficiais em nome de "uma frente única contra o inimigo", os culturalistas se esquecem de que o inimigo está também entre nós. Defender a cultura nacional equivale a imitar a remota cultura ocidental e outras noções importadas das metrópoles que há muito tempo jogou-a no lixo. "Um dos maiores erros", assinala Fanon, "é tentar revalorizar a cultura no quadro de dominação cultural".

A cultura, objeto de segunda mão ainda em uso em certas colônias distantes no tempo e no espaço, continua sendo expressão da classe possuidora e exploradora que a criou.

Trótski: "Cada classe dominante cria a sua cultura e em conseqüência sua arte. A história conheceu as culturas escravistas da antigüidade clássica e do Oriente, a cultura feudal da Europa medieval e a cultura burguesa que hoje domina o mundo. Daí a dedução de que o proletariado deva tentar criar a sua cultura e a sua arte (...) É fundamentalmente falso opor a cultura e a arte burguesas à cultura e à arte proletárias. Essas últimas, de fato, não existirão jamais porque o regime proletário é temporário e transitório. A significação histórica e a grandeza moral da revolução proletária residem no fato de que esta planta os alicerces de uma cultura que não será de classe mas pela primeira vez verdadeiramente humana (...) Contrariamente ao regime dos possuidores de escravos, dos senhores feudais e dos burgueses, o proletariado considera a sua ditadura como um breve período de transição.

Pode-se portanto concluir que não haverá cultura proletária. E para dizer a verdade, não existe motivo para lamentar isso. O proletariado tomou o poder precisamente para acabar com a cultura de classe e abrir caminho a uma cultura da humanidade. Esquecemos isso, ao que parece, com muita freqüência".

A cultura em si a própria idéia de cultura já apresenta um caráter de classe e é preciso acabar, dissolver com a noção de cultura seja cultura feudal, burguesa ou proletária.

"Prefiro um bom poema de amor a um mau poema político, porque o mau poema político desserve a revolução".

Nem a classe intelectual, os poetas e os camponeses têm qualquer chance histórica de tomar o poder num contexto subdesenvolvido. Pois foi exatamente em torno desses falsos dilemas que a inteligência subdesenvolvida adjetivou, mentiu, enganou e perseguiu uma estética aristocratizante-sentimental-europeizante. São as alegorias camponesas, as vocações reformistas de maus poetas, as heranças cultivadas que mais do que ninguém intoxicam, deturpam e exploram o público brasileiro, Ninguém pode, em momento nenhum e em qualquer país, negar que a obra de Arte com A maiúsculo não seja comprometida com o sistema a não ser que seja burro ou desonesto.

Ao contrário do que pensam os piedosos culturalistas, não existe obra política reacionária na forma e progressista na mensagem. Na verdade, o equívoco não é um equívoco, mas uma contrafação ideológica a oferecer prestígio, dinheiro e má consciência aos responsáveis não só pela "cultura nacional brasileira" mas pela infra-estrutura intelectual que oprime o colonizado.

Quanto a mim, há muito tempo luto não só contra a cultura ocidental mas contra a criação de uma cultura subalterna nos moldes ocidentais como também contra a comprometedora idéia de cultura.

Diante do incêndio universal, é mesquinho, provinciano e reacionário querer defender o que é nosso; a partir da destruição da cultura dos outros, tentar salvar o nosso pequenino patrimônio de idéias. Ao mesmo tempo não deixo de rir antropofagicamente e dar mais um tchau cultura. Ou como ameaçava Maiakóvski: "acabaremos contigo, mundo romântico!"

Quem é, então, o inimigo mortal do cinema novo?

Os produtores independentes, os não-reformistas, os radicais, os profetas, os criadores.

(É preciso ficar mais uma vez claro que isso tudo pega mal para eles, que o problema é deles, quem passará o vexame histórico serão eles, aliás como prevíamos desde 1968)

Quem ganhou quase todos os prêmios oferecidos pelo Instituto Nacional de Cinema no Brasil de 1970? Antônio das Mortes e a pobre cúpula do cinema novo. E pronto.

Consciência dividida e má consciência

Agora nós tocamos no problema chave e na vida íntima de cada um deles: a má consciência.

A consciência dividida entre a vanguarda e a reação os estagnou na tradicional má consciência formalmente traduzida por um esteticismo autocomplacente e tardio.

Ninguém do cinema novo pode tratar de outro tema que não seja a má consciência. Impossível deixar de fazer filmes de má consciência (Antônio das Mortes, Macunaíma, Os Herdeiros, Brasil Ano 2000, a má consciência aflorando principalmente na safra colorida "grande produção", onde a concessão chega a ser escandalosa e poderia paradoxalmente dar em bom cinema se não fosse o complexo de culpa e o arrependimento sobrecarregados)

Ainda em 1970 a técnica principal do stalinismo latino-americano continua sendo a conciliação principalmente com a burguesia nacional.

Lenin convidou o proletariado a estender a luta de classes ao plano da moral. "Aquele que se inclina perante as regras estabelecidas pelo inimigo jamais vencerá!" (Trótski)

No Brasil, a conciliação continua sendo a estratégia vital do culturalismo stalinista. O deslumbramento constitui forma de impulso de ascensão social para a classe média colonizada que "quer fazer cinema de autor" precisamente depois da falência total deste último respiro liberal da social-democracia ocidental.

Reduzidas as devidas proporções, este movimento é um meio de alguns ascenderem socialmente satisfazendo seu deslumbramento dentro de uma moral paternalista e repressiva (por exemplo: as pessoas e obras não-desejáveis ao movimento, por determinação expressa da cúpula, são sistematicamente sabotadas, caluniadas, queimadas e denunciadas).

Trágica é a vocação do brasileiro para a conciliação, a bajulação e o paternalismo repressivos.

Como toda diluição, não vale a pena falar mal do cinema novo. É como criticar a censura: ninguém por dentro tem coragem de gostar da censura ou do cinema novo.

O que nos interessa é destruir a infra-estrutura intelectual que oprime o colonizado: o culturalismo ainda poderoso nas províncias distantes ainda não atingidas pela revolução industrial, onde predomina o autoritarismo paternalista e/ou populista. À teoria ingênua de que "o elemento nacional já nos basta" somam-se os preconceitos e os complexos de culpa, o deslumbramento, o sentimentalismo discursivo e a tradicional má consciência, disfarçados pela política do culturalismo, da cultura nacional, da colaboração com a burguesia nacional e da teoria stalinista da revolução num só país.

A América Latina continua sendo um dos últimos redutos internacionais do stalinismo. Os PCs só formalmente apoiaram a luta armada entre nós.

O intelectual latino-americano, quando se julga "participante", é um cristão ingênuo, deslumbrado e auto-complacente, exclusivamente racional e auto-censurado (seu grande inimigo não é a ditadura mas... o irracional) com acentuada tendência ao stalinismo que na América Latina acomodou-se maravilhosamente ao tradicional populismo. Daí a criação de uma cultura centralizada, "nacional", populista e de preconceitos, liberal-humanitária-estetizante, conteudística, sentimental, individual, anti-industrial, anti-antropofágica, anti-internacionalista.

Diariamente a realidade continental se encarrega de destruir tais preconceitos mas cabe a nós extirpar definitivamente o culturalismo de nosso subconsciente explorado e subdesenvolvido. Cabe a nós extirpar a moral stalinista, o culturalismo e o reformismo populista deformações inseparáveis, que precisam ser destruídas de um só golpe internacionalista.

Todo mundo tem direito de fazer abacaxis. Principalmente nós, cineastas brasileiros, podemos experimentar à vontade sem se preocupar com a qualidade de nossos filmes voluntariamente impuros, anormais, subdesenvolvidos por condição e escolha. Qualquer um pode fazer seus abacaxis. Não é contra a qualidade de alguns filmes do Cinema Novo que chamamos a atenção; pelo contrário, o insucesso de um abacaxi não quer dizer nada nem responsabiliza o seu autor, pois cada filme é uma unidade diferente, uma nova aventura.

Quando começamos o ataque contra os culturalistas, procurei deixar bem claro: não era contra a qualidade de um ou outro filme que nos dirigíamos mas contra o projeto geral, a política do Cinema Novo, aprioristicamente, globalmente reacionária nas suas intenções, na moral de grupo, no paternalismo familiar, no que se quer de um filme no resultado, na baixa densidade criativa desses filmes. Eles não são ruins somente por problemas de produção, mas principalmente porque o diretor, há muito tempo atrás, antes de começar a fazer cinema, ele já estava conciliando, traindo o irracional, se comportando perante o Cinema Novo. Os filmes são aprioristicamente ruins e deixamos claro que, quando criticamos, não é o filme mas todo o Cinema Novo, seus filmes todos em bloco não conseguem sobreviver à castração imposta pelos quadros cinemanovistas. Atacamos simbolicamente todos os filmes do cinema novo, em bloco, principalmente os vexames mais vulneráveis da cúpula, na verdade, a única responsável pelos seus próprios abacaxis e pelos abacaxis de outros. A cúpula é quem mata os filmes muito tempo antes de ser escrita a primeira linha do roteiro. É essa cúpula que vamos destruir. Ou destruí-la ou o cinema brasileiro afunda de uma vez.

Todos sabem que mexer na infra-estrutura intelectual é dinamizar (isto é, incomodar; pois é o que fizemos, incomodamos, abrimos a polêmica), a infra-estrutura política do subdesenvolvido.

Discutir cinema oficial é abrir fogo contra o partido e os stalinistas, não há dúvida.

O que eles fingem não saber é que o culturalismo perderá mais terreno ainda com a falência do liberalismo e da social-democracia. Maio, o terrorismo e a extrema-esquerda se encarregam de tirar-lhes todo sentido.

Não será mais possível ilustrar demagogicamente mensagens populistas para a burguesia nacional aplaudir, caricatura sórdida e dependente da burguesia ocidental. Os cúmplices da burguesia nacional estarão fora das decisões reais do futuro.

A incômoda radicalização atual destruirá suas principais forças de apoio; o resto deixo para a história contar. Acabou. Fim de papo. Não darei mais nenhuma colher de chá. Chega, Brasil!

fim

Rogério Sganzerla