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Querido
Valente,
Eu compreendo que você não queira entrar no aspecto
teológico do filme de Gibson embora só o compreenda
na medida em que isso geraria uma polêmica que você
não poderia sustentar por não ser especialista em teologia.
Na verdade, nem precisa, pois a teologia gibsoniana
é de uma infantilidade a toda prova. Por isso mesmo,
fiquei um pouco desorientado pelo seu texto porque,
imaginando encontrar nele uma abordagem estética e cultural
(e não teológica), ele me pareceu muito pouco crítico
sob estes pontos de vista. Aquilo que você sugere ver
como indícios de uma estética cinematográfica de nível
("métodos clássicos da linguagem cinematográfica
como inúmeros planos ponto de vista encarnando o olhar
de Cristo, ou a centralização dos flashbacks em momentos
de lembranças claramente dele") eu me sinto inclinado
a considerar como um manejo ingênuo e primário de montagem,
cuja única proeza é numa dialética teológica
extremamente rudimentar, apoiada num roteiro que quer
eliminar toda contradição, ironia e implausibilidade
dos Evangelhos (textos nos quais o filme se apóia ou
se diz apoiar) a de se congelar em pólos narrativos
binários (seqüências intermináveis de "porrada na cara
& flashback", "tortura & flashback", "espancamento
& flashback", "sangue, muito sangue, cada vez
mais sangue & flashback"), onde se tentaria construir
uma dimensão histórica fiel da economia dos acontecimentos.
De um binarismo tão tosco e sem colorido que chega ou
à irritação ou simplesmente ao tédio absoluto. Gostaria,
portanto, de colocar algumas questões suscitadas pela
sua defesa do filme.
Inicialmente, o mais grave, a dialética da montagem
o termo é velho, mas é exatamente isso que Gibson
constrói com o roteiro. O uso irritante dos flashbacks
só se explicaria, e se justificaria teologicamente,
como a ligação direta entre as palavras eucarísticas
de Jesus aos seus discípulos e o advento do Cristo flagelado
pelas mãos do homem o que, de certa forma, do
ponto de vista da cristologia mais rasteira que se possa
conceber, é o óbvio ululante. Por isso mesmo, o olhar
final de Maria para a câmera, "acusando a humanidade",
que você aponta no filme como algo pedagogicamente positivo,
vem coroar não o sucesso ou força dessa teologia mas
o primarismo melodramático da direção e do pensamento
cristológico de Gibson, bem como a cena final de Jesus
transfigurado em Cristo, limpo das feridas e
do sangue, belo e impoluto no sepulcro banhado pela
diáfana luz do sol, ontologicamente acordado pela música
coral-transcendental de gosto extremamente duvidoso
não reflete nem faz refletir nenhuma salvação
da espécie humana mas o velho e insuportável fecho-de-ouro,
tipicamente hollywoodiano: finalmente o herói, depois
de todas as provações e para além de todas as conseqüências
lógicas do roteiro, sai vivo e pronto para seu glorioso
destino futuro. Luz e trevas, bons e maus, mocinho e
bandidos. É essa a construção semiótica da Passio
Christi de Gibson (nome mais apropriado para um
filme em latim e aramaico na verdade, que bobagem
tudo isso, se fosse narrado em português iria causar
muito mais impacto e controvérsia): no final das contas,
um filme binário, típico da sessão da tarde, mas com
censura de 17 anos?
Já vi gente dizendo que o filme não poderia ser diferente
pois é a narrativa descrita nos Evangelhos daí
a inflexibilidade do roteiro. Gibson estaria sendo fiel
aos fatos. Nada mais absurdo. Primeiro que os Evangelhos
não são documentos históricos no sentido de serem
eles arquivos exatos sobre a vida de Jesus (em
se considerando que ele tenha mesmo existindo, o que
já é concessão da minha parte). Os Evangelhos são também
opções narrativas e textuais, também interpretações,
ideologicamente concebidas, trabalhadas e retrabalhadas
em grupos diferentes de seguidores do movimento de Jesus.
Há diferenças entre eles, de conteúdo e de teologia.
Só não vê isso quem é cristão e/ou fanático não
é o nosso caso. Em segundo lugar, o fato de a narrativa
estar dada de antemão nada significa. O teatro grego
clássico, do ponto de vista dos conteúdos, dos subtextos,
foi um dos mais modorrentos do mundo, todas aquelas
histórias mitológicas que todo espectador já sabia de
cor, sempre os mesmos personagens e situações, sempre
os mesmos desfechos inexoráveis. No entanto, foi com
esse material que eles produziram suas famosas tragédias,
das quais restaram algumas, e que eles pareciam adorar
já que faziam anualmente festivais com os mesmos
velhos enredos e tratavam os dramaturgos vencedores
como heróis. Mesmo nós, distantes dois milênios e meio
dessas peças e sem o contexto sócio-cultural que lhes
era peculiar, ainda as apreciamos e as capitalizamos
em nossas leituras, faculdades e teatros contemporâneos.
Mas nem se precisa ir muito longe. Qualquer um que já
tenha ouvido a Paixão Segundo São Mateus, de
Johann Sebastian Bach para apenas citar um exemplo
sabe que, do ponto de vista da fidelidade narrativa
aos Evangelhos (Mateus, no caso), é uma obra muito mais
radical que o filme de Gibson, o texto evangélico (traduzido
para o alemão por Lutero) é citado à risca, está todo
lá, sem nenhuma modificação, sem tirar nada, apenas
(apenas é ótimo!) os acréscimos (árias e coros) que
do ponto de vista luterano explicariam a narrativa evangélica
em si (esta, por sua vez, às custas de um tenor e de
um baixo-contínuo). Julgar esteticamente uma obra com
esse calibre é outra coisa. Eu que do Credo nicênico
só creio nas palavras "passus et sepultus est" (o que
já é uma grande simpatia com a causa cristã, pois pelo
menos acredito em alguma coisa) não acredito
numa linha sequer do que está escrito lá, mas, quando
a música começa, a gente fica com litros de coisas interessantes
a dizer ao analisar sua forma, diferença, dramaticidade
e simbolismo.
A interessante superposição que você faz de Jesus-Caviezel-Gibson,
por sua vez, se for correta, traz mais aspectos negativos
que positivos à interpretação do filme. Implica que
Gibson, para além do binômio "voz autoral" x "voz narrativa",
se identificando misticamente com seu personagem principal,
tem um propósito que ultrapassa o campo estético, cinematográfico,
e extravasa sua interpretação para os campos moral e
político-institucional cuja análise nos daria
arrepios, dadas as suas [dele] concepções cristãs conservadoras.
Sinceramente, sendo demasiadamente simpático com Gibson,
prefiro ainda ver a coisa do ponto de vistas da autoralidade.
É neste sentido, e não segundo aquele que levaria o
fiel (teoricamente) a realizar atos de culpa e resignação
em sua vida quotidiana (ponto de partida do ato de fé
cristão que, entretanto e estranhamente, você desdobra
como conseqüência estética do filme), que valeria a
pena considerar a hipótese do Gibson-mártir. Mas, pensando
bem, ainda assim não consigo vislumbrar algo de positivo.
"Reviver o martírio" pode até ser uma opção ideológica
aceitável para um fanático, mas isso condenaria frontalmente
a idéia do próprio martírio, ato que, embora conseqüente
no seio de uma comunidade de eleitos, é sempre uma posição
profundamente pessoal e solitária: como demonstram os
personagens Maria, Maria-Madalena, Pedro e o Discípulo
Amado, que observam a paixão de Jesus sem a coragem
de se deixar martirizar com ele. Donde, se Gibson se
plasma a Cristo, ele não pode pretender que isso acuse
ninguém já que o martírio existiu, segundo as
palavras do próprio personagem Jesus, o dos Evangelhos,
para que não seja preciso existir novamente. A atitude
de Gibson de "reviver o martírio" se identificando com
o personagem principal de seu filme, se correta, revelaria
seu estado psiquiátrico e o fundo neurótico de sua fé,
ou qualquer outra coisa menos nobre ou empolada, antes
de conter uma acusação contra a humanidade.
Tenho, portanto, muitas dúvidas sobre The Passion
of the Christ ser "um produto autenticamente religioso",
como você sustenta. No leque de palavras e expressões
que você utiliza para definir o que seria esse "autenticamente
religioso" estão: "irracional", "exagerado", "manipulador",
"revoltado como qualquer ato de fé cega", fé cega que
deságua no conceito de "fundamentalista" e, esse termo,
por sua vez, carregaria em si a marca da "honestidade"
de Gibson. Para além de todos os adjetivos, porém, está
a expressão mais importante: a de que Gibson "não negocia",
que o filme é "absolutamente radical", "desagradável
e exagerado como o grito de um fanático". Não deve ser
mistério que atos fundamentalistas não necessitam em
nenhuma instância do adjetivo "religioso". Daí que a
honestidade fanática, "fundamentalista", de Gibson deve
ser cuidadosamente separada de seu suposto conteúdo
religioso, pois ela poderia existir em qualquer dimensão
ou, do ponto de vista fílmico, em qualquer enredo e
com qualquer subtexto. Na verdade, contrariamente ao
que você sustenta, acho que Gibson negocia bastante:
com Hollywood e com o gênero de filme-pancadaria (e
não com o filme-bíblico) ao qual associou seu nome e
conseguiu fama e dinheiro. Afinal, reza a lenda, trata-se
de 25 milhões de dólares. Acho que, se tivéssemos de
usar o termo violência como conceito, o personagem Jesus
sofre uma violência que vem, não da narrativa (fiel?)
dos Evangelhos, mas das construções mitológicas do cinema-porrada
americano, que seria, por sua vez, o reflexo direto
e ideal de uma sociedade fundada na violência
mito que até um canastrão como Michael Moore consegue
explorar em causa própria com sucesso. Por isso, acho
que a riqueza maneirista dos detalhes de tortura, chicote,
pregos, sangue e cortes plasticamente a única
coisa interessante no filme, antes de passados os primeiros
vinte minutos são fatos estéticos em si mesmos,
que poderiam ser transpostos serena e cirurgicamente
para um filme brasileiro sobre o AI-5 (desde que tivéssemos
25 milhões de dólares pra isso). E que já estão presentes
em filmes anteriores de Gibson-ator-diretor, como Braveheart
(1995): ali vemos Gibson, camuflado em herói escocês,
querendo sistematizar a violência como símbolo e arquétipo
contra a tirania dos odiados ingleses, inimigos dos
futuros pais da América antítese (nação-américa
versus ingleses) que, por sua vez, é o tema de (Gibson-ator)
The Patriot (2000). The Passion faria do
cristianismo o mito do sofrimento ideal, raiz de todas
as mitologias do sofrimento, base da conduta moral de
todo americano saudável e legalmente constituído: em
tal sistema, a válvula de escape do sofrimento seria,
portanto, a violência, o sangue, a morte. Quem sabe...
De todo modo, em Braveheart como em The Passion,
a violência em si não significa muita coisa para além
desse mito americano. Se descartarmos o mito, a violência
é mais um elemento a ser gerido entre tantos outros
e, sozinha, não justifica o filme. Nem consegue sozinha
construir qualquer rede de conceitos que legitime os
adjetivos "radical", "exagerado", "manipulador", nem
qualquer dimensão religiosa que o filme possa ou venha
a ter.
Por outro lado, concordo mas não exatamente nos
mesmos termos com a crítica às acusações, injustificadas,
de sadismo. Na verdade, não tenho certeza se você é
partidário ou não dessa teoria. Quem diz que o filme
é sádico deve primeiro definir muito claramente o que
isso quer dizer onde estaria esse sadismo e em
que grau ele deveria ser conotado ou denotado. É uma
questão de limites psicológicos ou uma questão de estética,
propriamente? Garanto que ver esse filme foi de um tédio
tão grande que quase dormi no cinema. Eu não posso compreender
por que motivo alguém vomitaria de horror vendo um filme
cujas cenas seriam sádicas ou atrozes. São, no fundo,
mas não muito no fundo, estratagemas tolos, como são
tolos os filmes de terror mas, se rimos e zombamos
das pessoas quando dizem sentir medo nesse gênero de
espetáculo, por que não seria também estúpido sentir-se
afetado pelo suposto sadismo de Gibson? Em resumo, tais
conceitos são estética e psicologicamente relativos.
Assim como ninguém analisa um filme de terror pelo nível
de terror que ele supostamente contém, não vejo em que
medida o nível de violência imputado ao personagem principal
tornaria um filme melhor, mais radical, mais incisivo,
mais autêntico, mais honesto. Neste caso, a violência
é um atributo frouxo demais para a contemplação de qualquer
verdade. Também não me arriscaria a medir The Passion
com um conceito tão nebuloso como o sadismo no
sentido de se querer usar esse conceito como elemento
que implica e potencializa a violência, gerando um ganho
estético e funcional qualquer , principalmente
para quem vê violência escancarada todos os dias em
filmes americanos e fora deles. Onde Gibson veria ou
proporia sadismo e violência, eu vejo tédio e falta
de imaginação.
Também concordo com o fato de o filme não ser anti-semita.
Nem precisamos de muitos argumentos. Gibson facilmente
se esquivaria do problema alegando que "os Evangelhos
são assim [quer dizer, anti-semitas]". Falso. Seria
um argumento indireto e sutilmente polêmico, outorgando
a outrem uma falsa responsabilidade que só serviria
para alimentar a promoção do filme e do interesse pelo
cristianismo: teríamos de ir até o Novo Testamento para
conferir. Pois até o roteiro deixa entender que Jesus
que nunca foi cristão era judeu: isso
já basta. Judeus querendo a morte de judeus só pode
ser anti-semita na cabeça de algum retardado. Muito
provavelmente, o que é mais interessante de imaginar,
o filme é anti-romano: talvez por isso Gibson tenha
colocado atores italianos falando latim, com sotaque,
para uma eventual e velada polêmica. Talvez Gibson e
seus 25 milhões de dólares, católicos altamente conservadores,
não tenham perdoado a Cúria Papal pelo Concílio Vaticano
II. Hipótese por hipótese, esta é tão boa quanto a do
anti-semitismo.
Mas o que realmente me deixou chocado quando li sua
crítica foi a possível ligação direta que você estabeleceu
nos dois últimos parágrafos do seu texto
entre bilheteria e valor. Isso não porque um fenômeno
de bilheteria não possa ser também um fenômeno estético
(e vice-versa) mas porque não existe nenhuma dimensão
criticamente argumentável que faça essa relação ser
auto-evidente e se sustentar por si mesma. Daí que simplesmente
concordar, como crítico seja lá do que for, com a mera
hipótese de existência necessária dessa relação é extremamente
bizarro. Não é porque The Passion tem ou teve
enorme bilheteria que deve ser julgado melhor ou pior
do que é, que vai merecer ou não o esforço de interpretação
de um crítico ainda que seja um famigerado crítico
de jornal. Isso é tão óbvio que me deixa confuso ao
ter de colocar no papel. ESFORÇOS de marketing
estão ligados à vontade e ao dinheiro de seus produtores
mas EFEITOS de marketing são muito voláteis e imprevisíveis.
Quero dizer, o sucesso é sempre uma incógnita. E, mesmo
assim, dentre as categorias de sucesso existem variantes
e nuances. Um filme como Goodbye, Lenin, que
é um sucesso europeu, não teve a mesma repercussão nos
EUA. Certamente, não foi um fenômeno de bilheteria.
E o que seria esse sucesso de Goodbye, Lenin?
Um sucesso relativo porque em vez de 100 milhões dólares
arrecadou 25 milhões? Ou um sucesso absoluto porque,
apesar de não ser americano e ter por trás uma
superestrutura de capital e distribuição conseguiu
alcançar 25 milhões? Woody Allen, provavelmente, faz
mais sucesso em Paris que em Los Angeles. Isto faz dele
mais ou menos sofisticado, mais ou menos evidente, mais
ou menos digno de nota? Quer dizer que globalmente
ele não faz sucesso, que só faria sucesso se vendesse
100 milhões de dólares, ou que, a se levar em conta
o número bruto de pagantes, só seria realmente um
sucesso mundial se o fosse também na China e na Índia
mercados de bilhões de espectadores? Sinceramente,
acho que conceitos como sucesso e bilheteria (relativos
demais) são insuficientes para analisar filmes de qualquer
tipo, inclusive (ou principalmente, nunca se sabe) filmes
que uma certa crítica chamaria de filmes de massa. Pois,
com as devidas desculpas pelo raciocínio rasteiro, se
bilheteria fosse sinal de qualidade, a falta dela seria
indício de má qualidade estaríamos, com isso,
eliminando do jogo todos os nossos heróis, de Mekas
a Godard.
Claro que, imagino eu, você está consciente disso e,
literalmente, você não disse que sustentava o primarismo
dessa relação. Mas é que, no texto, a coisa está dita
de uma forma que, ato contínuo, o leitor fará necessariamente
essa lógica funcionar. Você diz, em outras palavras,
que é preciso uma complexa análise cultural e sócio-econômica
(até simbólica) para analisar um fenômeno de massa.
De acordo. Mas acho que, uma vez não tendo condições
de fazê-lo naquele momento no texto curto de
uma crítica você deveria ao menos indicar a complexidade
do fenômeno sem invocar uma tese tão pouco consistente
como a relação bilheteria=valor. Uma vez que temos de
invocar teses não estéticas para a compreensão de
The Passion, você poderia argumentar, por exemplo,
que, num mundo midiático, a evidência performativa e
a propaganda representam uma dimensão ontológica tão
(ou mais) válida quanto qualquer outra. Filmar a
Passio Christi envolve muita coisa, principalmente
por causa da alegada religiosidade de Gibson, da dimensão
midiática que o cristianismo possui na cultura americana
e do significado de um filme categoricamente midiático
e hollywoodiano nessa cultura e para a nossa,
já que estamos aqui discutindo isso. Creio que Gibson
está muito cônscio de que, neste mundo eletrônico, o
cristianismo ocidental (alta e paradoxalmente tecnologizado)
perde desesperadamente terreno para o Islã (feudal e
bárbaro) que, ironia das ironias, parece não
querer mais (com ou sem razão) abandonar o noticiário
internacional. É um filme polêmico porque quer colocar
o catolicismo novamente em evidência, no meio da mídia,
onde é o seu lugar. Como, aliás, foi feito. Para o fiel,
sobretudo, é uma oportunidade catártica de ver sua fé
novamente na ordem do dia. Se The Passion fosse
um fiasco de bilheteria, valeria a pena falar dele?
Certamente. Mas, neste caso, eu não estaria aqui escrevendo
a respeito. E, assim, mais uma vez, trabalhando de graça
pela causa dos outros.
Abraços,
Rafael Viegas
rviegas@pobox.com
Querido Rafael,
Que bom vê-lo
por aqui, antes de mais nada! (vale o esclarecimento
aos leitores: Rafael Viegas é um dos sócios-fundadores,
por assim dizer, da Contracampo e um dos principais
redatores dos primeiros anos da revista. Opções
e atribulações profissionais e pessoais
depois causaram o afastamento dele da redação,
mas nunca diminuíram a amizade e o respeito pelo
nobilíssimo colega)
Não
vejo o texto que você nos manda exatamente como
uma carta, e mais como um contra-artigo (sem e com trocadilho).
Assim sendo, acho que não é adequado eu
ficar argumentando com você sobre o filme, como
se fosse uma competição de acertos ou
interpretações. Prefiro que fique meu
texto lá e o teu aqui, cada um com suas forças
e fraquezas a serem vistas pelo leitor num processo,
eu acredito, bem mais enriquecedor.
Queria responder
apenas três pontos que não creio serem
sobre o filme, e sim sobre o meu texto, e aí
apontar, por assim dizer, questões de ordem.
1. A opção
pela "não-entrada" no aspecto teológico
do filme se dá não só por uma mui
assumida ignorância da minha parte sobre o assunto,
para que pudesse embasar qualquer argumento mais longo,
mas também por achar que o espaço da seção
de "críticas" (inclusive com a rapidez de resposta
aos filmes que ela pede) não seria o melhor para
isso como explico logo no começo do texto,
ele é um dos vários possíveis,
e o mais imediato. Nisso, reconheço a confusão
eventual que o uso dos termos "religioso" e "fundamentalista"
acabam adquirindo ao longo do texto. Não acho
que necessariamente os problemas são os que você
aponta, mas acho sim que a rapidez da resposta ocasionou
"escuros" de significado eventuais que permitem leituras
diferentes das que o redator buscava. Ato de contrição
cumprido, portanto para ser bem religioso.
2. Quanto
à minha defesa do filme, ela tem dois aspectos.
O primeiro de intervenção política
mesmo (no caso, a micro-política da crítica
de cinema, poderia-se dizer), onde eu julgava importante,
antes de qualquer coisa, recontextualizar os bisonhos
debates que se ensaiavam em torno do filme nos grandes
meios de comunicação. Ou seja: se o filme
de Gibson fosse ruim, muito piores eram seus detratores
de primeira hora, atirando a esmo como cegos em tiroteio.
Especialmente a questão de uma possível
"dessacralização" de Gibson dos temas
tratados, fosse pelo excesso de violência ou por
uma semelhança do filme com "o cinema de horror,
o cinema B". Reconhecendo a violência como parte
fundamental do martírio; e a influência
(ou melhor, a filiação mesmo) do cinema
de gênero como única escola cinematográfica
de Gibson, e a partir da qual ele monta seu discurso
(e de onde vem inúmeros dos defeitos "primários"
que você aponta, e muito me interessam na sua
"impureza" de linguagem), ambas são características
que me interessam no filme e mais, me parecem
essenciais a ele. Daí que, ir contra um filme
citando como "defeitos" suas características
intrínsecas (nem vou entrar na questão
do sadismo e do anti-semitismo, como você levantou
também), me parece uma tática que, no
mínimo, expõe mais o despreparo e preconceito
do crítico do que do cineasta. Meu artigo, portanto,
de primeiríssima hora (escrito no fim de semana
de estréia do filme), queria recolocar a questão
que se apresentava em outros termos: se o filme tem
problemas, eles são outros, e me apresentem,
por favor (como você faz no seu texto).
Mas, se fosse
só isso, seria como se eu usasse o espaço
de crítica do filme para criticar a resposta
da mídia a partir do filme e isso por
si não seria de interesse. Por isso, entra aí
o segundo aspecto que é o fato do filme me parecer
num primeiro olhar bastante perturbador (fisicamente
inclusive e nem falo de asco pela violência
explícita, e sim resposta orgânica à
sua matriz mais desesperada do que violenta). Voltei
ao filme no cinema bem depois de publicar aquele texto,
e embora mantenha todos os meus argumentos no que se
refere ao jogo com o cinema de gêneros, ao interesse
de sua filmagem do jogo dos olhares, etc, reconheço
que o filme possui muitos defeitos de realização
e ritmo (especialmente na sua parte central), mas o
fato destes não terem me incomodado mais na primeira
assistência também falam de qualidades
do filme (e tantas vezes não há a oportunidade
de voltar ao filme depois). Por isso, tendo passado
por esta revisão, o que digo é: acho o
filme altamente defensável como produto cinematográfico,
ainda que problemático sim. Mas a defesa naquele
momento da apresentação de um outro olhar
sobre o filme me parecia e continua parecendo, essencial.
Queria, desde a época, que a própria Contracampo
publicasse um outro olhar sobre o filme em oposição
ao meu (não faltariam opiniões na revista
para embasá-lo), mas infelizmente ninguém
pôde escrevê-lo. Que bom que você
o faz, agora.
3. Finalmente,
sobre a questão bilheteria-valor, há uma
interpretação única da sua parte
de algo que o texto não afirma categoricamente,
como você aliás coloca. Não há
(ou melhor, como manda a humildade: se há, é
falha de redação e não de raciocínio)
no texto esta correlação, e sim a afirmação
de que o fenômeno que cerca o filme pede uma atenção
especial (não em termos de valoração
estética ou argumentativa, e sim de tentar responder
também ao que está para além do
filme, ou seja, seu sistema de produção
e sua recepção porque também
são temas de nosso interesse aqui na revista).
Assim, a implicação das afirmações
e tentativas daquele final do texto são bem diferentes
das apontadas por você: indicar movimento diferenciado
de interesse, sim, mas não valorizar mais a obra
em si por conta disso (tanto que as duas partes do texto
encontram-se bem separadas).
Estas pequenas
ressalvas/esclarecimentos feitos, espero que o leitor
aprecie ler o seu texto tanto quanto eu especialmente
pela verve que tanto nos faz falta e pelo saber sempre
transbordante.
Um abraço!
Eduardo Valente
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