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"Esteve
no mundo, mas não era do mundo.
Não tinha beleza, mas olhos cheios de amor.
Amou e foi amado pelos pequenos: só uma criança
poderia ir o para o céu.
Realizou prodígios e milagres, mas foi perseguido
pelos doutores.
-Seja bom.
Uma vez na mão dos homens, morreu chamando por
Elias.
Ressuscitou.
E muitos dos que não criam, creram então
vendo-o. Coração pulsante, brilhando a
flor da pele.
Antes de ascender aos céus.
-Estarei bem aqui"
Entre a paródia e a parábola
As semelhanças entre as histórias
de ET e a vida de Jesus vão muito além
de uma inconsciente e casual coincidência de signos
ou estruturas narrativas arquetípicas. Baseada
em uma idéia do diretor e produtor Steven Spielberg,
a roteirista Melissa Mathison criou algo entre uma paródia
e uma parábola da vida de Jesus. Não é
uma paródia por não ser crítico
ou burlesco em relação aos Evangelhos
e também não é uma parábola,
pois parábolas são alegorias de valores
morais e não de outras histórias.
Parábola vem do grego "desvio de caminho".
Trata-se de uma história curta, cujos elementos
são eventos e fatos da vida cotidiana. Escritores
gregos e latinos usaram a parábola, e também
profetas hebreus. Jesus, por exemplo, ensinava por parábolas.
Sua doutrina não era transmitida por cadeias
de raciocínios, mas por signos capazes de gerar
toda a sorte de explicações, reações
e evocações. Interrogado por quê
falava em parábolas, Jesus disse:
"Para que vendo, não vejam.
E, ouvindo, não ouçam
nem compreendam."
Lucas 8:10
Semelhanças e diferenças
ET é uma espécie de "make it
new" ou recriação (no sentido dos
poetas Augusto e Haroldo de Campos) onde as diferenças
entre as histórias ET /Jesus às vezes
afirmam semelhanças.
Jesus está em um mundo dissonante e corrompido.
Jesus é único e propõe uma utopia
aos homens. Jesus não é totalmente deste
mundo. Sua mãe, Maria, foi fecundada pelo "Espírito
Santo".
ET chega em um mundo perfeito: os abastados subúrbios
wasp do sul dos Estados Unidos de 1982. Não propõe
nada: apenas quer voltar para casa. ET não
é único: em sua nave, ele é apenas
mais um. ET não está de acordo com o
mundo perfeito, apenas porque não pertence ao
mundo perfeito.
Já Elliott, o duplo terreno de ET, tem como
única dissonância a ausência de seu
pai. Spielberg diz nos extras do DVD que ET trata
de seus sentimentos quando criança sobre o divórcio
de seus pais. Elliott é um menino fantasista,
e ET será a realização dessas
fantasias. Céu na terra. Nesse sentido, o filme
conta sem contar: a utopia de Jesus pode ser vista como
um céu na terra, aqui e agora. Um reencontro
com um pai cósmico, que seria não uma
falta, mas "A Falta".
Elliott, ET – ressoam entre si, assim como seus nomes.
O divino encontra o humano e se compadecem. Elliot e
ET entram em compaixão. Com-paixão:
sentir junto. ET é/está em Elliott.
Um veste a pele do outro. E a mãe de Elliott
se chama Mary.
Elliott é uma forma inglesa de Elias, nome de
um profeta hebreu que viveu oito séculos antes
de Cristo. Seus feitos guardam uma série de semelhanças,
superposições, encontros e confusões
com Jesus. Elias cura leprosos, ressuscita um morto,
multiplica farinha. O sucessor de Elias, Eliseu, abandona
o arado e o segue, prefigurando Pedro e os demais largando
suas redes para se tornarem apóstolos. Jesus
foi perseguido pelo ímpio Rei Herodes, Elias
pelo ímpio rei Acab. Os feitos de Elias terminam
com ele subindo ao céu em uma carruagem de fogo.
Como se sabe, Jesus e ET também ascendem ao
céu.
Mas a relação de Elias com Jesus não
termina aí. Muitos se perguntavam se Jesus era
Elias revivo, coisa que Jesus nega. Elias chega mesmo
a se encontrar pessoalmente com Jesus (juntamente com
Moisés) no episódio da transfiguração.
Tantas semelhanças e superposições
Elias/Jesus acabaram por gerar um mal entendido durante
o episódio da crucificação. Pouco
antes de expirar, Jesus exclamou, em aramaico, "Eli,
Eli lama sabachtani?", "meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?". Está em Mateus
e Marcos que "alguns dos que ali estavam, ouvindo
isso, diziam: Eis que chama por Elias"
ET, pouco antes de expirar, chama por Elliott.
No visual ET
também ressoa Jesus. Os evangelhos nada informam
sobre aparência física de Jesus, mas o
profeta Isaias, que de certa forma co-roteirizou a vida
de Jesus séculos antes, informa que o Messias
"não tinha formosura nem beleza; e quando
olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos".
Em sua figura, ET tem pelo menos ainda mais dois signos
cristãos relevantes; os olhos plenos de amor
e o coração brilhando no peito, como se
vê em muitos ícones católicos de
Jesus.
Perfeição da infância, perversão
dos adultos
"Graças te dou meu Pai,
Senhor do céu e da terra,
Porque escondeste estas coisas
Aos sábios e aos doutores
E as revelastes aos pequenos"
Mateus 11:25
"...se vocês não mudarem
e ficarem parecidos com crianças como esta,
vocês não vão entrar no reino dos
céus"
Matheus 18-3
Elliott não está simplesmente no mundo
ideal por causa de seu ambiente social e histórico.
A infância é colocada no filme como um
paradigma de perfeição e pureza. O choque
entre "faz-de-conta" x ciência, subjetividade
x sociedade, "aqui e agora" x história,
está presente em todo o filme.
Em momento algum se coloca a hipótese de ET
ser mau ou fazer mal a Elliott. ET é bom, e
ponto final. Estamos vendo o mundo fora da maldade,
da queda.
Adultos só aparecem da cintura para baixo em
quase todo o filme (como em certos desenhos animados
ou em Charlie Brown). A única exceção
é Mary, mãe de Elliott. Maria é
vista e interage todo o filme, mas só verá
ET quando os adultos e seu mundo se mostrarem de corpo
inteiro: a partir da doença de ET
Spielberg filmou tudo realizando as cenas na mesma ordem
em que acontecia a história, para que o elenco
infantil sentisse vivê-la intensamente. Vestisse
a pele. E conseguiu. A atriz Drew Barrimore, que com
apenas seis anos interpretou a irmã mais nova
de Elliott, Gertie, dá a perspectiva do que seria
um certo olhar infantil sobre a paixão de Cristo
quando conta o que sentiu durante as filmagens da morte
ET: "Fiquei tão nervosa vendo alguém
tão gentil e amável sendo machucado. Achava
que tudo no mundo o machucava. Não agüentava
ver alguém que trouxesse tanto prazer sofrer
assim". Sob este ponto de vista, nada se sabe
sobre profecias, verdades ou história. Há
apenas o encontro com um ser extraordinário,
amável e inocente. Que, preso pelos adultos que
parecem o machucar sem razão, morre, ressuscita
e vai para o céu. Esses adultos não sabem
mesmo o que fazem.
Alguns outros ecos
Para dar conta de todas as alegorias cristãs
em ET seria preciso analisar, cena-a-cena, todo filme.
Aqui estão algumas delas:
- ET curando feridas, ressuscitando plantas.
- Elliott/ET libertando os sapos na escola, remete
à expulsão dos vendilhões do templo,
ou à salvação da adúltera.
- Mary e Gertie em casa, com Maria preocupada com o
dia-a-dia e Gertie tentando inutilmente mostrar "o
homem da Lua" à sua mãe, remete
à passagem de Marta e Maria em casa. Marta atarefada
e Maria ouvindo histórias de Jesus.
- Antes de dormir, Maria lê para Gertie uma passagem
de Peter Pan onde Sininho toma veneno em lugar de Peter
para salvá-lo. Por sua vez, para Sininho ser
salva, o leitor deve demonstrar que acredita em fadas,
dizendo-o em voz alta e batendo palmas. Eis que sininho
é salva. Sacrifício altruísta,
fé, ritual e ressurreição. Não
faltou nada.
- Logo antes de voltar para casa em seu disco voador,
ET diz a Elliott: "Estarei bem aqui".
Jesus finaliza o Evangelho de Mateus dizendo: "eis
que eu estou convosco todos os dias, até a consumação
dos séculos", Mateus 28:20.
Retocando o rouge de um rosto pálido
O filme foi relançado em 2002 com mudanças
nos efeitos especiais e cenas adicionais. Spielberg
quis fazer alterações que não contrastassem
com a lembrança que as pessoas tinham do filme.
Em suas palavras, "uma plástica, para
tornar alguém mais expressivo" e "...como
pegar um pincel muito fino e retocar o rouge de um rosto
pálido".
ET, que só era mostrado de corpo inteiro a partir
do encontro Elliott (partir do olhar de Elliott, portanto)
assim aparece logo que a sua nave parte. Uma cena gratuita,
que tira o suspense do filme original, cuja graça
também estava em cenas simples, que escondiam
mais do que mostravam. Por exemplo, ET coberto por
um pano (sua fantasia de fantasma de Halloween), andando
pelas ruas da cidade.
Na nova versão, em várias cenas de close
em ET, o boneco manipulado original foi substituído
por computação gráfica, que adocica
o personagem, explicitando-o demais. Se o belo antes
estava apenas nos olhos de ET, agora tenta se mostrar
por todo o seu rosto. Um ET menos expressivo pode
ser mais ambíguo, porém mais interessante.
Mais uma vez, acaba se mostrando demais.
Outras modificações foram feitas
na nave de ET, que ficou mais carnavalesca, e na cena
em que as armas dos policiais que perseguiam ET e
as crianças foram substituídas por comunicadores.
Um plano em que Maria corria e gritava "Sem
armas! São apenas crianças!"
foi inteiramente cortado.
Com isso, o filme pode ter se tornado mais "atual"
para seu relançamento, ou mesmo mais correto
eticamente, mas corre-se o risco de apagar coisas interessantes
que talvez escapem ao próprio autor ou tornar
o filme menos rico como reflexo de sua época.
Talvez não se leve fé que uma das coisas
que fazem uma história perene seja apenas a fantasia
que investimos nela.
Bruno Lopes Lima
Bibliografia e referências:
www.behindthename.com
- Etimologia de nomes próprios.
www.bibliaonline.com.br
- Bíblia OnLine
http://www.hollywoodjesus.com/et.htm
- Relacionar ET e Jesus não é novidade
na rede
-Bíblia Sagrada, Edições
Paulinas
- Jesus Antes de Cristo - In "Vida".
Autor: Paulo Leminski. Editora Sulina, 1998 - Quatro
biografias escritas por Leminski, reunidas em um volume:
Jesus, Cruz e Souza, Bashô e Trotsky
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