CARTAS
Sobre Alguém Tem Que Ceder, de Nancy Meyers

Eduardo,

Li sua crítica sobre o filme de Nancy Meyers e confesso que me causou um desconforto imenso. Primeiro, acho completamente descabido você considerar este filme como um filme de tese. As imagens do começo não têm absolutamente nada de sociológico e a argumentação da diretora (existe sim a intenção de tratar da "questão feminina") em nenhum momento resvala na idéia de que os homens são uns calhordas e precisamos regenerá-los. Acho o filme honesto por expor a crise de uma mulher de 50 anos: a clara dificuldade de encontrar parceiros da mesma idade ou até mesmo mais novos. O homem tem sim uma facilidade muito maior de encontrar uma nova parceira (muitas vezes mais nova) depois de uma separação.

Bom, mas não se trata de pensarmos em estatísticas. O seu pecado é pensar que a diretora joga com papéis ideais - o jovenzinho perfeito, o machão calhorda - e que com isso ela simplica a questão fazendo da mulher também um ser frágil, sensível, indefeso. Tentando defender uma falta de feminismo no filme, vc incorre no mais alto machismo. Por que isso? A história do cinema, quase toda feita e escrita por homens, sempre lidou com a mulher de forma idealizada. Desde a mulher boa indefesa até a devoradora de homens insensível. Isso não significa que somos joguetes nas mãos dos homens, mas que quando falamos do outro e da nossa relação com ele é realmente muito difícil não recorrer a tipos. Responder à pergunta 'o que éa mulher', assim como 'o que é o homem', é muito difícil. O ser humano é muito complexo e as questões sobre os papéis sexuais em pleno século XXI é complicadíssima. Os papéis mudaram e novas possibilidades, principalmente para a mulher, surgiram. As mulheres hoje em dia puderam assumir muito do que era restrito aos homens: liberdade sexual, por exemplo. Masculino e feminino não quer dizer o que é do homem e o que é da mulher.

Pensemos na personagem de Diane Keaton: mulher intelectualizada e dona de si, mas sozinha. Ela tem tudo o que deseja com exceção daquilo que sempre nos falta, o amor. Uma mulher que tem poder conquistado por um respaldo intelectual e artístico. O que uma figura como essa é capaz de despertar nos homens? Para um jovem médico apaixonado por teatro, ela é o máximo. Para um produtor musical de meia idade apaixonado por ninfetas, absolutamente nada. É como se a personagem fosse dividida entre a sua mente e seu corpo. Com a idade a primeira ganha valor mas a segunda perde. Para a mulher, a dimensão do corpo no jogo sexual é fundamental. O que acontece quando ele não é mais o ideal, como as mulheres do começo? Acho que o filme trata disso e de muito mais coisas. Concordo com um certo ar de marie-clairismo do filme mas acho que é muito mais decorrência do universo rico e fashion nova-iorquino do que pela simplificação das questões.

Realmente me espantei com a violência da sua crítica principalmente quando se coloca numa certa defesa do feminismo. É algo que precisa ser discutido com mais cuidado. Respondi meio de sopetão e gostaria muito que vc me respondesse, mesmo que de sopetão também.

um abraço,
Lila Foster


Lila,

Sopetão é ótimo. Que bom que um texto cause isso em você - fico feliz de saída já que o mais comum são os textos passarem em branco (ainda mais os sobre os filmes "comerciais"), então ter uma resposta destas é das melhores coisas. Dito isso, não vi em nenhuma das suas contextualizações (fora isso, interessantes) uma negação do que eu vi na tela. Me falaram muito, sim, do pensamento feminino - mas pouco mudou do que eu vi no filme, que é o que me importa no texto.

No que tange o "feminino", eu estou longe de querer "compreender as mulheres" (movimento em si impossível - não pelas mulheres serem "tão estranhas" como se costuma dizer, mas por ser "outro", portanto posso entendê-las mas não compreendê-las, de fato - ainda mais numa perspectiva tão generalizante), mas algo que me incomoda profundamente nestes filmes todos é a idealização romântica onde a Mulher sempre está incompleta pela ausência de um "Homem que a complete". Como se essa fosse SEMPRE a questão central na sua vida. Você já reparou como os personagens masculinos meio que "encontram suas mulheres" no meio de alguma outra missão importante - mas nunca (ou quase nunca, claro, há filmes interessantes, aqui falo da média) está "em busca deste amor", "incompleto"? Já com os personagens femininos, se não há este amor, há um problema - e este é o caso de Keaton, como as conversas com a filha, a irmã, todo mundo, no início, comprovam. Eu refuto esta idéia da mulher só encontrar seu lugar no mundo com um homem. Brigo com ela o quanto for - e não acho isso um desrespeito à força do amor, que é UMA DAS COISAS importantes no mundo, mas não a única.

Pior: a necessidade de enquadrar este "Homem que falta" dentro de um ideal prévio, sem aceitar, de fato, o diferente. Por isso a negação de um final com o personagem de Keanu Reeves me parece tão calhorda: implica, a meu ver, na derrota completa de toda uma argumentação que ela mesmo estava criando - e a idéia de filme de tese fica completa se você assistir ao filme e logo depois vir o filme com o Mel Gibson que cito no texto, como eu acabei fazendo quase sem querer. Poderia até ser louvável ela colocar em questão sua própria tese, desde que para isso não precisasse domesticar personagens, como os de Gibson e Nicholson (até uma barba ele cresce!! quer forma mais tosca de representar uma transformação, um "novo homem"?? ), criando uma clara fantasia redentora absolutamente inacreditável (que só têm interesse como isso, a projeção das mais altas ilusões delirantes da diretora) um romantismo no que a palavra tem de pior a meu ver, quase um fascismo dos sentimentos amorosos.

E, juro: fiz questão de checar um mínimo se minha impressões ao final do filme faziam algum sentido com uma mulher. Claro que cada mulher é uma mulher e cada homem é um homem, mas pelo menos o cuidado de ver se o que eu estava sentindo (o completo desprezo pelas idéias ali apresentadas - não pelo drama das mulheres de 50, pertinentes sempre, mas por como ele me era apresentado) fazia sentido para alguma mulher, eu tive. Uma vez que fez para uma, me senti livre de expor para as outras no site - sem jamais pensar que todas iam concordar, mas para pelo menos saber que eu não estava completamente distante das possibilidades de leitura pelo viés "feminino".

Reafirmo, entendi tudo que você falou sobre papel feminino e contemporaneidade e concordo, mas não vi em nada disso uma mudança em relação ao essencial neste texto - como Nancy Meyers joga com essas coisas. A meu ver, continua deplorável. as mulheres me parecem melhores do que aquilo, sempre (não no sentido de "mais boas", se me permite a expressão, e sim mais complexas, menos óbvias).

um beijo,
Eduardo