Crônica de Um Verão foi tudo Cumplicidade
Edgar Morin escreve sobre Jean Rouch

Texto publicado em 24 de fevereiro, uma semana depois da morte de Jean Rouch, pelo jornal Libération.

Conheci Jean Rouch no começo dos anos 50 por meio de um amigo em comum do Centre National de Recherches Scientifiques (CNRS). Era um sujeito boa-praça. Nem intelectual nem cineasta clássico. E havia uma turma muito interessante em torno dele. Lembro-me bem de Jacqueline Veue, a diretora suíça. Aconteceu que nos reencontramos em 1959 no júri do primeiro Festival Etnográfico de Florença, onde estavam sendo apresentados filmes impressionantes, como Primary, de Richard Leacock, ou aqueles dos irmãos Maisles com uma captação de som direto que permitia uma filmagem dotada de grande liberdade. E, claro, havia Les Mâitres Fous, de Rouch, um filme que havia me arrebatado. Ele também tinha aquela liberdade de filmagem, e com algo a mais, uma certa arte de improvisação.

Pois foi lá, em Florença, que eu lhe propus fazermos um filme juntos, sobre a sociedade francesa, a partir da seguinte questão: “Como você vive?”. Foi o que se tornou Crônica de um Verão. No ano seguinte, tínhamos encontramos um produtor, Anatole Dauman. A filmagem deu sua arrancada na primavera de 1960 em um apartamento, o de Marceline Loridan. Nós reunimos pessoas bem diferentes para um belo jantar. Evidentemente, Rouch estava na câmera - uma Coutant com som direto - e eu conduzia os convidados.

Ao longo do tempo de filmagem, que durou vários meses, um dos personagens, o trabalhador da Renault, foi demitido. E Marie-Lou, que no começo havia nos falado muito de solidão, acabou, naquele meio-tempo, encontrando alguém. Podemos vê-lo de costas no filme. É Jacques Rivette.

Ao longo daquela verdadeira aventura existencial, aquelas pessoas estavam se tornando amigas. Já Rouch e eu não sabíamos exatamente para onde o filme estava indo. Além disso, no outono, Dauman nos cortou os recursos. Por conta disso tudo, passamos para a montagem. Era meu primeiro filme como realizador. Tínhamos seis horas para reduzir para uma hora e meia. Ele tendia a querer cortar segundo a agilidade e eu segundo um tom trágico. Ele queria manter apenas as seqüências mais fortes e eu queria preservar os momentos lentos. Foi a montagem de Rouch que ficou como a final. E não porque ele tenha forçado para isso. Eu não tive tempo de apresentar a minha.

Depois daquilo, nós nos revimos nos festivais de documentários. Continuei seguindo com muito interesse seu trabalho como documentarista. Eu gostava menos de suas obras ditas “romanescas”. Um dia, chegamos a falar de reencontrar os protagonistas de Crônica de um Verão e de fazer um outro filme com eles. Aos dez anos... aos vinte anos... Mas nunca conseguimos. Agora, é tarde demais.


Edgar Morin