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Um
velho é enquadrado pela câmera. Veste uns trapos e tem
as unhas sujas. Habita um buraco, onde, seguindo um
ritual nem sempre idenficável, prepara uma "refeição".
Também são mostrados fragmentos, nem sempre em foco,
de características de seu meio físico. A câmera acompanha
seus mínimos gestos, resignifica a vegetação ao reduzi-la
a formas sem significação, busca signos de vida nos
movimentos, de modo a preencher a aparente solidão.
Na montagem, o tempo se faz notar, sem resumo das ações.
Os primeiros momentos de A Alma do Osso, de Cao
Guimarães, duplamente premiado no É Tudo Verdade, na
competição nacional e internacional, provoca um primeiro
desconforto específico. Esse não deriva da modorrência
dos eventos minimalistas, presentes para nos introduzir
no mundo do personagem, mas pela não-reação daquele
velho à câmera.
Ela se proxima do personagem, mas parece disposta a
se omitir. Nenhuma palavra do ser filmado em direção
a quem filma. Nenhuma pergunta de quem filma ao ser
filmado. Nenhum olhar do objeto para o sujeito e para
a platéia. Percebemos que aquele velho, pelas imagens
a nós mostradas, vive isolado da sociedade, embora não
completamente, pois tem latinhas de cervejas, ali usadas
como recipientes. Também teria aberto mão das palavras,
a ponto de não interagir com a equipe? Ou estaria orientado
a nada dizer e a não olhar para a câmera? Ou teria falado
nas filmagens mas, quando as imagem foram montadas,
privilegiou-se apenas os silêncios, os trechos em que
ele é só ação, só imagem, sem nenhuma visão sobre si
mesmo ou sobre a vida? Que velho é esse que, mantendo-se
longe de tudo, em total privacidade, torna pública sua
intimidade?
Nestes primeiros momentos, os planos são fechados. Mal
conseguimos vislumbrar as dimensões da moradia do velho.
O excesso de proximidade impede visões mais amplas.
E assim nos aproximamos do velho e de seu ambiente sem
sabermos quase nada sobre um e outro. Apenas fragmentos.
Temos nessa impressão uma primeira forma de abordar
A Alma do Osso. A própria opção em deformar formas
da natureza, em reformar, ou reformatar, nos induz a
vê-las como fruto de um conceito: a imagem não é fiél
a nada a não ser a seu manipulador. Daí as variações
cromáticas, como a evidenciar, pela luz, o manuseio
da imagem. Vemos o resultado da incidência da luz em
objetos, captados por um aparato que não mantém a luz
como é e depois retransformados por processos de finalização.
Uma imagem, portanto, (re)criada, não captada apenas.
Seria a melhor maneira de nos situar no universo do
filme por meio dos sons em vez de por imagens? Mas muitos
deles são empregados em imagens sem a elas pertencer
no processo de captação, ou seja, um tecido sonoro daquela
espaço e não necessariamente daquele tempo do registro.
Sons diegéticos? Mais ou menos, pois, em alguns casos,
correspondem a outra imagem, não à mostrada. Música
também é empregada. Vemos uma obra, o real remodelado.
Essa natureza mutável dos signos vai sustentar a virada
do filme.
Tudo o que nos é mostrado, por vários e sucessivos minutos,
aos poucos rui diante dos olhos. Depois de sermos colocados
em isolamento, de rompermos com a lógica da velocidade
do sistema de produção, de sermos sequestrados para
a modorrência de um meio arcaico, cercado de natureza
por todos os lados, somos tirados de lá sem de lá sairmos.
Primeiro porque vemos pessoas em contato com o velho.
Vemos um ônbus escolar, estudantes diante dele, máquinas
de fotografar. Segundo porque, em um dado momento, o
velho fala. E não fala sobre ele, mas sobre o mundo.
Fala de dinheiro. Afirma que dinheiro, olha só, é a
razão de tudo. O velho não pára de falar a partir de
então. Chega a se ver no vídeo. Ouvimos ainda nosso
personagem ouvindo uma música pop no radinho. Seria
dele? Seria dado pela equipe a ele? O que esse rádio,
reproduzindo aquela música, revela? Revela uma imagem
com contrastes entre o significado do aparelho, da música
de massa e um indivíduo aparentemente isolado da comunidade
até então (na tela) Toda a construção inicial em torno
de sua figura e de seu entorno estava lá, sobretudo,
para nos colocar em choque com essa parte final, na
qual vemos sua inserção de alguma forma nas redes humanas
(tênue que seja).
A Alma do Osso evita uma das características
da maior parte da produção documental brasileira atual:
o entrevistismo, expediente muito questionado, porque
limitante, pelo crítico Jean-Claude Bernadet. As informações
iniciais estão exclusivamente nas imagens e nos sons.
Nunca em falas. As informações posteriores, quando o
velho fala, pouco acrescentam, ao menos à visão sobre
ele. Apenas um letreiro informa sobre o isolamento dele
e sobre uma aposentadoria mensal. Tem 71 anos, vive
sozinho faz 41 anos, no interior de Minas Gerais, e
guarda dólares. Nada de sua fala, quase impossível de
ser escutada sem auxílio de legendas, mas pouco informativa
mesmo com as legendas, nos diz algo. Sugere apenas tratar-se
de um ex-interno de hospital psiquiátrico. Isso nos
coloca uma constatação primeira: existem ali dois filmes.
Um nega o outro sem deixar de complementá-lo, mas esse
complemento não cria, por princípio, uma visão uniforme
sobre as imagens dadas. Aquele sujeito é uma coisa,
é outra e não é a soma de uma com outra. A Alma do
Osso explicita a impossibilidade de se extrair algo
além de fragmentos audio-visuais de documentos audio-visuais.
Cléber Eduardo
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