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O Anticinema de Yasujiro Ozu, de Kiju Yoshida
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O Anticinema de Yasujiro Ozu, de Kiju Yoshida. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. Tradução: Centro de Estudos Japoneses da USP. 312 páginas. R$ 48.
O que há de mais fascinante em O Anticinema de Yasujiro Ozu é o fato de não ser apenas um livro sobre Ozu (o que já seria notável), mas também uma obra sobre o próprio Yoshida. Na análise feita dos filmes de Ozu, na qual se vale das mesmas repetições e defasagens que ele identifica nos filmes do mestre, Yoshida amalgama seus próprios conceitos a respeito do cinema.
Assim, Yoshida constrói uma ficção, sobre a qual baseia seu estudo: no momento zero, em que Ozu olhou pela primeira vez pela câmera, ele descobriu o infinito caos do mundo, bem como o engodo do cinema de montar narrativas lógicas para unir pedaços caóticos. Claro que é apenas uma suposição, mas criativa: afinal, Ozu sempre deu mais importância ao cinema do que à sua vida pessoal, sobre a qual se sabe muito pouco.
É na aceitação do caos que Ozu funda seu estilo. O homem está mergulhado nele, não lhe cabendo mais nada do que resistir ao fardo de uma existência incerta e sem sentido. Mas, nesse ponto, a genialidade de Ozu: no que para outros seria mera aceitação do destino, para o grande mestre é a resistência a ele. Os filmes de Ozu, por mais contemplativos que pareçam, são atos de revolta.
Mas é preciso relativizar este "contemplativo", como o próprio Ozu fazia em seus filmes. Segundo Yoshida, não há, nos filmes de Ozu, ponto de vista único: seu uso de imagens impessoais, objetivas, serve para instaurar uma imensa ambigüidade, no qual se superpõem olhares dos objetos (que observam os homens), dos mortos, dos homens profanos, do estranho que se coloca no lugar do outro e, por fim, o olhar do próprio filme que olha para nós, espectadores. A partir desta multiplicação de olhares, Ozu indica todo o caos em que estamos imersos, e a única forma que os homens encontram para suportar esta indeterminação, para buscar uma Ordem inalcançável e imemorial, consiste na repetição de acontecimentos banais do cotidiano, tão cristalizados nos nossos hábitos que nos permitem continuar vivendo, alheios ao caos da vida.
Desse modo, no drama familiar típico de Ozu, o ideal, para a família, é não ter consciência de ser uma família, uma vez que vive mergulhado nas repetições de momentos sem drama algum. No entanto, como Yoshida indica, é comum que Ozu quebre esta regra de seu estilo, para incluir momentos em que a família passa a atuar como família, com consciência de si: o membro que não se comporta como esperado (a filha que recusa o casamento em Pai e Filha e A Rotina Tem Seu Encanto), as reuniões familiares, onde cada um faz seu papel (os enterros, os casamentos - e não há diferença entre eles, uma vez que todos indicam separação e a passagem do tempo), ou através da problemática dos atores que, em virtude da profunda contenção emocional, surgem na tela não como os personagens que deveriam encarnar, mas como o homem e a mulher que estão atuando.
No drama familiar, e no cinema de Ozu em geral, há sempre uma infinidade de repetições e remakes a fim de destruir a narrativa, incluir voltas e mais voltas de acontecimentos desconexos para revelar sua banalidade caótica. Porém, diz Yoshida, nenhuma repetição é igual à outra: por mais que se tente a cópia exata, sempre há uma leve defasagem, uma mudança. E essa mudança é o Tempo, que se interpõe entre as repetições, através do qual Ozu mostra que não existem cópias iguais, momentos iguais, ou seja, tudo é transformação. Yoshida fala dos vários olhares que compõem os filmes de Ozu, mas talvez ele pudesse resumi-los em apenas um: o olhar do Tempo. Para Ozu, a espécie humana é ignorante demais para perceber a passagem do tempo: ela vive o presente, mas só consegue apreender este presente quando ele já se tornou passado. Dessincronia, outra marca de Ozu. Aqui, pode-se estabelecer contato entre Yoshida e Bergson (e Deleuze), na questão do passado ontológico, ou seja, o passado que é a coexistência de todos os tempos de duração, do que existe e do que não existe, do real e da imaginação, que observa o presente, pura ação, desenrolar-se como contingência efêmera. O Tempo é o Todo, segundo Bergson, o caos, a cuja presença o homem tenta resistir, mas que ao mesmo tempo, em virtude das dessincronias, o faz reconhecer que sua vida é mera passagem, que seu destino irrevogável é a morte.
Repetições e defasagens, que levam à última defasagem: a morte, que não se repete. Mesmo sabendo da morte, não estamos preparados para sua chegada: por exemplo, em Fim de Verão, o patriarca, ao morrer, pronuncia duas vezes: "estão este é o fim?". Na primeira, transmite apenas o choque com a morte, mas é somente na repetição, em que ele transforma o presente da morte em passado, que o patriarca consegue entender e aceitar sua presença. Yoshida classifica esta postura de Ozu como "ironia da morte", ou seja, após vivermos uma existência caótica e sem sentido, somos tragados para a morte que, por não podermos repetir, simplesmente não conhecemos. Vamos do nada ao lugar nenhum, por assim dizer.
É certamente pessimista, mas se Ozu acredita na ironia da morte, é porque ele crê também na beleza incomensurável das pequenas transformações do dia-a-dia. O passado vai sempre olhar a efemeridade da existência humana, mas, nesse presente passageiro, a procura de um pouco de Ordem que resista ao caos gera momentos extraordinários. E se somos efêmeros, porque precisaríamos mais do que destes breves momentos?
Paulo Ricardo de Almeida |
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