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Palco de Obviedades
Cartas marcadas e show de previsibilidades no 76º Oscar 2004 |
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Uma saga. Assim se pode definir as 3 horas e 20 minutos de duração não da última parte da trilogia Lord of the Rings, mas sim o sacrifício que foi ver uma das mais modorrentas premiações cinematográficas. O problema já começou na escolha prévia de canal, em que tínhamos apenas um bipartidarismo de opções. De um lado, pela TV aberta, o SBT com uma ilustre desconhecida e insossa apresentadora, fazendo par com o rotundo e aclamado crítico de cinema Rubens Ewald Filho, simpatizante descarado do Senhor dos Anéis. E, de outro lado, pela TV a cabo, o TNT que, acostumado a "dar uma cara" toda especial a seus filmes de ação, confundiu tradução simultânea com dublagem. Toda essa falsa representação através da fala, as exageradas entonações de voz, fizeram com que o evento mais importante do ano, através deste canal pago, mais se parecesse com um comercial de produtos de emagrecimento adquiridos por telefone.
Feita a escolha (o SBT) dentro desse restrito universo, o resto foi pura pagação de mico. A cobertura parecia ser feita por torcedores ao invés de comentaristas. Pouquíssimas foram as informações indispensáveis ao nosso conhecimento cinematográfico. Não houve sequer contextualização dos trabalhos concorrentes em seu tempo e espaço. Mais uma vez, o despreparo foi encoberto por tautologias. Em um momento específico, foram dados vários chutes, em questão de segundos, para se tentar adivinhar o número do ônibus que inspirou um determinado documentário. Ah, o filme é nacional, diga-se de passagem. E aquelas entrevistas feitas em camarotes no Brasil por uma das emissoras nos intervalos, com gente que não entendia nadica de nada do riscado, contribuíram para o tom ridículo que foi essa transmissão. Clima de Copa do Mundo fora de época.
Já na abertura da transmissão, uma vinheta de animação fez com que um dinossauro esmagasse o Michael Moore. Um contundente elemento indicador do que seria a tendência de premiação deste ano: os blockbusters, os disaster movies, os monstros e seres fictícios aniquilando qualquer possibilidade de manifestação política anti-Bush. Ou, resumindo, o troco tardio e de mau gosto ao antológico discurso do polêmico documentarista. Não obstante, o figurino voltou a ser de uma cafonice só. O preto, o luto, cedeu lugar aos brilhos e paetês que estamos acostumados a ver, como se isso fosse uma tentativa desesperada de apagar as cinzas do que foi a cerimônia de 2003.
Para quem se arriscou a fazer apostas e participar de bolões, este ano foi talvez o mais fácil de ganhar alguns trocados. Premiar o fatídico Lorde das Chatices em categorias mais técnicas e relativamente merecidas (som, trilha sonora, maquiagem, efeitos visuais), tudo bem. Mas o que justifica ele arrebatar os prêmios principais, como filme, direção, roteiro adaptado? Para completar o esquema marmeladesco instaurado na patuscada de Los Angeles, só faltou mesmo Elijah Wood e Viggo Mortensen roubarem as condecorações dadas a Tim Robbins e Sean Penn. E, como se não bastassem as previsibilidades das premiações, os discursos de agradecimento também pecaram pelo óbvio ululante. Nada de falatórios políticos, reações evidentes de surpresa, choros incontidos, beijos na boca e constrangimentos de outrora. Tudo foi muito bem ensaiado, onde a oratória alcançou um nível de criatividade de fazer inveja a nossos jogadores de futebol após uma peleja. Os organizadores quiseram mostrar que são democráticos, só que na hora errada. Neste ano, optou-se por não cortar discursos dos vencedores nem estipular limite de minutos para as falas. Só que a grandeza infinita do tempo chocou-se com o vazio orbital do conteúdo semântico. Os contemplados tiveram todo o tempo do mundo para não dizer absolutamente nada. Nunca as mães, os pais, os filhos, os tios e os cachorrinhos do vizinho foram tão homenageados. Até mesmo os agradecimentos das criancinhas dos programas televisivos matinais brasileiros são mais divertidos e emocionantes.
A entrega do Oscar foi um verdadeiro exercício de paciência. O clima enfadonho que tomou conta da platéia era nítido. Numa das aborrecentes apresentações musicais, a grande gafe foi mostrar parte do público que não conseguiu esconder bocejos e olhos semicerrados diante do espetáculo. Nem Billy Crystal salvou a noite. Até mesmo a homenagem que fazem aos mortos, que em outras datas foi motivo de arrancar lágrimas e aplausos dos convidados, como no caso de Raul Julia por exemplo, neste domingo foi tímida. Catherine Hepburn, Gregory Peck, Charles Bronson, figuras lendárias da sétima arte, causaram reações semelhantes ao atual estado de saúde deles e de todos os artistas postumamente reverenciados.
Esta cerimônia mostrou um Davi querendo ser Golias. Tanto a Nova Zelândia quanto a Austrália são conhecidas pelos seus filmes que mostram um núcleo menor de relações pessoais e familiares. Mesmo os filmes anteriores de Peter Jackson, como Heavenly Creatures, são mais low profile. Com o nascimento da trilogia, surgiu também a megalomania, a necessidade de auto-afirmação do nanico num mercado dominado pelos Bruckheimers e Emmerichs da vida. Uma grandiosidade conferida nos cenários, na quantidade de figurantes, nos efeitos especiais, mas que mantêm um cômodo distanciamento com o espectador. Senhor dos Anéis é um filme espetaculoso e ao mesmo tempo frígido. É a luta do bem contra o mal pura e simples, inserida numa imensidão vazia, num vasto campo de batalha que despreza a simplicidade e a pequenez do homem.
E, falando da desigualdade de forças entre os pequenos e os grandes, faltou aos concorrentes brasileiros essa imersão no mundo fantástico e imaginário para sensibilizar os velhinhos da Academia. O envernizamento da sujeira morreu na praia. Em relação à cosmética da fome, levou vantagem a cosmética da cosmética. Frodos e wobbits agradaram mais do que traficantes e favelados. Ficaram clarividentes as questões políticas óbvias, de se impor a hegemonia ao mostrar que o Terceiro Mundo ainda é formado por gnomos nas leis internacionais de mercado. Sorry, Meirelles. O Zé Pequeno do pedaço, na noite de 29 de fevereiro, chamava-se Peter Jackson.
Érico Fuks |
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