dogville: três observações e um atalho

Seguem, abaixo, três observações e um atalho. Não procuro, definitivamente, ordená-las em atos ou tecê-las num final - breviário, então, para quem mais queira:

Primeira observação:

O adivinho: Lars Von Trier. Arauto do apocalipse. Religiosamente anti-clerical, finge-se de Deus para destroná-lo mas anda em círculos. Deseja o desajuste do espectador, mas quer desajustar pelo ideal inalcançável: a dita "consciência" ou, seu outro nome, o "nada". Anuncia-se e se figura como o olhar binocular sobre os limites, as bordas de um cenário trespassado. Filme pregação da impossibilidade. Fruto de um medo insuportável: ergue sua ode ao abismo e à coragem (que não vê, que não se tem...) Seu mapa, seu território, seus mamulengos de carne-e-osso - um homem que quer morrer afogado...mas filma em visgo espesso. A Graça é Grace, inalcançável e estuprada por todos - diante disto, re-figura-se um último gesto. A graça final da negação. (Mas há o cão...)

Segunda observação:

O filme aponta o dedo e enxerga a teia. A farsa da igualdade. Maquiagem dos jogos de poder e de troca, obscurecendo-se as bordas. Recalcado: quer que sua condição seja a única possível porque por ele escolhida. Farsa em gentilezas - secreta raiva fazendo-se em ódio: metralhadoras, correntes, prisões. Violenta tranqüilidade dos acordos da bondade. Cultura de boas vizinhanças, de onipotências cultivadas em jardins simétricos e terras demarcadas onde a vontade, o desejo, o faro são deixados de lado em nome de um acordo geométrico de boa ação, de opressora misericórdia. "O melhor dos gestos", a melhor das intenções, a melhor das atitudes. Jardins e gângsters - gestos simétricos de dominação, demarcação do poder e ressentimento. O bem de todos? Aranha e teia: Tudo que se encaminha em paz eterna, oferece-se à vingança. Da destruição de bibelôs de cerâmica à morte por tiros de crianças - a Graça, de todos e dela mesma, é a mais cruel. Confronto covarde, não de afirmação da vida, mas de limpeza, de desistência do outro - Deus e sua filha conversam: escolhem o merecimento da vida ou da morte. Iguais: o perdão da Graça e o tiro das metralhadoras. Cidade destruída, zerada como limpeza. Pena de morte: mais cruel dos acordos para o "bem-estar de todos". Genealogia do castigo, da punição - a misericórdia como a irmã da punição. Figurado em solução comedida, racional, ponderada. (Mas há um cão...)

Terceira observação:

Refuta ou Refúgio? Dogville encena a questão e se traveste dela. Mas talvez não seja esse o jogo (quebra-cabeças bipolar), a melhor forma de aproximação, de invenção:

Não o jogo da refuta, da condenação: essa é a isca, o ódio da negação diante do enfrentamento a um estoicismo cada vez mais banalizado em melancolia-cultural-coletiva (Lars Von Trier espera essa defesa do desinteresse, a condenação da crueldade, como bom pastor desarranjado, é assim que espera: que alguns demônios queiram esvaziar-lhe o discurso).

Mas também não o jogo do refúgio, da alegria da sublimação, da catarse da raiva e da vingança: Outra armadilha para os candidatos a arcanjo. Dogville faz-se de adorável ou detestável, quer desmoronar concordâncias, quer dar-nos o gosto amargo da auto-celebração ou da vergonha pelo prazer sádico. Espanto e convite, gangorra para o equilíbrio...

Mas não é de equilíbrio que pulsa seu desfecho, não é de perpetuação, mas do desejo de uma brecha, do limite dessa bipolaridade (banalizada em aceitação da imparcialidade e da ausência do confronto): antes de acender a fogueira ou erguer um altar...há um plano a mais, um plano final que avança sobre nós. (Tudo finito, resta um cão).

Um atalho:

Para além das desculpas e desgraças, resta um animal latindo. Um cão cuja raiva, o latido, o desconforto se ouvira desde o primeiro até o último minuto do filme. O único a olhar para Grace e lhe odiar desde o início, dizendo-lhe: não a quero aqui, suma daqui. Nobreza do faro, do desejo. Latido. Essa a brecha do filme: há lá um cão, que não aceita acordos, que não veste costumes que não lhe apeteçam, que não perdoa aquilo que lhe dói. Um cão como cultivo da raiva que se expressa - que não se vinga, que não quer carregar o fardo da memória, nem amizades que não lhe agradem ao faro primordial. O único a ver Grace e pedi-la para que fosse embora no imediato instante.

Para além dos laudos civilizatórios, erguidos sobre os sacrifícios e os deveres, para além das boas condutas: o cão, dom natural do confronto, late para além dos acordos da tortura, do merecimento, da consideração racional e dos castigos. "Para onde vai o cão, agora, finita a cidade?..." Esta é a questão que Dogville se esmera em lançar sobre o próprio Lars von Trier e os olhos do espectador: antes da descoberta da promessa e do desejo, desaprender o juramento e o dever.
Cinema dos olhos de um cão? Ainda não e quase nunca. (Von Trier sobrevive da promessa, não da realização). E é aqui que devemos deixá-lo à deriva. Não antes.

Felipe Bragança