Cartas: Encontros e Desencontros
Prezado editor Ruy Gardnier:
Como leitor assíduo da Contracampo, não posso de externar meu desapontamento com a crítica do filme Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Mais de uma vez, o crítico Fernando Veríssimo usa o termo "alienação" para caracterizar o comportamento da principal personagem feminina do filme, que caminha à toa pelas ruas de Tóquio. É inacreditável, mas, em 2004, em pleno terceiro milênio, ainda há jornalistas brasileiros que fazem uso de expressões marxistas. Alienação é um conceito que Marx pegou emprestado de Feuerbach, um dos seus gurus, que escreveu um livro chamado A Essência do Cristianismo, em que, entre outras pérolas, seu autor afirma que o cristianismo aliena o homem, pois ele se deixa explorar por acreditar em Deus e na vida eterna. Por causa deste livro tão inofensivo, que mais tarde justificaria a morte de 30 milhões de cristãos ortodoxos na Rússia, Feuerbach foi expulso da universidade onde lecionava. Seu aluno mais aplicado, entretanto, deu vida nova ao conceito de alienação e os sectários de Marx também usaram e abusaram desse termo. Quando o sistema filosófico marxista começou a agonizar, intelectuais como Marcuse tentaram dar novas bases ao marxismo, mudando o conceito de alienação. Segundo Marcuse, que tentou criar uma inusitada ponte entre Freud e Marx, o que alienava o homem não era o trabalho ou a religião, e, sim, a repressão sexual. Basta ler Eros e a Civilização para comprovar o que escrevo. Será que o senhor Veríssimo realmente acredita que o cristianismo é responsável pela alienação da personagem do filme de Sofia Coppola? Lamento sinceramente que alguém ainda tente analisar um filme a partir de uma perspectiva ideológica. Os censores do governo chinês só liberaram a exibição do Titanic porque viram o naufrágio do transatlântico como uma metáfora do "capitalismo tardio".
Cordialmente.
Luís Gonçalves
Prezado Luís Gonçalves,
Antes de tudo, muito obrigado pela leitura do texto e pelas sugestões de leitura. Acredite se quiser, mas em plena Era de Aquário ainda há alguns que teimam em empregar expressões marxistas (mas, por favor, não me chame de jornalista, ok? -- não é jornalismo o que faço). Dentre estes pobres coitados incluo-me sem medo nem culpa. Em todo caso, de minha parte, lamento com igual sinceridade que o termo utilizado em minha crítica tenha sido tão mal interpretado. Uma rápida consulta ao "
pai-dos-burros" lhe serviria melhor na leitura deste texto que demoradas prospecções nas obras completas de Marx ou Feuerbach. Ainda, respondo sua pergunta com uma outra: você realmente acredita que o texto é uma tentativa de análise feita "a partir de uma perspectiva ideológica" só porque utiliza o termo "alienação"? Por fim, só não considero uma ofensa a comparação com os censores chineses porque é tão mais absurda que ridícula.
Cordialmente, e agradecendo de novo a leitura e a carta,
Fernando Verissimo

Crítica de Encontros e Desencontros, por Fernando Veríssimo