(veja as listas de cada um
dos redatores de Contracampo)
1. Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood
Como ser
sutil falando das raízes e consequências da violência?
Sobre Meninos E Lobos é uma crítica amarga ao uso
da força. Nesse filme, violência só destrói,
não purifica nada. Uma violência injustificada leva a outra
que, por sua vez, também termina por ser errada. A violência
do troco poderia organizar e eliminar desajustes ocasionais, mas termina
por assumir socialmente a instituição do desequilíbrio
em si injusto: manda quem for o mais forte.
Usando uma narrativa direta, nada sutil, Eastwood nos contou uma pequena
fábula trágica sobre um círculo de violência
que se constrói socialmente. Já sabemos muito bem como
esta questão se tornou cotidiana para todos, sobretudo para os
EUA (e para os países que eles invadem, certamente). A questão
que resta também já é bem conhecida: como sair
dessa ratoeira? (Daniel
Caetano)
leia aqui
a crítica do filme
2. Femme Fatale, de Brian De Palma
Uma
investigação sobre o poder da visão, e como ela
pode ser corrompida por impressões ou predeterminações.
A capacidade de mexer com um gênero aparentemente desgastado,
tirando daí as mais ricas interpretações. O aspecto
lúdico e onírico do cinema, por um diretor de inspiração
incomum. Quebra-cabeça visual é pouco, além de
chuva no molhado. O filme extrapola qualquer noção de
verossimilhança, para desespero dos que se apegam a esta como
se coubesse ao cinema responder sempre às expectativas daqueles
que sempre desejam ver na tela algo palpável e facilmente decodificável
como "possível" na vida real. Pode ser que existam filmes mais
completos sobre as possibilidades do olhar, mas poucos são tão
instigantes e com tanto potencial imagético quanto Femme Fatale.
De Palma sabe, como poucos, manipular o espectador. E dá suas
boas vindas a um século que se prenuncia como o da revolução
da imagem, além de afastar as suspeitas ingênuas de que
falta criatividade em seu cinema após Olhos de Serpente.
(Sérgio
Alpendre)
leia
aqui a crítica do filme
3. Longe do Paraíso, de Todd Haynes
Ao alvorecer
de uma nova era puritana (promovida por Bush e seus asseclas) Longe
do Paraíso volta à matriz da representação
da América conservadora, para sutilmente desmontá-la.
Espaço idílico do ideal conservador - uma América
branca, suburbana e bem-sucedida - os anos 50 deixam de ser o paraíso
perdido ao revelarem a face oculta do preconceito e da violência.
Não por acaso, os créditos de abertura surgem sobre uma
tela, uma pintura: Todd Haynes quer ir além dessa superfície.
No âmago deste filme, de um classicismo rigoroso, está
a questao da imagem como instrumento ideológico e seu uso pela
máquina holywoodiana. (Carim
Azzedine)
leia
aqui a crítica do
filme
4. Gangues de Nova York, de Martin Scorsese
Gangues
de Nova York é uma verdadeira aberração surgida
no horizonte do cinema hollywoodiano: concebido em oposição
direta, quase como uma resposta, às narrativas épicas
de aventura que pululam na rabeira da série O Senhor dos Anéis,
o filme de Martin Scorsese rejeita vigorosamente a construção
de um universo utópico-místico e uma política do
olhar calcada na contemplação e na fantasia. Gangues
é antes de tudo o filme de um iconoclasta radical, mas também
a tentativa sincera de erigir uma mitologia pessoal – aqui, a referência
é menos a história obscura dos EUA do que um território
mítico onde se cruzam as trajetórias de todas as personagens
que povoaram o mundo de Scorsese. Gangues de Nova York é
ainda um filme melancólico, na medida em que assume conscientemente
discurso e forma fadados à obsolescência, carregando consigo
o peso de ser, talvez, o último grande épico autoral do
cinema americano. (Fernando
Veríssimo)
leia
aqui a crítica do filme
4.
A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki
"O cinema
substitui nosso olhar por um mundo que corresponde aos nossos desejos".
A arte de Miyazaki, como as de Tim Burton e Jacques Tourneur, consiste
em fazer esta afirmação tão mais verdadeira por
revelar justamente o que ela tem de falso: seus mundos podem, num primeiro
contato, não necessariamente corresponder "aos nossos desejos",
e é possível ter a impressão de que o autor busca
justamente um sentimento de estranheza, de frustração
e de confronto com os possíveis anseios de seus espectadores.
Mas quanto mais imersos nos sentimos nos seus universos, menos temos
vontade de abandoná-los, e é deste embate com seus filmes
que criamos nossos objetos de desejo. A Viagem de Chihiro compõe
um momento de extrema beleza na obra deste realizador, e apenas uma
palavra faz justiça a este que é o maior nome da animação
mundial hoje: encantador. (Bruno
Andrade)
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aqui a crítica do filme
6. O Homem Sem Passado, de Aki Kaurismäki
O
estado de amnésia pode ser sempre considerado uma metáfora
um tanto óbvia sobre o estado de alienação: não
ter o registro de experiências vividas é a aniquilação
de uma identidade. Em O Homem sem Passado, Aki Kaurismaki amplia
a questão. Primeiro se constata que, sem uma individualidade
legitimada pelo Estado, o personagem não existe. No entanto,
depois dessa conclusão mais ou menos previsível, Kaurismaki
esboça outra: sem uma identidade mediada por um aparelho institucional
e sem as lembranças de quem era antes da amnésia, o personagem
central terá toda a liberdade para se reconstruir como bem entender
e iniciar um processo de ressurreição de seu "eu". Kaurismaki
aproveitará o processo de reinvenção de seu protagonista
para abrir as janelas para uma sociedade finlandesa, distante do mundo
ideal e organizado, ao qual redutoramente é associada. Vemos
a ação de delinquentes neo-fascistas, a brutalidade das
pequenas autoridades, a quase robotização de seres quase
esvaziados - o que explica parcialmente a razão de interpretações
mecânicas e a luz fria da maioria das sequências. (Cléber
Eduardo)
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aqui a crítica do filme
6. A Inglesa e o Duque, de Éric Rohmer
O olho veterano
de Eric Rohmer parece amadoristicamente (no bom sentido) pego na encruzilhada
entre dois tempos: filma o clássico com câmeras digitais
e com um uso da tecnologia de uma inteligência que poucas vezes
se viu igual. Seu efeito visual é, acima de tudo, conceitual.
Seus personagens efetivamente passeiam por um mundo produzido, estético,
estilizado, cuja normalidade está por um fio por conta de um
grande fato histórico que se prepara para acontecer, mas cuja
pompa se sustenta graças a códigos. Códigos da
moral, códigos da tela. E esta é a grande chave para esta
obra: como vários outros de Rohmer, é um filme sobre o
cotidiano; mas, por acaso, sobre o cotidiano da Revolução
Francesa, um evento para o qual, imagina-se, o último elemento
a ser levado em conta é o dia-a-dia, o que simplesmente se mantém.
O diretor inventa um mundo descontínuo, temporal e topograficamente,
para exibir a continuidade do humano (que muda, como mudam a inglesa
e o duque, mas permanecem, ainda assim os mesmos). O mundo que se transforma
em outro é formado por personagens e eles sim são o mundo.
Filme de época, a reconstitui pelo humano, não pelo figurino
ou pelo cenário (no fundo, as ruas na forma de pinturas são,
ao mesmo tempo, uma grande ironia e um grande recurso cinematográfico).
Ao falar do passado, fala do contemporâneo, e da urgência
de construção de formas de olhar a transição
histórica. Urgente, portanto. (Alexandre
Werneck)
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aqui a crítica do filme
6. A Última Noite, de Spike Lee
A
Última Noite é, sem dúvida, um dos exercícios
de atmosfera mais marcantes do ano e um dos filmes mais afinados de
Spike Lee. A forma com que a narrativa se desenha em torno da trama
protagonizada por Edward Norton, e a paisagem prata-azulada da Manhatan
pós-11 de Setembro, faz do filme um dos artefatos audiovisuais
mais críticos e mais apaixonados que Nova Iorque recebeu na última
década. Se Spike Lee fez seu nome se inscrevendo no universo
dos bairros periféricos da grande maçã, A Última
Noite é uma brilhante incursão do diretor nos clichês
da alta classe média da ilha, pontuando na amizade entre um traficante
de luxo, um yuppie bem sucedido e um professor universitário,
o eixo de uma trama de angústia, agressão e desejos de
fuga irrealizáveis. Os limites da rotina, da vida como ela é
mapeada, se encontram na vigésima quinta hora do título
original: uma espécie de dobra do tempo cotidiano, em que um
abismo íntimo tira as bases da manutenção da ordem,
da paz agressiva, da face orgulhosa da grande cidade. Os personagens
aparecem como silhuetas, desenhadas e projetadas sobre a cidade, assim
como os spots de luz (que cruzam o céu simbolizando as torres
gêmeas derrubadas), num sentimento que é, a um só
tempo, um beco sem saída e uma incógnita sem limites.
Para além da melancolia, para além do niilismo, A Última
Noite é um elogio abismado a uma cidade fissurada e à
incerteza de sua encruzilhada. (Felipe
Bragança)
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aqui a crítica do filme
9. O
Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, de
Jonathan Mostow
O terceiro
filme da série era aguardado pelos fãs com ansiedade e
preocupação. Uma vez que James Cameron abandonara o projeto,
restava saber o que poderia se esperar da sua continuidade nas mãos
de outro diretor. E Jonathan Mostow não apenas veio com um grande
filme, mas ainda redefiniu rumos estéticos e conceituais da obra.
A despeito de O Exterminador do Futuro 2 ter sido o filme que
catapultou Hollywood definitivamente à era das tecnologias digitais,
recolocando questões sobre ontologia da imagem e culminando na
lógica cine-fluxo de Matrix e afins, ao fazer sua continuação
Mostow optou por um formato que podemos identificar como o clássico
renovado. As imagens de O Exterminador do Futuro 3 não
buscam a anulação do próprio peso e sua integração
a um processo de desmaterialização e flexibilização
irrestrita. São imagens feitas ao gosto do antigo artesanato
cinematográfico. Mostow somou elementos de seus filmes anteriores
ao já conhecido enredo iniciado em 1984 por James Cameron e o
resultado foi um filme surpreendente: misto de road-movie (cuja matriz
está em Breakdown) e aventura claustrofóbica (como
em U-571) com conteúdo político de pano de fundo
e "alívio cômico" encomendado ao robô de Schwarzenegger
(destaque para as cenas dos óculos em formato de estrela e das
"noções básicas de psicologia humana" aplicadas
pelo T101). Dentre as novidades, o formato fluido de T1000 agora cede
lugar à voluptuosidade do belo corpo feminino de que a máquina
vilã se reveste. Jonathan Mostow reinventou o aço e fez
um filme que, destoando em relação ao cenário atual
dos blockbusters (em que reinam a fluidez e a vacuidade), constitui-se
de sólidos, com peso e gravidade, imagens-tijolos (pelo conteúdo
que expressam e pela dinâmica que estabelecem na montagem). É
o próprio cinema de ação sendo questionado (e não
por acaso o casal-herói fracassa na missão de salvar o
mundo de uma hecatombe). Fato curioso, a série que se iniciou
duas décadas atrás rendeu um dos filmes mais contemporâneos
de 2003, com forte teor de crítica ao belicismo da era Bush e
enxergando seu destino com enorme ceticismo: os filhos da América
de hoje terão de reconstrui-la no futuro a partir dos escombros
deixados por seus pais. Por ora, resta o abrigo anti-nuclear. (Luiz
Carlos Oliveira Jr.)
leia
aqui a crítica do filme
10.
Dolls, de Takeshi Kitano
Dolls é tão mais apaixonante porque seus pontos
mais fracos estão logo à vista: falta de organicidade
entre as três histórias, falta de caracterização
digna desse nome em alguns protagonistas, retrato desesperadoramente
fácil do triunfo do destino sobre o amor. Pronto. Dito (e visto)
tudo isso, podemos amar Dolls imensamente: a beleza decorativa
contrasta de forma absurda com uma montagem toralmente intelectual,
a elegância do enquadramento entra em contradição
estilística (apenas aparente, diga-se) com a pieguice da canção
da starlet amada. Desde De Volta às Aulas e o magnífico
Cenas de Praia sabíamos que Kitano sempre se interessou
mais na condição trágica de seus personagens diante
da morte do que no glamour da figura fora-da-lei dos yakuzas. Aqui o
extravazamento é total: as imagens vívidas, as cores deslumbrantes
e a composição primorosa parecem compor uma redoma de
vidro da qual o triste destino de nossos heróis é proibido
de sair, causando um dos efeitos de dissonância mais pungentes
do cinema recente. Pode ser que a proa da inovação no
cinema japonês tenha sido tomada por outros notadamente
Kiyoshi Kurosawa , mas Kitano já acedeu à condição
de mestre e Dolls é outra torre que o autor de Hana-Bi acresce
a seu (já) suntuoso castelo. (Ruy Gardnier)
leia
aqui a crítica do filme
10. Looney
Tunes – De Volta à Ação, de Joe Dante
Numa união
feita no paraíso (para aqueles que importa) ou no inferno (para
todos os outros), Joe Dante filma esta mistura de homenagem e atualização
dos Looney Tunes que é tão cáustica e politicamente
incorreta quanto os melhores filmes do cineasta ou os melhores "cartoons"
dos personagens. Não resta pedra sobre pedra neste filme em ritmo
de metralhadora giratória que faz piada com tudo, seja o esquema
de produção hollywoodiano atual (desde o merchandising
aos filmes de "consciência social", nada fica de fora),
seja com a história dos "cartoons" e do próprio
cinema (onde a piada com Psicose deixa bem claro que isso é
tudo, menos um filme "infantil"), chegando mesmo, pasmem!,
à história da Arte (a seqüência no Louvre é
uma das mais demenciais e brilhantes do cinema recente). No meio disso
tudo, uma narrativa brilhantemente articulada, onde as dimensões
surreais (como a interação cartoon-personagens humanos)
nunca descolam o interesse da narrativa, uma ode aos "losers",
não sem o enorme cinismo de uma cena final fantástica
envolvendo Pernalonga e uma limusine. O fracasso de bilheteria mundial
não foi à toa: Looney Tunes é um filme à
frente do seu tempo – aliás, de qualquer tempo. (Eduardo
Valente)
leia
aqui a crítica do filme
10.
Spider Desafie Sua Mente, de David Cronenberg
David Cronnenberg é um cineasta que, assim como o Velho Guerreiro, veio
para confundir e não para explicar, e nos confundindo também instiga
a explorarmos um pouco mais sobre as facetas negras e obscuras da alma
humana. Sem recorrer aos elementos bizarros praticamente onipresentes
na sua obra, em Spider ele nos presenteia com um dos mais fascinantes
mergulhos nos labirintos da mente. Partindo do para dizer o mínimo
batido conceito do complexo de Édipo, a visão de Cronnenberg
nunca nos impõe o óbvio, à medida que retrata a forma através da qual
Dennis Clegg ao mesmo tempo tece e desata as teias de seu passado, fazendo
com que o espectador vivencie e compartilhe radicalmente o tortuoso
processo mental do personagem. Um jogo onde presente, memória e imaginação
se fundem engenhosamente em um só momento, uma só experiência: o cinema.
(Gilberto Silva Jr.)
leia
aqui a crítica do filme
13 a 22. Como se sabe ou não ,
a lista dos melhores do ano da Contracampo é por menção.
Caso fosse por ranking (o melhor leva 10, o segundo 9 e assim por diante),
não haveria mudanças tão bruscas, mas O Filho,
de Luc e Jean-Pierre Dardenne ficaria em 11º colocado, à
frente de dois que estão na presente lista. A força do
dispositivo caro aos irmãos Dardenne câmera na mão,
perto demais de seus personagens acompanhando-os em seus dilemas sócio-morais
garantiu ao filme cinco menções. Hulk, de
Ang Lee, por um registro pessoal e pela crença numa verdadeira
dramaturgia psicológica a partir de um "filme de aventuras
de herói", também levou cinco menções.
Quatro filmes tiveram quatro menções: O Dia do Perdão
/ Kippur, de Amos Gitai, em seu registro cru e seu jeito de crônica
desromantizada do cotidiano de uma (qualquer) guerra; O Pianista,
de Roman Polanski, por aliar precisão narrativa com um suntuoso
retrato de fundo de um campo de concentração judeu na
II Guerra; As Panteras: Detonando, de McG, emocionou parte da
revista pela consolidação de um estilo próprio
emergindo com vigor e graça do lugar onde se menos espera que
nasça autores (cinema de entretenimento hollywoodiano "médio");
e Separações, de Domingos Oliveira, pelo relato
íntimo das idas e vindas dos relacionamentos amorosos, filmados
com a costumeira entrega e nonchalance do diretor. Com três
menções, outros quatro filmes: Jacques Rivette com Quem
Sabe? instigando a sedução do olhar em mais um de
seus relatos em que os mcguffins recobrem a procura dos personagens
pelo amor; O Homem Que Copiava, de Jorge Furtado, curto-circuita
preocupação social com comédia romântica,
utilizando-se de mestria narrativa e subversão moral; Arca
Russa, de Aleksandr Sokurov, encantou por seu projeto de tirar o
fôlego um único plano-seqüência para
todo o filme e por seu questionamento da história russa;
por fim, Tiros em Columbine, de Michael Moore, entre a manipulação
e o questionamento, entre a estratégia Márcia-Goldschmidt-de-esquerda
e a contestação "de dentro" da paranóia
e do belicismo americanos, galgou seu caminho entre os filmes mais importantes
do ano. Longe da unanimidade mas também longe da irrelevância.
(Ruy Gardnier)