Brincadeira de criança
Sobre o cinema recente de Robert Rodriguez


Antonio Banderas e Salma Hayek em Era uma Vez no México de Robert Rodriguez

Numa análise ao calor da hora do último ano de cinema hollywoodiano e desse que já chega, consolida-se no seio da indústria cinematográfica americana a bem-sucedida (em termos de arrecadação e recepção pública) estratégia de lançar projetos "vários-em-um" (Matrix, Senhor dos Anéis, toda a Marvel Comics). Longe do tradicional serial, no entanto, esses filmes – ou séries de filmes – buscam parasitar o universo de outras mitologias (internet e videogames, literatura fantástica, histórias em quadrinhos) para tentar construir com o cinema um duplo menos vivo porém mais visível – o tributo que esses filmes-filial pagam para suas devidas matrizes (oops!) é claramente perceptível, e a derivação evidente e auto-proclamada. Um momento natural da arte: quando ela se vê francamente desinvestida dos processos criativos de mitologias, é preciso importar das áreas produtoras uma nova modelização, um novo upgrade, de crenças. Nossas crianças lêem adventure, jogam rpg, passam o dia na internet e quando chegam em casa se entopem de quadrinhos ou não saem da frente de um playstation? A aposta do cinema majoritário foi seguir o fluxo e entregar a essas mesmas crianças um substituto cinematográfico dos diferentes mundos de entretenimento por elas investidos (mais que o cinema, cabe dizer). Se no balanço geral a caixa registradora marcou cifras saudáveis, não se pode dizer que essas expierências fílmicas "fidelizaram o seu público", como gostam de dizer os sábios da publicidade. Nossos kids ainda preferem os originais de Tolkien, os heróis dos quadrinhos ou os jogos em que eles podem interagir e eles mesmos lutar numa auto-estrada com uma infinidade de agentes Smith. A vitória parcial não se converte em ganho total.

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Tomando um rumo completamente diferente, um cineasta que já viveu seus momentos de queridinho da crítica independente, já foi devidamente retirado do panteão e hoje ocupa um lugar de quase anonimidade no seio das produções marginais que vêm realizando. Seu nome: Robert Rodriguez. Depois de A Balada do Pistoleiro – continuação hollywoodiana de El Mariachi e provavelmente seu melhor filme até hoje – e Prova Final, Rodriguez deixou de ser a figura exótica que fez um filme com quinze merréis e passou a ser considerado como um sub-Tarantino sem muito a acrescentar. Julgamento apressado: por mais que ambos tenham sido bastante influenciados pelo cinema posado de Sergio Leone e pelo cinema de ação de Hong Kong, essas influências se manifestam de forma muito diferente em cada cineasta. Se Tarantino retém sobretudo a visualidade estilizada de Leone e a exploração de espaço dos filmes de John Woo ou Tsui Hark, a Rodriguez interessa nessas duas cinematografias o potencial de experiência lúdica que se pode extrair de cada uma delas. A comparar as duas cenas em que há impasse com armas apontadas a cada um dos participantes dos duelos, Cães de Aluguel ou A Balada do Pistoleiro: Tarantino se interessa pela tensão psicológica criada, pelo jogo de poderes e pelos perfis de comportamento de cada personagem; ao passo que Robert Rodriguez é folhetinesco: ele se interessa antes em fazer uma análise combinatória das possibilidades que não passa mais pela composição dos personagens, mas simplesmente pelo uso objetivo dos elementos dados: um determinado terreno a percorrer, um determinado alvo a acertar, um determinado algoz de quem se deve fugir. Se Tarantino cria tensão dramática, Rodriguez cria uma dança cinematográfica.

2003 nos deu dois filmes de Robert Rodriguez, Spy Kids 3D: Game Over e Era Uma Vez no México. Títulos antagônicos: um evoca, à maneira dos "grandes" hollywoodianos de hoje, os videogames, enquanto outro faz profissão de fé na continuidade leoniana – logo cinematográfica – de um gênero que já representou o símbolo por excelência do cinema americano e hoje habita o cemitério dos gêneros, o western. Mas esse antagonismo de títulos não encontra guarida numa provável contradição das propostas estéticas de cada filme: em ambos, existe a vontade de conjugar um tradicional amor pela arte com o vocabulário visual contemporâneo, pertença ele aos videogames, à MTV ou a quem quer que detenha o "copyright" das imagens rápidas, aceleradas, desterritorializadas, etc. Como McG, o grande novo nome do cinema americano nos últimos 3 anos – Robert Rodriguez interessa-se em fazer a passagem entre os formatos mais "nobres" de exploração da arte cinematográfica – incrível trabalho de espaço cênico, força lúdica de montagem – e os modelos de recepção popular menos considerados "artísticos": o videoclip, o videogame shoot'em-all, o cinema infantil, mas num benefício não mais parasitário dos outros campos do entretenimento audiovisual, mas propriamente cinematográfico. Spy Kids 3D, para se apropriar dos joguinhos, baseia sua estética não numa estilização de videogame ou de realidade virtual – o que faz Matrix, por exemplo –, mas numa forma já antiga e, talvez, já anacrônica do cinema de entretenimento: o cinema em terceira dimensão. Tanto em Era Uma Vez no México quanto no terceiro episódio de Spy Kids, o tipo de cinema que se busca é um reavivamento nada artificial dos mais enterrados gêneros cinematográficos por meio de mecanismos muito vivos.

Nesses dois filmes de Robert Rodriguez, existe um diálogo com uma parte fúnebre do cinema, mas um diálogo que é ele mesmo vivo e eficaz. Matrix, os filmes da Marvel ou a trilogia Senhor dos Anéis têm uma relação muito claramente fúnebre que eles levam até o final em caráter natimorto: cinema, para eles, vem quando a última palavra já está dada, e o filme é uma celebração desse poder que o cinema não tem mais (há algo parecido nos filmes-satélite da Rede Globo, no sentido de fazer o cinema apenas consolidar algo que já existia fora dele, uma espécie de capital-cultural suplementar que o cinema tem e as outras artes, menos "nobres", não têm [ainda]). A matéria fúnebre existe em Robert Rodriguez, mas é trabalhada de outra forma. Para ele, a partir desses dois filmes, reavivar o cinema é fazer dele uma arte legitimamente menor, impura, sem profundidade ou relevo, mas amplamente capaz de deslumbrar o espectador justamente por esse grau primeiro de brincabilidade que só têm os objetos culturais que a cultura oficial considera indignos. Rodriguez perfaz todo o circuito da vida: ele começa com a matéria já morta, mas sabe que dela nasce o adubo que faz com que possam nascer outras gerações, essas sim vivas e brincando. Brincadeira de criança.

Era Uma Vez no México e Spy Kids 3D são visualmente feios (uma feiúra que, aliás, converge com a feiúra programática de Looney Tunes: De Volta à Ação), logicamente implausíveis (como As Panteras Detonando), de artesanato pobre e psicologia pior ainda. Deveríamos imputar a isso a falta de talento visual e/ou artístico de Rodriguez? Preferimos seguir o caminho inverso e acreditar que é uma escolha deliberada de seu realizador fazer filmes que contrariam esteticamente toda uma lógica do entretenimento oficial e entregar a seus espectadores um cinema que não se observa mais debaixo pra cima, mas frente a frente. Ao passo em que Hollywood faz filmes para deslumbrar o público com a exibição espetaculosa de seu fabuloso know-how de última geração (bullet time, coreografias vertiginosas, computação gráfica), Rodriguez utiliza esses mesmos elementos em chave brincalhona, quase primária: os efeitos de computação de Spy Kids 3D não constróem suntuosidade nenhuma, servindo apenas para fazer casa aos efeitos primários de garras inimigas chegando perto do espectador (graças à terceira dimensão mais simplória). Vendo dessa forma, fica até difícil não acreditar que essa estética da pobreza é uma resposta direta à grandiosidade falsa das produções americanas de grande orçamento, e o próprio filme conduz a isso: numa determinada hora, o próprio Elijah Wood – o ator que interpreta Frodo Balseiro, o hobbit herói de Senhor dos Anéis – aparece afirmando ser "o um" daquele universo virtual e acaba sendo exterminado pelo vilão do jogo.

Outra coisa que fascina nos recentes filmes de Robert Rodriguez é o sentido de coisa feita a mão, ou melhor, de produto feito em casa. Se hoje o cinema oficial prima por um "padrão de qualidade" que é aparentemente o mesmo para cada filme – óbvio, os bons autores sabem operar nesse campo codificado para extrair sentidos segundos, veja-se Ang Lee em Hulk ou O Tigre e o Dragão –, os efeitos visuais, a cenografia, a montagem e a composição visual de Era Uma Vez no México e Spy Kids 3D não parecem com nada feito nesse estilo. Privilégio da forma em relação ao conteúdo (que em Era Uma Vez... é praticamente inexistente), acavalamento de tempos fortes em que é impossível respirar ou saber exatamente onde se está (tirada de chapéu a Tsui Hark), mas acima de tudo a veemência de dizer o tempo todo que situações cinematográficas são mais importantes do que um fio narrativo como desculpa para ligar aquilo que se quer filmar. Filmes assim só podem ser produzidos por um homem que detenha sozinho não só a direção do filme, mas também a produção e o controle explícito dos efeitos expressivos que se quer utilizar – no caso, efeitos visuais e montagem. Pois bem, nos créditos disso tudo consta "Robert Rodriguez". Com isso, é menos importante o lado heróico "filme de um homem só" do que a faceta de "grande filme pessoal", obra feita e exibida em grande circuito de exibição com uma cara pessoal não só na direção do filme, mas em toda a confecção artística. Robert Rodriguez consegue realizar a quimera de fazer um produto industrial sem indústria. Operador de câmera digital (dado importante, os dois filmes foram feitos com captação digital), montador, coordenador de efeitos visuais, produtor: tudo isso feito por um realizador que tem acesso aos meios de produção convencionais e flerta o tempo todo com Hollywood. Daqui de baixo, de um país em que os realizadores vivem reclamando que não têm dinheiro para filmar, esses dois filmes de Robert Rodriguez só podem ser recebidos como um jato de água fria capaz de trazer um novo frescor a essa prática já velha, desgastada e uim tanto institucional que é fazer um filme. Robert Rodriguez faz filmes diferentemente. E isso hoje em dia faz toda a diferença.

Ruy Gardnier