|
Lênin,
bárbaros e um estilo brasileiro
de falar sobre a crise

Três sucessos de público da
última temporada – As Invasões Bárbaras, de
Denys Arcand, Adeus, Lênin, de Wolfgang Becker, e Deus
É Brasileiro, de Carlos Diegues – têm em comum o fato
de trabalharem com a crise das utopias. A inclusão do filme brasileiro
entre os três pode, à primeira vista, parecer estranha. Afinal,
ao contrário dos outros dois, Deus É Brasileiro aparentemente
não está preocupado em retratar personagens debatendo-se
com suas próprias convicções, personagens diante
de um mundo que se transformou no oposto do que, há algumas décadas
atrás, eles sonhavam. No entanto, o Deus de Carlos Diegues é
uma representação (até certo ponto paródica)
de sua própria condição de artista e intelectual
brasileiro. É, tal como o professor universitário Rémy,
de As Invasões Bárbaras, e a professora Kerner, de
Adeus, Lênin, um personagem típico dos anos 60 e 70
que se vê diante do fracasso de seus anseios revolucionários.
No filme de Diegues, Deus contempla sua grande obra e sente orgulho e
desprezo pelo ser humano. Sua condição divina é uma
condenação da qual se expia dando o livre arbítrio
aos homens: não há nada mais a ser feito ou modificado.
As Invasões Bárbaras,
Adeus, Lênin e Deus É Brasileiro são
três exemplos de um cinema que cultiva a nostalgia. No primeiro
caso, a grande questão percebida pelos personagens (Rémy
e seus amigos) é a de que a "inteligência desapareceu".
O filme de Wolfgang Becker examina o fim do socialismo como realidade
concreta, mas não como ideal filosófico. E Deus É
Brasileiro expressa a nostalgia e o desencanto na sua visão
totalizante de um Brasil condenado a um eterno futuro, visto por um protagonista
igualmente condenado pelo absoluto, ou seja, pelo imobilismo (Deus).
Há outros pontos coincidentes: os
três diretores tentam estabelecer, como base da relação
entre os personagens, o tão conhecido "conflito de gerações",
outro tema caro à discussão sobre as utopias (e, aqui, poderíamos
lembrar também do recente O Pornógrafo). E, embora
caminhem por veredas diversas, Deus É Brasileiro, As
Invasões Bárbaras e Adeus, Lênin reencontram,
em sua própria essência, o mesmo impasse, tradução
da crise utópica que é o tema central: o cinema como um
instrumento incapaz de abarcar e de dar conta do real. É no diálogo
(ou na ausência deste diálogo) com o realismo que
Arcand, Becker e Diegues acabam se encontrando e manifestando o desencantamento
do cinema atual. A opção naturalista de Arcand é,
em muitos aspectos, mais artificial que os milagres do Deus brasileiro:
serve como câmara confessional para os personagens, estranhamente
incapazes de esconderem seus mais recônditos sentimentos. O resultado
é que, na queda de braço, vence o melodrama. Com Adeus,
Lênin, o mesmo se dá em relação à
comédia: a opção naturalista, também neste
caso, termina por engessar a chave cômica. Tanto em As Invasões
Bárbaras quanto em Adeus, Lênin tais opções
atentam para a sensibilidade de um público acostumado e ávido
por "lágrimas e dramas reais". O namoro com um certo
naturalismo (que se pretende ser o "real") revela a incapacidade
de absorver este "real", ou melhor, a incapacidade de traçar
um programa que estabeleça um corpo a corpo entre uma linguagem
realista (não necessariamente digestiva) e o público
– busca comumente relacionada aos anos 60 que encontra no recente Dogville,
de Lars Von Trier, uma interessante experiência revigorante.
Por outro lado, o anti-naturalismo de Deus
É Brasileiro não é tampouco uma procura pela
exasperação da linguagem ou uma provocação
ao espectador. É uma opção tão segura
quanto a de Arcand e Becker. Apenas, ela filia-se a uma linhagem tradicional
brasileira, cristalizada pelo modernismo, num plano, e pela chanchada,
em outro plano. Sem tratar abertamente de política, a forma pela
qual Deus É Brasileiro se apresenta ao público é
contudo mais clara do ponto de vista ideológico do que As Invasões
Bárbaras e Adeus, Lênin, filmes ambíguos
por excelência. Ao contrário desses dois trabalhos, que assumem
o naturalismo em constante articulação com o melodrama,
Deus É Brasileiro incorpora o fantástico como único
discurso possível. E não poderia ser diferente, já
que o absurdo e o fabuloso são os pontos de partida de Diegues.
Deus É Brasileiro é,
se comparado aos filmes de Arcand e Becker, uma espécie de antítese:
seus personagens são "selvagens sadios" (nos outros dois
há uma forte atração pela doença como metáfora
do estado das coisas: em As Invasões Bárbaras, Rémy
está às portas da morte; a Sra. Kerner, em Adeus, Lênin,
permanece em coma por oito anos); são inconscientes, solares, e
por isso mesmo, miraculosos. Não há angústia porque
não há consciência, e se existe desespero particular
de algum personagem, isto se dá pelo imediato: a morte de alguém,
a dívida a ser cobrada, o dinheiro que se perde, um tiro que é
disparado. Entre os "mortais" circula Deus, que é também
uma espécie de "selvagem intelectual". Arrogante e generoso,
impaciente e sedutor, humano e etéreo, Deus é a encarnação
do Narrador Onisciente que se faz personagem.
Ao contrário dos burgueses e dos jovens
de As Invasões Bárbaras e Adeus, Lênin,
o Deus de Cacá Diegues e Antônio Fagundes ostenta a tão
conhecida "visão senhorial do mundo", bem típica
de uma tradição brasileira da intelectualidade e da política.
A postura de Fagundes é uma curiosa mistura de coronel e intelectual,
e não é à tôa que seu assistente Taóca
passa a se referir a ele como um professor. "Salvador", sobrenome
também improvisado pelo mesmo Taóca, é não
só uma brincadeira com a origem divina do personagem mas também
uma referência ao tipo de postura comum do líder político
carismático. Deus é, em resumo, a encarnação
de uma determinada elite que se auto-proclama "progressista",
conjugação precisa entre o conservadorismo político
e o visionarismo intelectual, dois vetores aparentemente dissociados mas
que, no Brasil, caminham de mãos dadas. Deus É Brasileiro
é um filme sobre a paternidade mítica do Cinema Novo. Não
é por acaso que o filme insiste no espaço rural como fonte
das tradições puras e a questão dos grandes deslocamentos
regionais é retomada.
E é na relação com o
público que Deus É Brasileiro definitivamente se
distancia dos filmes de Arcand e Becker. Embora a crise das utopias seja
também o motor da perambulação de Deus pelo Brasil,
tal tema ganha um tratamento estético e narrativo inteiramente
diferenciado. Podemos opor, logo de início, o esgarçamento
das cores artificiais de Deus É Brasileiro ao tom esverdeado
e pálido da fotografia de As Invasões Bárbaras
e de Adeus, Lênin. Mas o que diferencia Deus É
Brasileiro de seus concorrentes estrangeiros (e aqui cabe a imagem
da competição mercadológica como forma de explicitar
tal diferença) é o fato de que Carlos Diegues afirma a crise
da utopia usando as armas inversas, ou seja, criando uma realidade fílmica
que nega esta crise, ou melhor, a disfarça sob a aparência
do fantástico e sob a tônica de uma difusa "esperança".
Se isto confere certa originalidade ao filme de Diegues (em relação
às produções canadense e alemã), por outro
resulta, do ponto de vista do contexto cinematográfico brasileiro,
em uma total regressão a um tipo de visão mitificada da
realidade brasileira: o país como um todo unificado e a ausência
de reais conflitos entre as classes.
Há, sobretudo, nessa estratégia,
o gesto consciente de Diegues em direção ao reconhecimento
implícito de um "perfil de público brasileiro":
é aquele que se identifica com a comédia e com o absurdo.
Não é um espectador em crise, que tem de si uma imagem sombria
ou nublada. Trata-se de um espectador "sadio", a plenos pulmões,
que espera luz, sonhos e música. Diegues demarca, com seu filme,
este "ideal de público" em tudo oposto ao que necessitam
filmes como As Invasões Bárbaras e Adeus, Lênin.
A estes filmes o espectador médio responderia como de costume:
aceitando a crise do Primeiro Mundo confortavelmente, como se dissesse:
"se o muro caiu, melhor para nós, que nunca tivemos um; quanto
a Lênin, nunca foi mais do que referência bibliográfica".
Entre a eutanásia e o milagre, Diegues sela o compromisso com o
segundo. E, neste diálogo que Deus É Brasileiro trava
com o cinema contemporâneo, a estratégia de mercado é
clara: aposta na identificação do público
com um possível estilo brasileiro de filme. Diegues persegue
este estilo, e busca demarcá-lo num contexto globalizante, ainda
que, internamente, isto signifique regressar a um tipo de visão
da sociedade brasileira que retoma a matriz mais conservadora do Cinema
Novo: a linha do aristocratismo cultural - fato que, aliás, não
deixa de ter seu correspondente na era FHC, da qual Deus É Brasileiro
surge como espécie de canto final.
Luís Alberto Rocha Melo
|
|