Editorial



Scarlett Johansson e Billy Murray em Encontros e Desencontros de SOFIA COPPOLA, acontecimento maior do começo do ano nas telas.
   
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fotos da edição: Fernando Duarte

Acertos e desacertos; encontros, reencontros e desencontros. Enquanto a equipe da revista se preparava para o ano de 2004 e para um método mais transparente de data e lançamentos de edição (a partir de agora, todo dia 10), vários baques afetaram o seio da redação – como também o cinema brasileiro como um todo. O primeiro foi a notícia da passagem de Rogério Sganzerla no dia 9 de janeiro. Acometido de dois tumores no cérebro, o cineasta resistiu o quanto pôde e, mesmo já bastante debilitado, entregou uma das peças mais fortes que o cinema brasileiro já viu: O Signo do Caos, que esperamos seja lançado logo que possível. Outro passamento, dessa vez mais recente, foi o de Sylvio Renoldi, um dos maiores e mais criativos montadores da história do cinema brasileiro. Além do primeiro (O Bandido da Luz Vermelha) e o último (Signo do Caos) filmes de Sganzerla, Renoldi montou, entre outros, Lúcio Flávio de Babenco, A Hora e a Vez de Augusto Matraga de Roberto Santos, além de grande parte dos filmes da Boca do Lixo. Problemas renais o levam depois de meses no hospital lutando contra a enfermidade. Homenagens, claro, seguirão na próxima edição, como aqui prestamos uma, já devida e prometida, a Jairo Ferreira, colega de ofício e gênio da escrita que se foi em agosto de 2003.

O cinema, no entanto, não vive só de óbitos, mas também de permanências e nascimentos. Das permanências, resta fazer o balanço: assim, publicamos neste começo de ano nossa já tradicional retrospectiva do ano anterior, com especial atenção à reflexão sobre a produção nacional em nosso Cinema Falado e nos textos que avançam certos pontos específicos de contato entre filmes, formas de produção e temáticas. Além da inescapável listinha de melhores do ano (como sempre, leitores e redatores, coletiva e individualmente), tentamos nos recuperar das omissões ao longo do ano (Robert Rodriguez), fazer balanço sobre cinematografias nacionais (Estados Unidos no ano de filmes como Gangues de Nova York, A Última Noite e Sobre Meninos e Lobos) ou estudos pontuais (esquizofrenia, uso espetacular da política).

Fechando a edição, uma prática que deveremos enfatizar a partir dos próximos números é o estudo mais detido dos filmes que cativam nossa atenção mais fortemente. O primeiro, aqui presente na capa, é Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, um grande nascimento para nos salvar de um começo de ano tão marcado pela perda. Quando o número de salas aumenta progressivamente mas os grandes filmes continuam invisíveis, tendo sido (Plataforma, Eureka, Elefante, O Princípio da Incerteza) ou não (Vai e Vem, o cinema de Hong Sang-Soo e de Hou Hsiao-hsien, Prazeres Desconhecidos) comprados pelas distribuidoras, é cada vez mais necessário defender os grandes filmes – aqueles que, justamente por serem grandes, têm mais "dificuldade" de acesso fácil ao público – dos pequenos e mesquinhos – e por isso mesmo de consumo mais rápido e volúvel. Quando o jornalismo de cinema nos jornais dá cada vez mais provas de que é apenas um simples guia de consumo com uma opinião (extremamente acessória, cabe dizer) anexada, alguém precisa fazer o devido voto de amor aos filmes que realmente mexem conosco. Nem que seja para provar que, diante de tanta aflição e fenecimento, é preciso continuar vivendo. Feliz novo ano.

Ruy Gardnier