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O
amor sem sexo e o sexo sem desejo
(Imagens da classe média)


Alessandra Negrini e Caco Ciocler em Sexo,
Amor e Traição, de Jorge Fernando
A repercussão
crítica de filmes cujas câmeras voltam-se para os efeitos
do subdesenvolvimento, a partir de personagens vinculados a espaços
físicos e sociais bem delimitados (sertão, favelas, bairros
pobres e presídios), tem inibido ou ofuscado discussões
sobre as representações de tipos e temas de classe média
no cinema brasileiro recente. No entanto, com maior ou menor sucesso,
com maior ou menor êxito, elas estão aí. E não
deixa de ser curioso que essas representações se dêem,
sobretudo, por intermédio das relações conjugais
e pré-conjugais. O tema é um dos poucos situados neste universo
social, da mesma forma que o tal universo social é a sede quase
única de tal tema. Não há disposição
aqui de se tentar decifrar o fenômeno, tampouco oferecer ferramentas
teóricas para se detectar as implicações dessa relação
exclusiva entre visões de namoros-casamentos e o segmento social
em quetão. As evidências apontam, porém, para essa
constatação: a classe média tornou-se sinônimo
das dores e dos risos de amor. É o segmento em que roteiristas
e diretores, a maioria historicamente da mesma classe filmada, especulam
sobre como andam as novas configurações afetivas. Essa talvez
seja a última bandeira desse grupo, a utopia restante, como lembra
o colega de revista Alexandre Werneck, após o enferrujamento das
retóricas das causas coletivas. As causas agora, segundo esse raciocínio,
seriam a dois. Nem isso, na verdade. Pois essa utopia das quatro paredes
tem se revelado bastante distópica, às vezes pelo tratamento
temático, outras tantas pela anemia estética, sempre escancarando
uma falta de crença no próprio material.
Une a maioria desses
filmes apenas uma visão pouco harmoniosa e muitas vezes banhada
em chacota dos laços entre homens e mulheres na casa dos 20-30
anos. Em alguns, os laços rompem-se; em outros, são reatados.
Impera, de qualquer forma, uma visão: amar é um problema,
trágico ou cômico. E predomina, neste pequeno panorama, uma
limitação: as câmeras não conseguem flagrar
casais em momentos de intimidade, em conversas sem caráter funcional,
em momentos nos quais se vislumbra uma partícula de verdade da
relação, em instantes de desejo entre os corpos. Tais características
são exclusivas, nos últimos anos, dos dois filmes de Domingos
Oliveira, Amores e Separações, nos quais o
amor, não romântico, é visto como afirmação
da vida, como renovação dos ciclos de afetos, como crença
nos encontros entre despedidas. Domingos Oliveira, porém, é
um corpo estranho. Não porque filma de forma realista, muito pelo
contrário, mas porque dá realidade à sua ficção.
Em suas comédias acridoces, assume-se a encenação
teatralizada, calcada na palavra e na literatice dos diálogos,
mas os personagens, embora nem tentem parecer pessoas de verdade, são
seres verídicos em cena. Existem de fato, ainda que só na
tela.
Não é
pouco no cinema brasileiro atual. Porque poucas são as passagens
verdadeiras nos filmes empenhados em aproximar-se dos pares de personagens
atolados nas questões afetivas e conjugais. Talvez porque não
se acredite no próprio amor, tampouco em sua representação
no cinema. Não se pede aqui, diga-se, uma crença no amor
romântico, em atrações "à primeira vista"
ou em almâs gêmeas reguladas pela predestinação.
Até porque as novas configurações de sentimentos
e relacionamentos nas telas levam menos em conta o caráter místico
e metafísico do romantismo e muito mais a necessidade pragmática
de compartilhar prazeres e dificuldades com outra pessoa. Não por
acaso, em filmes como Cristina Quer Casar, de Luiz Villaça,
Amores Possíveis, de Sandra Werneck, e Avassaladoras,
de Mara Mourão, entra em cena, de forma nada romântica, o
amor por anúncio. Não se acredita mais no parceiro ideal,
único, sem igual, no homem ou na mulher da vida, mas no(a) companheiro(a)
mais compatível. Amar torna-se assim fruto de uma seleção
baseada em critérios rigorosos. Não se dá espaço
ao acaso. Amor torna-se assim fruto de procura. Nenhum problema haveria
nisso se os atores interpretassem seres nos quais pudéssemos acreditar.
Mais uma vez: não se cobra uma representação realista,
a partir de modelos reais, mas em imagens com credibilidade na diegese
cinematográfica. E isso não se tem visto. Os personagens
nestes filmes parecem sempre estar parodiando a si mesmos, não
acreditam no que estão sentindo. Sentem de forma postiça.
Ou nem sentem. Apenas passam o texto.
O único ponto
de vista assumidamente positivo sobre o amor romântico em 2003,
ainda que picaresco, está na atração proibida do
par de Lisbela e O Prisioneiro. Antes dos pombinhos fugirem estrada
afora para ser feliz, terão de superar a distância de mundos
a separá-los. Nada muito complicado para quem ama. A lógica
dessa operação, porém, explicita o tom fantasioso.
Guel Arraes não omite de ninguém tratar-se de um faz de
conta. Salienta esse ilusionismo suspirante ao valorizar a relação
da mocinha com o cinema. Ela é devota de filmes onde os amores,
causa impossível, é prêmio para quem se arrisca em
seu nome. Se não se dispõe a encarar o romance como algo
da realidade, optando por mantê-lo restrito ao mundo da imaginação
audio-visual, Arraes também está longe de ter uma relação
cínica com seu material. Ele lança o jogo e o leva a fundo.
Propõe ao espectador que se ria de fatos anedóticos, mas
não ri dos sentimentos de seus personagens. Apenas enaltecerá
o que há de artifício na composição espacial
do filme, indício de sua aposta em um sucesso amoroso possível
só em um lugar fictício, o lugar privilegiado da ficção,
que tudo pode arranjar para o bem dos apaixonados. No entanto, para além
das discordâncias em relação a algumas tantas opções
estéticas do diretor, seus personagens pulsam na fantasia. Aceitando-se
essa fantasia, portanto, as imagens tornam-se reais.
Articulação
diferente é trabalhada em Os Normais. Temos a narração
de um casal de noivos sobre como se conheceram. Saberemos adiante que
casaram com terceiros - e não um com o outro. Duas relações
são desfeitas, porque erradas e fadadas a fracassos, para surgir
uma terceira, a do casal de narradores. E esta terceira ligação,
viabilizada inicialmente pelo acaso e na sequência por afinidade/atração,
não tem nada de idealizada. Pelo contrário. Em vez de juras
de amor, ouvimos frases grosseiras: eles conversam sobre tamanhos de pênis
e de cavidade vaginal. Vivem cenas nonsense e algumas chanchadescas. É
notória a disposição em colocar os personagens em
um palco de teatro-circo para rirmos de seu patético e da suspensão
do recato exigido pelo convívio social. O casal de protagonistas
só ficará junto porque ambos são de grossos tratos,
portanto se reconhecem um no outro, e porque erraram ao casar com parceiros
sem caráter idôneo. Estão zerados para um recomeço
em outras bases, mas não há como negar que devemos rir dessas
bases. Elas são expostas para isso. Só para isso. Note-se
que temos aqui um dado fundamental dessas representações:
o adultério. Os noivos originais dos protagonistas têm um
caso um com o outro e, em razão disso, perderão sua legitimidade
moral para merecerem nossos "heróis". O adultério,
porém, é desproblematizado. Torna-se um traço de
safadeza dos adúlteros, não uma questão que tornará
mais complexo os personagens.
O parentesco de Os
Normais, apesar das diferenças, é com Sexo, Amor
e Traição. Neste caso, são dois casais, mais
amigos (masculinos e femininas). Todos em crise, pouco interessados nos
esforços e conciliações necessários para a
manutenção da vida conjugal, mas impotentes, como se a "vida
a dois sem prazer de se estar a dois" fosse uma regra do jogo. Os
homens não dão a mínima para as mulheres. As mulheres
não suportam a indiferença dos homens. Separações
provisórias e adultérios sem culpas renovarão os
ânimos. Aposta-se na preservação de uma ordem abalada.
Nada como férias de poucos dias e da ameaça à posse
dos corpos para se repor as coisas em seus lugares. Conservadorismo dos
novos tempos, onde há chifres e saltos de cerca, mas perdoáveis
porque com justificativa. Já a desordem lá estabelecidada
antes do início do filme é gerada pelo conflito contemporâneo
entre individualismo e convivência. Homens só pensam em si,
mulheres só pensam nos homens. Caricato assim. A dramaturgia cômica
é derivada do teatro popular e de um certo tipo de telenovela (em
geral, a das sete, na Globo). Incorre em reacionário oportunismo
ao retomar a fórmula da guerra dos sexos. E por falar em sexo,
ele limita-se ao título. Como também está no cerne
das crises dos dois casais, é impressionante a falta de desejo
quando o desejo sem endereço definido dos personagens é
atendido. As mulheres são adúlteras porque não são
desejadas pelos maridos, mas, durante o salto de cerca, não revelam
nem resquício de tesão pelo amante de ocasião. São
tão mecânicas no mercado negro quanto no oficial; transam
com a animação de quem anda na esteira. Só para queimar
calorias. E queimam poucas.
Temos aqui um problema
recorrente no cinema brasileiro contemporâneo. A compulsão
por apagar os rastros das pornochanchadas e dos dramas eróticos
bagaceiros, somada a um esforço para se agradar a um suposto padrão
de qualidade de classe média, tem alimentado uma alergia dos filmes
à qualquer manifestação de desejo físico.
Talvez por isso tenham sido suspensas as antes frequentes adaptações
de Nelson Rodrigues e Jorge Amado, referências capazes de condensar
tintas intelectuais e populares, sem haver substituição
dessas fontes por uma outra capaz de propor essa fusão de apelos
físicos e cerebrais. Com resultados distintos, aquelas adaptações
mostravam, quase sem exceção, o irracional dos seres humanos.
Já o sexo atual é só contato físico (ou nem
isso). Transa-se de olhos abertos e com a cabeça no lugar (sem
piadas). Não se vislumbra o lado insano do desejo. Tampouco a suspensão
da cultura, da razão, da lógica e da moral nos amores cheios
de libido. George Bataille escreveu certa vez que o desejo é a
morte da individualidade. O desejo pelo outro é o desejo de ser
o outro, de fundir-se ao outro, de um esfacelamento do próprio
eu. Lacan também escreveu a respeito: ter orgasmo é morrer.
Uma distensão, uma ausência de consciência. Com exceção
de um ou outra sequência, como a de Amarelo Manga entre a
crente e o gringo, de Um Céu de Estrelas, entre a cabeleireira
e o ex-namorado, ou ainda de Os Matadores, entre o matador e a
mulher do patrão, o cinema brasileiro recente Não Deseja.
E estes exemplos acima envolvem personagens situados fora da esfera da
classe média urbana. Nessa esfera social, porém, ninguém
suspende nada. Todos se comportam como se não pudessem ou não
quisessem integrar-se a outro. Os sujeitos não se deixam atravessar
por nada.
Poderíamos
ter uma outra exceção na tragédia romântica
de Dom. Baseado em romance de Machado de Assis, a expressão
dos sentimentos são datados do século XIX, embora vejamos
imagens atuais do Rio. O protagonista-narrador, como no romance, desconfia
da esposa, para ele infiel. Mas a questão é menos a ambiguidade
moral da mulher ou seus desejos supostamente misteriosos. Importa acima
de qualquer coisa a insegurança dele diante do fato dela trabalhar
como atriz. Dela representar, fazer papéis, ser outros seres. Estamos
em um caso cujo conflito é, então, motivado pelo fato de
a esposa trabalhar fora (e como atriz). Coloca-se em pauta a emancipação
feminina, ali posta como ponto de partida de uma desgraça. Também
põe-se em cena um amor romântico, o do marido, que se revelará
doentio e perigoso, pois fora de época e de moda. Essa doença,
o amor posessivo, tem potencial. No entanto, é assassinada (pelo
filme). Tanto o conteúdo como a misé en scene, que transforma
expressões físicas de carinho e desejo em momentos bisonhos
e robotizados, nos leva à concluir que este é outro filme
a descrer no amor. Tomemos como exemplo a sequência na qual o protagonista,
certo do adultério da esposa com seu melhor amigo, pega-a por trás
no banheiro e a possui com pretensa raiva. Essa é a lógica
da cena: uma agressão física misturada ao prazer de estar
agredindo-a pelo fato dela ser sexualmente desejável por outro
homem. O que vemos? Uma transa mecânica, enfastiada, sem desejo,
sem raiva.
A abordagem de O
Homem Que Copiava, em relação a este recorte, é
completamente estranha aos outros filmes. Temos um atendente de papelaria
e uma atendente de loja de roupa. Ele quer se aproximar dela, mas, para
tanto, precisa arrumar algum dinheiro. A falta deste, afinal, é
um obstáculo. Mesmo a jovem sendo da mesma classe social dele.
O romantismo aqui, pois romantismo há, tem bases realistas. O protagonista-narrador
terá de primeiro arrumar-se na vida, por meio de transgressões
morais e da lei, antes de achar-se digno de abraçar a mocinha amada.
Fará de tudo para tê-la, inclusive falsificações
e assalto. Jorge Furtado já havia mostrado em seu filme anterior,
Houve uma Vez Dois Verões, que o amor não é
nenhuma perfeição. Depende de uma série de condições
para vingar. Naquela oportunidade, um adolescente, sucessivas vezes enganado
por uma moça, insiste em tê-la. O amor é cego ou enxerga
demais (ou o que não se vê). Isso não significa que,
para quem ama, a vida é um inferno. Ou um circo. O amor em Furtado
é mobilizador. Porque será por amor à vizinha da
frente que o narrador de O Homem Que Copiava se empenhará
em agir para ascender economicamente. Isso coloca o filme em um outro
degrau das obras brasileiras recentes sobre ligações afetivas.
Simplesmente porque, sempre recusando-se a julgar personagens, Furtado
legitima as ações de seus seres, mas principalmente as emoções
geradoras destas ações. Neste aspecto, aproxima-se de Domingos
Oliveira, para quem, ao menos nos filmes, toda atitude é válida
quando se ama. Porque amar, em última instância, é
um ato transgressor. E não pode ser uma expressão esterilizada
pela falta de convicção nela ou em sua representação/imagens
em imagens cênicas.
Cléber Eduardo
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