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Tempo de protesto, de Sam Green e Bill Siegel

The
Weather Underground, EUA, 2003
“Eu
sentia um grande ódio, um profundo ódio e enxergava nesse ódio um sintoma
de elevação moral”. Essas palavras proferidas por uma integrante do Weather
Underground estabelecem os sentimentos que constituem a coluna vertebral
desse documentário: o ódio e a intolerância. Formado por jovens brancos
e abastados de uma elite conservadora, o grupo guerrilheiro nutria uma
imensa raiva à sociedade americana em geral. Todos os elementos que a
compunham eram culpados. Todos os brancos, protestantes, privilegiados,
carregavam consigo o gérmen do crime. Fazer parte do time dos poderosos
de uma sociedade truculenta e podre, que segrega os negros e assassina
seus opositores em nome da democracia, e se calar, era realmente um ato
de cumplicidade. A posição cômoda de ser um privilegiado enquanto uma
tempestade de injustiças acontece diante de seus olhos promove uma culpa
que em alguns se transforma em apatia e em outros se transforma em revolta.
Esse era o caso dos jovens do Weather Underground. Eles eram terrivelmente
culpados e acreditavam que poderiam sanar esse culpa articulando a mesma
linguagem de seu inimigo: a violência. “Para mudar uma sociedade violenta
é necessário também ser violento”, alegava uma militante.
Tendo
como opositor a sociedade como um todo e não um grupo especifico, a organização
adotou como estratégia de combate a execução de uma série de atentados
a lugares públicos, sempre como resposta à ataques de direita. Então,
sempre que se assassinava um líder negro ou estudantil, ou que surgia
uma nova atrocidade originada da política do presidente Nixon, uma nova
bomba explodia. Os Weather tinham se formado a partir do movimento pacifista
iniciado no começo dos anos 60 e acreditavam que clamar passivamente pela
paz não os levaria a lugar nenhum.
Imperava
o lema “seja marginal, seja herói”. O discurso do filme, ao construir
no início um painel do período através das imagens de arquivo, onde é
enfatizado o clima de revolução que se apoderava do mundo, era de que
aqueles jovens estavam inseridos em um ambiente que estimulava a liberação
de desejos reprimidos como o ódio e a pulsão de mudar o mundo. Era preciso
urgentemente fazer alguma coisa, não era certo ficar de braços cruzados
diante do quadro sanguinário que era pintado diariamente. A maioria dos
ex-integrantes em seus depoimentos revelaram que a necessidade de não
estar de fora daquela revolução era realmente poderosa. Fica em evidência
a idéia de que o surgimento do grupo é o resultado de um específico contexto
histórico: eles fizeram o que achavam que deveria ser feito naquele momento.
Em
nenhuma ocasião eles são mostrados como terroristas ou jovens desmiolados,
mesmo quando é relatado o incidente dos “dias de raiva”. Sendo esboçado
como um ato onde todo o ódio aos dirigentes de seu país seria expressado
através de dias de arruaça e quebra-quebra pelas ruas de Chicago o acontecimento
serviu para demarcar o princípio do processo de declínio do movimento.É
claro que este tinha sido o resultado de um plano insano e que confirmava
as críticas endereçadas ao grupo. Críticas repetidas até mesmo pelos lideres
dos Panteras Negras. Pode-se dizer que o Weather Underground realmente
fazia uma leitura apressada e infantil do marxismo, e era ostensivamente
individualista, porém essa segunda característica está presente em qualquer
grupo que defende a sua verdade com absoluta veemência. Qualquer ideologia
possuidora de mudar ou purificar o mundo é nociva quando para realizar
esse feito é preciso passar por cima de vidas humanas.
O
que vemos é que esse ódio diagnosticado pelos guerrilheiros como sintoma
de uma superioridade moral é constantemente alimentado pelo estado norte-americano.
As imagens da guerra do Vietnam, que já fazem parte do imaginário de qualquer
cidadão contemporâneo, são no documentário mostradas na integra. Determinados
trechos que foram cortados pelas televisões do mundo são aqui ressaltados,
como a terrível cena da menina queimada de napalm. O que fazer em uma
sociedade que cultua o ódio?
Essa
é a pergunta que atormenta a mente do ex-líder do Weather Underground.
Ele revela sentir a mesma inquietação e angústia que o devorava há 30
anos atrás. A ira permanece e ele não sabe o que fazer. Parece que misturado
às lembranças do passado surge um sentimento de impotência, sensação que
caracteriza a enorme distopia que domina a nossa época. Hoje em dia a
grande utopia é ter alguma utopia. Diante desse quadro, quase todos os
ex-guerrilheiros afirmam que se voltassem no tempo fariam tudo novamente.
Uma delas diz que talvez fizesse com mais astúcia, mas jamais abdicaria
daquela experiência. Outra, afirma que o seu maior arrependimento foi
ter se calado quando se planejavam operações que poriam em risco a vida
de pessoas inocentes. Já o ex-líder revela também sentir uma profunda
culpa e esse parece ser o seu sentimento preponderante. A culpa que ele
sentia quando era apenas um líder estudantil diante das crueldades executadas
pelo seu país o fez entrar para o Weather. A culpa do passado mescla-se
com a culpa do presente. O que fazer? Essa é a interrogação que surge
em nossas mentes ao sairmos do plano do líder velho para a imagem do líder
quando jovem.
A
revolta é eterna.
Estevão
Garcia
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