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Sansa A Alegria de Viver, de Siegfried

Sansa,
França/Espanha, 2003
Nos seus melhores momentos, Sansa
tem uma energia rara no cinema atual, uma crença sincera nos ideais
que prega, ou seja, essencialmente aqueles de uma negação
à "produtividade" como objetivo final de um sistema que
preza, antes de tudo, resultados mesuráveis. Sansa é
um filme sobre o simples desejo de ver a vida como um exercício
interminável de liberdade, liberdade esta encarnada pelo personagem
principal, e, principalmente, pela peregrinação que este
faz pelo mundo num jogo de geografia criativa e sem necessidades de explicações
racionais, onde o personagem pode perfeitamente dormir em Paris e acordar
em São Petersburgo, apenas para estar em Tóquio ou na Índia
no momento seguinte. Em todos estes, valoriza-se sempre o movimento constante
(são inúmeras as cenas dele fugindo das figuras de autoridade)
e a pulsão sexual. Mulheres abundam pelo filme, e este romântico
nunca pode fugir da sedução. O filme foi considerado machista
por alguns, mas só pode ser visto como tal por quem associe negar
um tal machismo à monogamia ou a simples negação
do desejo exacerbado, ou pior ainda, o sexo livre comom um "abuso
do homem contra a mulher". O filme é tão machista quanto
qualquer obra de um Domingos Oliveira ou de um Truffaut, afinal o personagem
é somente um "homem que amava todas as mulheres do mundo",
o que aqui torna-se ainda mais vital por ser um filme que ama também
todas as cidades do mundo e para o qual a noção de movimento
e variação mostra-se tão cara. É, antes, um
filme de declaração de amor à vitalidade das mulheres
como um dos motores deste personagem.
Infelizmente, o excesso de velocidade de
Sansa, depois de um certo momento, começa a trabalhar contra
ele mesmo, e o filme tem dificuldades de saber quando parar. Na sua duração
de quase duas horas, rapidamente a energia e a vitalidade de seu início
(características essenciais ao filme) vão se tornando uma
repetição rotineira, o que é exatamente a negação
do personagem. Há passagens que claramente estão no filme
apenas por terem sido idealizadas para tal, mas que não ajudam
a narrativa em nada. O exemplo maior é, justamente, a citada passagem
pela Índia. Não precisa se ter muita informação
sobre o processo de produção do filme para ver que ele foi
conceituado e realizado com a ajuda das viagens do diretor pelo mundo,
muito provavelmente com o seu filme anterior (Louise-Take 2), o
que possibilitaria, pela simplicidade e liberdade de Sansa que
com apenas uma câmera digital e o ator ao seu lado se pudesse conceber
cenas nas ruas de outros países. Só que, na Índia,
o problema é que o ator não estava lá, e a câmera
assume uma primeira pessoa documental para esconder isso que simplesmente
não funciona.
Falando no primeiro filme de Siegfried, aliás,
seja como visão de mundo, seja como estética cinematográfica,
seja como escopo geográfico-humano, Sansa é certamente
uma radicalização dos elementos que já estavam presentes
naquele. Ao que apreciavam a defesa de uma vitalidade livre que os personagens
representavam no primeiro filme, certamente terá grande impacto
a passagem desta proposta de uma dramaturgia de personagens para toda
a forma do filme. Siegfried mostra, assim, uma coerência interessante,
ainda que esteja afinando melhor seu domínio sobre o cinema como
forma de expressão (ele é também músico, artista
plástico, etc).
Eduardo Valente
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