Prova de Amor, de David Gordon Green
All The Real Girls, EUA, 2003

Segundo longa-metragem de David Gordon Green – seu primeiro, o elogiadíssimo George Washington, permanece inédito por aqui –, Prova de Amor é um objeto estranho dentro do panorama do cinema independente norte-americano contemporâneo. Não porque trabalhe um universo temático relativamente esgotado (relações afetivas e familiares de um grupo definido de personagens) pela recorrência neste tipo de filme, mas porque escapa do bestiário grotesco e do cinismo generalizado tão característicos das produções das últimas safras do Sundance.

Numa cidade da Carolina do Sul, um jovem mecânico com fama de mulherengo apaixona-se pela irmã de seu melhor amigo, um sujeito ciumento – e como a menina é virgem, a coisa ganha dimensões dramáticas. A trama é banal, mas isto nem importa tanto: ou melhor, importa na medida que permite ao diretor explorar em cena as relações entre suas personagens – e estas últimas não têm nada de banal. Green sabe valorizar seu elenco (afinal, Prova de Amor é um filme de atores) que, embora limitado em certa medida, sabe valorizar por sua vez uma direção sensível ao ritmo interno das cenas. O casal central formado por Paul Schneider e Zooey Deschanel tem lá seu charme, embora o filme conte com um elenco coadjuvante que evita que as coisas avancem numa certa monotonia em que ocasionalmente recaem.

Green imprime um ritmo todo particular à narrativa, lembrando por vezes o cinema de Terrence Malick – em particular na maneira como o uso das elipses e da trilha sonora incessante evoca uma temporalidade parecida. Há ainda, no modo como o cineasta imprime uma qualidade subjetiva, intimista, nas articulações entre paisagens (em glorioso Cinemascope) e personagens que lembra o mesmo estilo impressionista do diretor de Cinzas no Paraíso.

Prova de Amor, se prova alguma coisa, é que foi realizado por um cineasta indubitavelmente talentoso e dono de um estilo peculiar – duas qualidades nada desprezíveis; fica a curiosidade de assistir George Washington e a expectativa de uma carreira a seguir com bastante interesse.

Fernando Verissimo