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Teoria da Conspiração,
de Richard Donner 
Conspiracy Theory, EUA,
1997
Richard Donner pode, com o material
certo, ser um artesão competente (Maverick), da mesma forma
como pode deixar um filme degenerar numa bobagem sem tamanho (Maquina
Mortífera 4). Estes dois lados estão bem aparentes em
Teoria da Conspiração. Produção grande,
com dois astros (Mel Gibson e Julia Roberts), um roterista competente
(Brian Helgeland), uma equipe técnica competente e uma premissa
forte. O tipo de projeto que um competente administrador deveria conseguir
entregar um produto ao menos razoável. E como Donner se sai? Bem
e mal.
A primeira meia hora de Teoria
da Conspiração é das mais atraentes. Há
algo ali, na forma como as imagens se articulam, na forma que elas apresentam
o mundo paranóico do protagonista que é bastante forte.
Olivier Assayas mencionou recentemente que este primeiro ato do filme
é o mais próximo que o cinema chegou da literatura de um
William Borroughs, e é fácil compreender o que ele quer
dizer. A apresentação do filme mal lembra que estamos numa
superprodução, o filme, por exemplo, passa da comédia
a uma sádica cena de tortura de forma a nunca deixar o espectador
muito certo de si.
Depois dessa meia hora, porém,
o que há de surpreendentemente forte no filme se desfaz e entramos
num suspense rotineiro e Donner, após construir tão bem
o clima inicial, se dedica apenas a ilustrar o roteiro de Helgeland que
sofre de excesso de vontade surpreender o espectador. A abordagem inicial
de Donner fazia sentido para um material tão cheio de idas e voltas
a ponto de beirar o ridículo. O que torna ainda mais incompreensível
o tom quase grotesco com que ele quer que levemos num tom sério
o que vem depois.
É como se ele se dedicasse
a explicar o estranhamento do início trazendo-o até a normalidade.
O paranóico personagem de Gibson tem todo o seu comportamento devidamente
explicado, psicologizado e, no processo, desprovido de tudo que tinha
de interesse. Na altura do clímax já perdemos qualquer investimento
nos procedimentos, na mesma medida que o filme jogou no lixo o que ele
tinha de personagens ou clima. Donner administra como pode o que tem nas
mãos, mas por melhor catalista de talentos que ele possa ser, é
incapaz de inserir o mínimo de foco para estas imagens, o que houvesse
de investimento nelas se exaure ainda no início.
No centro de Teoria da Conspiração
está um complô envolvendo lavagem cerebral. O conceito de
lavagem cerebral é sempre uma boa oportunidade para cineastas que
se enveredam pelo thriller, já que há algo na forma como
ele se relaciona com o espectador que não deixa de se aproximar
do processo. Os melhores filmes que usam de lavagem cerebral (Sob o
Domínio do Mal, de Frankenheimer, O Telefone, de Siegel),
usam do conceito justamente para refletir sobre seus próprios mecanismos.
Há certos momentos de Teoria da Conspiração
em que o filme parece ameaçar enveredar nesta direção,
o que nunca se realiza. Talvez seja esta a diferença entre um cineasta
que parte para um projeto desses com a ambição de deixar
nele alguma marca daqueles que estão satisfeitos em administrar
tudo a contento. Falta a Donner a ambição.
Filipe Furtado
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