Fitas do Sótão

INTRODUÇÃO

Após um longo e tenebroso inverno, finalmente consigo tempo para reassumir essa coluna na Contra. Com uma novidade: além de mim, teremos mais três colunistas, que se revezarão (ao ritmo de três ou quatro textos por mês), o que vai resultar numa imensa variedade de temas e opiniões. A idéia permanece a mesma: redescobrir filmes que passaram no cinema ou saíram em vídeo e não foram devidamente valorizados em sua época.

Esta será uma coluna nacional: dois gaúchos (eu e o Cristian Verardi, um verdadeiro homem da Renascença, pois é poeta, escritor, cineasta e, nas horas vagas, crítico de cinema - que estréia mês que vem), um paulista (o Leandro Caraça, fã de spaghetti western, Sam Peckinpah e cinema oriental, que os "assinantes" da Canibal Holocausto já conhecem bem) e um carioca (Fábio Vellozo, o melhor crítico desconhecido de cinema do Brasil, que faz sua estréia "impressa" aqui na Contra). Por acaso ou não, somos todos participantes de uma revista que estréia no final do mês, "Monstro Magazine", especializada em cinema de horror. Longa Vida à Contracampo, Longa vida às Fitas do Sótão, Longa vida à Monstro Magazine!!!

Carlos Thomaz Albornoz

POSTMAN BLUES, de Hiroyuki "Sabu" Tanaka
Posutoman Burusu, Japão, 1997

Sawaki é uma pessoa comum cuja vida parece ser um tédio absoluto. Seu trabalho como entregador de correspondências não parece lhe trazer muita inspiração e também não aparenta ter planos para o futuro. Essa existência ordinária irá mudar completamente no dia em que encontra um velho amigo, agora membro da máfia. A partir desse momento Sawaki é tomado erroneamente pela polícia por um perigoso elemento capaz dos mais violentos atos. Contribui ainda para isso o fato dele ter ficado íntimo de um experiente assassino profissional que está morrendo. No mesmo hospital onde o velho matador está, Sawaki conhece e se apaixona pela jovem Keiko que tem câncer terminal. O encontro com essas pessoas injeta ânimo na vida do carteiro ao mesmo tempo em que o transforma no indivíduo mais procurado do Japão. E tudo isso sem que o inocente Sawaki desconfie de nada.

Postman Blues é uma comédia de erros dirigida por Hiroyuki Tanaka ou simplesmente Sabu, como é mais conhecido. Ele adotou esse pseudônimo por achar seu verdadeiro nome comum demais. Seu estilo poderia ser facilmente definido como uma improvável fusão entre Tarantino e Kitano mas ele demonstra com muita habilidade porque é ao lado de Kitano um dos mais interessantes cineastas contemporâneos do Japão. O lado cômico do filme convive harmoniosamente com as cenas mais líricas onde o maior exemplo é a "cavalgada dos heróis" - digna dos grandes faroestes, isso se não houvesse bicicletas no lugar dos cavalos - que antecede a bela e triste conclusão da obra.

Postman Blues é repleto de referências a vários filmes policiais como a matadora de óculos escuros e peruca loira que parece ter saído de Amores Expressos de Wong Kar-wai, ou então o citado matador profissional cujo apelido é "Ace No Joe", o mesmo do ator Jo Shishido, protagonista do genial A Marca do Assassino dirigido pelo grande Seijun Suzuki. Por falar no octogenário Suzuki, ele participa de Blessing Bell o mais novo filme de Sabu. Porém, não existe homenagem maior ao gênero do que o pôster de Ken Takakura (o "John Wayne" dos filmes de yakuza) que embeleza a parede de um dos personagens desse excelente filme.

Leandro Cesar Caraça

CUT-THROATS NINE, de Joaquín Romero Marchent
Condenados a Vivir, Espanha, 1972

Em 1972, enquanto o faroeste italiano dava seus últimos sinais de vida com os filmes da série Trinity e suas inúmeras cópias, surge este "paella western" (produção totalmente espanhola, sem a participação de investidores italianos), certamente o mais cruel, violento e surpreendente (nenhum tiroteio ao longo de todo o filme) dos faroestes feitos na Europa.

O filme abre com a narração de um sargento do exército, que tem a missão de transportar sete criminosos (e não nove, como sugere o título norte-americano) até o campo de trabalhos forçados mais próximo. Não bastasse a péssima companhia, é inverno e o inóspito terreno até o Forte Green está coberto de neve. O clima de total isolamento do resto do mundo, o pessimismo, o ódio quase palpável entre os personagens e a sensação de que algo de ruim está sempre para acontecer remetem imediatamente a um outro clássico faroeste europeu, o anterior Il Grande Silenzio/The Great Silence, de Sergio Corbucci, que curiosamente foi rodado nas mesmas locações, os Montes Pireneus.

Os problemas apenas começam quando a diligência é atacada por bandidos à procura de ouro (dentre eles, o alemão Dan Van Husen, de Capitão Apache e El Condor). Os soldados que faziam a escolta são torturados e assassinados (com direito a close de jugulares sendo cortadas) e a carruagem, destruída. O sargento, sua filha e os sete psicopatas (presos uns aos outros por correntes) têm de percorrer o restante do caminho a pé. Um dos condenados, que havia fraturado a perna no acidente, é despachado logo na primeira noite. Quando o sargento ordena que o seu cadáver também seja carregado, o restante do grupo queima o corpo do infeliz na segunda noite ("E agora, precisaremos carregar carne queimada, sargento?").

Até aí, presume-se que o roteiro de Joaquín Hernandez e do prolífico Santiago Moncada (roteirista de obras primas como Il Rosso Segno della Follia/Hatchet for the Honeymoon, de Mario Bava, La Corrupción de Chris Miller/The Corruption of Chris Miller, de Juan Antonio Bardem e Bell of Hell/La Campana del Infierno, de Claudio Hill) tenha o sargento, interpretado pelo italiano Claudio Undari (vilão tradicional de faroestes como SABATA e o centauro em Goliath and the Dragon, de Vittorio Cottafavi) como personagem central, o anti-herói em busca de vingança tão característico dos faroestes italianos. Entretanto, Moncada envereda por outros caminhos. Aqui é cada um por si, e todos, sem exceções, são "vilões". Se em outros de seus filmes Moncada já se revelava um cínico e um niilista de mão cheia, aqui ele se supera.

Antes da metade do filme, um dos condenados descobre casualmente que as correntes que os ligam são feitas de ouro. O real motivo da jornada era transportar o ouro até o forte sem atrair a atenção dos bandidos que rondam a área. O grupo também não foi escolhido por acaso - o sargento sabe que um dos sete foi o responsável pelo assassinato de sua mulher e a jornada é a oportunidade que lhe faltava para a sua vendeta pessoal. O diretor Marchent (diretor de vários spaghetti westerns, incluindo Os Sete do Texas, também estrelando Undari e disponível em vídeo no Brasil) de tempos em tempos congela a imagem no rosto de algum dos condenados e revela um pouco do passado de cada um em flashbacks silenciosos e em câmera lenta, dando ao filme uma qualidade surreal. A climática trilha sonora, assinada pelo recém-falecido maestro Carmelo Bernaola (responsável pelas trilhas de diversos filmes de Paul Naschy) ajuda, apesar de que a constante repetição do interessante tema principal ao longo de todo o filme possa desagradar a alguns.

Aproveitando um momento de cansaço do sargento, o restante do grupo o captura, passando a espancá-lo e posteriormente queimando-o ainda vivo (a maquiagem é sempre convincente). Sua filha (interpretada pela angelical Emma Cohen, de La Semana del Asesino/Cannibal Man de Eloy de la Iglesia e do Cabezas Cortadas de Glauber Rocha) é estuprada por todos, a exceção de Dean, o único do grupo que parece demonstrar algumas qualidades. Ele passa então a cuidar da jovem, agora em estado de choque.

Dean, agora o centro das atenções do imprevisível roteiro após o inesperado fim do sargento, se encarrega de eliminar Weasel (José Manuel Martín, figurinha carimbada de diversos faroestes italianos como Uma Pistola para Ringo e A Quadrilha da Fronteira), enforcando-o. Após finalmente se livrarem das correntes que os unem com a ajuda do trem e de seus trilhos, um dos condenados (Antonio Iranzo, que fisicamente lembra Gian Maria Volonté) tenta fugir, levando consigo o estoque de provisões do grupo e seu pedaço da corrente. Não vai longe. Perdido, andando em círculos em meio a uma tempestade de neve, delira (em uma das melhores sequências do filme, imagina-se perseguido pelo cadáver queimado do sargento) e para seu azar, encontra o bando que havia atacado a diligência no início do filme.

O grupo, agora sem comida e reduzido a três condenados e a filha do sargento, concorda numa improvável colaboração para que possam chegar a fazenda ou entreposto mais próximo. Lá chegando, encontram um grupo de soldados bêbados (dentre os quais Lorenzo Robledo, que morre em quase todos os filmes de Sergio Leone) e o dono do local, reconhecido por um dos condenados como o homem que o entregou às autoridades anos atrás. O bando acorrenta os soldados e decide passar a noite no lugar. O objetivo é esperar a diligência vinda do Forte Green, que chega ao entreposto pela manhã para que então possam finalmente fugir.

Mas novamente o ódio volta a falar mais alto e o dono do entreposto é esfaqueado e eviscerado (em close) pelo criminoso traído. Dean tenta impedi-lo e também é morto. A última carta na manga de Moncada é então posta na mesa: o flashback final e a revelação de que Dean era o assassino da mulher do sargento, executada com o auxílio dos outros seis condenados.

Chega a manhã e com a ela a carruagem que pode significar a liberdade para os dois condenados (um deles o ótimo ator argentino Alberto Dalbes, de La Mansión de la Niebla/Murder Mansion e de alguns filmes de Jess Franco). Mas eles não se dão conta da filha do sargento, que reserva uma última surpresa para os dois (e para o espectador).

Cut-Throats Nine infelizmente não foi lançado em vídeo no Brasil. A fita aqui resenhada é o VHS norte-americano lançado em meados da década de 80 pelo selo Liberty Entertainment Group. A fita, sem cortes, contém a eficiente dublagem em inglês e a qualidade de som e imagem é adequada. Apesar do formato "full screen", os enquadramentos não ficam muito prejudicados. O título de tela é Cut-Throats Nine, com o qual o filme foi exibido nos cinemas americanos ainda em 1972. Como era de se esperar, a campanha de marketing do filme nos EUA foi toda baseada nas cenas de violência explícita ("Violence is their way of life!"). O truque publicitário bolado pelo distribuidor deve ter deixado William Castle orgulhoso: máscaras ("terror masks") eram dadas aos espectadores que quisessem evitar as cenas mais sangrentas!

O filme também foi lançado em DVD (ainda que sem a autorização dos detentores dos direitos) pelo selo americano Eurovista Digital Entertainment. O disco preserva o aspecto original do filme (1.85:1) e apresenta os trailers americano e alemão (aparentemente, o filme foi posteriormente banido em terras germânicas pelo excesso de violência) e biografias de Claudio Undari e Emma Cohen.

(Distribuição em VHS: Liberty Entertainment Group - EUA. Duração: 90min 33s [NTSC])

Fábio Vellozo

Dois filmes de Sergio Corbucci:
Il Grande Silenzio / Compañeros

DVD sair com imagem e som melhor que o VHS é a norma: além do formato digital ter inúmeras possibilidades a mais que o analógico, normalmente os produtores aproveitam e dão uma restaurada/remasterizada antes do filme receber o upgrade digital. O que causa estranheza é quando uma fita de vídeo com 15 anos tem imagem ou som mais claros que o disquinho. Isso aconteceu duas vezes, agora, em filmes do mesmo diretor, Sergio Corbucci.

O caso mais estranho é Il Grande Silenzio (1968), a obra-prima do diretor. A fita é considerada por Christopher Frayling, biógrafo de Sergio Leone e autor do livro Spaghetti Westerns: Cowboys and Europeans, estudo definitivo sobre o gênero, como sendo o melhor western italiano não dirigido por Sergio Leone, com sua ambientação gelada e final amargo. Conta a história de Silenzio, pistoleiro mudo vivido por Jean Louis Trintignant, que vai defender uma vila dominada pelo sempre ameaçador Klaus Kinski. Esse filme também foi uma extraordinária afirmação da técnica de Corbucci, visto com desconfiança pelos cinéfilos depois do ultraviolento (mas também excepcional) Django.

Na fita lançada em meados dos anos 80 pela FJ Lucas, sob o título O Vingador Silencioso, o filme estava em widescreen (1.66:1), preservando as belíssimas composições de Silvano Hipolliti, e com o som em italiano, onde todo o elenco italiano se dublou (mas não os dois atores principais, Kinski e Trignitignat). No DVD lançado por aqui agora em 2003, sob o esquisito título O Silêncio da Morte, temos em mãos o filme em formato semelhante, e som em inglês (em que nenhum dos atores centrais se dubla). O DVD americano também tem som em inglês e utiliza provavelmente o mesma transfer, é apresentado pelo diretor inglês Alex Cox e tem um final feliz alternativo. Por mais que a gente não fosse imaginar que a produtora ia chegar ao requinte de duplicar o DVD japonês (com ambas as trilhas mais legendas em inglês, italiano e japonês), ou que fosse procurar uma dublagem em português para oferecer ao comprador (bela iniciativa que está sendo feita por algumas distribuidoras independentes - como no DVD nacional do já citado Django, por exemplo), o mínimo que dava para pensar é que a produtora ia usar o master inteiro da versão americana, que teoricamente está lá, prontinho, já em NTSC, com seus extras (inclusive os cinco minutos de entrevista e os seis do final feliz); era só colocar a legenda. Nem isso. É o tipo de economia boba, que desrespeita o comprador, disposto a colocar quarenta reais em um produto especial...

Companheiros (Vamos a Matar Compañeros, 1970) é outra história. É um dos últimos grandes momentos do spaghetti western como gênero, instantes antes das paródia a la Trinity se tornarem a norma e por fim enterrarem o ciclo (que depois retornaria esporadicamente, em produções como Keoma (1976), de Enzo Castellari, e Mannaja (1977), de Sergio Martino). Este é da safra dos "Zapata Westerns", ou seja, é passado durante a revolução mexicana, narrando a parceria forçada de um mercenário sueco (Franco Nero) e um legítimo campesino mexicano (o sósia de Che Guevara, Tomas Millian), sendo perseguidos por Jack Palance. É menos sério (mas tão engajado quanto) que o resto dos filmes desse ciclo (que incluem Um Bala para o General, de Damiano Damiani, Face a Face, de Sergio Sollima, e Quando Explode a Vingança, de Sergo Leone), mas com montes de ação para distrair quem não está interessado na pregação maoísta.

O DVD que saiu por aqui tem todas as qualidades e defeitos do importado, que saiu nos EUA via Anchor Bay. Preserva o frame do techniscope (2.35:1) e as composições do diretor de fotografia Alejandro Ulloa (que meses depois filmaria One on top of the other com Lucio Fulci), inclui uma dublagem em português (que vai deixar felizes todos aqueles que viram esta produção na TV)... mas preserva o grande defeito do disquinho importado, ou seja, a trilha "falhada" em inglês.

Explico: às vezes as produções italianas, por serem longas, eram lançadas nos Estados Unidos (e em vários mercados) com alguns minutos a menos. De uns tempos para cá, quando do lançamento em DVD destes títulos, as produtoras têm optado por lançar os filmes com trilha em inglês e, quando a cena não foi dublada, diálogos em italiano com legendas, para "demonstrar" quais cenas não chegaram a ser traduzidas. Isso aconteceu em Prelúdio para Matar, de Dario Argento, em Torso, de Sergio Martino, e em eventuais outros filmes. O problema é quando essas cenas existem, e fáceis de achar. Onde? Na fita que saiu no Brasil pela Reserva Especial, por exemplo. Só por isso a mesma não vai ser jogada pela janela pelos fãs do filme, pois o som em inglês é a melhor versão do filme, com Tomas Millian se dublando com sotaque fortíssimo e a excepcional performance do "man in black" Jack Palance.

Carlos Thomaz Albornoz