Editorial



Leona Cavalli e
Jonas Bloch em AMARELO MANGA, recém-lançada estréia de Cláudio Assis no longa-metragem. Raiva, provocação e distopia são as chaves para relacionar-se com o espectador..
   
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fotos da edição: Fernando Duarte

"A Retomada". Como diz um colega aqui da revista, o termo traz consigo um som de choque elétrico. Já tornado um clichê por sua excessiva utilização, não perdeu de todo o significado na medida em que marque uma época fechada do cinema nacional que começa lá pelos idos de 94/95 (o marco oficial é o primeiro Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, o marco simbólico é o sucesso de público no lançamento de Carlota Joaquina). No entanto, é preciso trazê-lo à tona sempre que possível para se buscar algum significado além do cronológico. Afinal, se estamos quase completando dez anos do termo, até quando ele vai servir para caracterizar toda a cinematografia nacional? E, aí é importante dizer: nem exato ele chega a ser. Porque, se é verdade que com a extinção da Embrafilme no governo Collor uma certa produção brasileira foi levada ao zero quase absoluto (sobraram exemplos isolados de filmes sendo terminados, que haviam sido começados ainda na Embrafilme), também é verdade que a Boca do Lixo mantém os números totais do cinema nacional quase inalterados no período. E mais: numa produção tão irregular desde seu início, como é a brasileira, tão dependente de fatores externos a seu próprio campo de ação, um soluço de dois ou três anos é tão comum quanto qualquer outra coisa, se olhamos a macro-História. Então, talvez fosse melhor se falar em "Cinema das Leis de Incentivo", talvez, esta sim uma marca específica do período.

Mas, nos parece que o principal movimento que devemos fazer regularmente é menos o de se deslumbrar com este cinema "retomado" (ou, por outra, descartá-lo) e sim debruçar-se em rigorosos levantamentos possíveis do que nos indique o coletivo do que se está produzindo no país hoje. Fizemos isso em 2001, numa retrospectiva geral do cinema nacional ao longo da década de 90, pensando-o a partir de seus temas recorrentes. (Outra contribuição no formato que não podemos deixar de citar é o livro organizado por Lúcia Nagib O Cinema da Retomada, feito de entrevistas com 90 cineastas – não apenas estreantes – que realizaram longa-metragem no período.) Pois agora resolvemos parar e olhar mais especificamente, através de um outro enfoque: quem são os cineastas estreantes do cinema nacional neste período, e o que a sua produção nos diz? Afinal, se o discurso da "diversidade" (outro clichê mais do que discutível) serviu para confundir um pouco as possíveis análises temáticas mais a fundo, faz-se necessário ao menos ver que novos olhares surgiram, e o que eles nos indicam. Nossa opção de atacar o tema pelo nome dos diretores é menos um reforço de uma "política dos autores" (já que Godard nos avisa há tempos que a palavra essencial na expressão é "política"), e mais uma escolha de recorte que nos dá a possibilidade de estar tratando do individual e, pelo acúmulo extensivo dos nomes, de uma certa idéia de geração também.

Falou-se muito na quantidade de "primeiros filmes" desde a volta à esta produção e, de fato, levantamos 114 cineastas filmando seus primeiros longas em menos de 10 anos. No entanto, a primeira pergunta que aparece, de saída, é: há mercado para tantos primeiros cineastas completarem de fato uma carreira no cinema nacional? A resposta parece complicada uma vez que, dos 114, apenas 6 chegam a fazer 3 longas em 8 anos (outros 5 estão entre filmagem e finalização do terceiro). De fato, 70% realizaram apenas um longa. Será que o Brasil se torna, então, um país de eternos estreantes? Afinal, é ponto pacífico entre todos que há uma energia e uma disposição para um primeiro longa que dificilmente se repete depois dele. Então, a primeira pergunta talvez seja esta: há um cinema nacional tão vibrante quanto um número de 114 cineastas estreando em 8 anos indique? Ou será que alguns deles arriscam-se no formato apenas por um momento conjuntural de maiores facilidades de captação? E mais: embora tantos tenham estreado, tantos outros (dos quais talvez se esperasse muito mais a estréia) não filmaram ou finalizaram seu primeiro longa. Então, uma outra pergunta fica implícita na pauta: por que estes estrearam, e não outros?

As perguntas possíveis são muitas, mas não esperamos responder a todas com esta edição. Nosso desejo é, primeiro de tudo: catalogar num formato compreensivo, pela primeira vez de forma tão abrangente, esta lista de nomes. Em segundo lugar, uma vez que Contracampo está prestes a completar 5 anos de reflexão dentro deste mesmo cinema brasileiro (sendo, portanto, também uma estreante do período), deixar bem claro quais nomes desta geração, dentro da produção que vimos até hoje, nos parecem os principais a se prestar atenção enquanto tentam traçar seus próximos passos na carreira do nosso cinema. Trata-se, mais uma vez, de pauta que se desatualiza no mesmo momento que a colocamos no ar (uma vez que em menos de um ou dois meses teremos mais 5 ou 6 estréias, e mais segundos ou terceiros filmes). No entanto, o desejo é de se fazer isto mesmo: um retrato parado no tempo no qual arriscamos sempre quebrar a cara ou marcar posições importantes. Voltaremos à lista no futuro, assim como adicionaremos outras com os novos nomes.

Além desta pauta principal (que inclui, além da lista dos verbetes, entrevistas com alguns nomes que nos pareciam especialmente interessantes), Contracampo dá uma rápida, mas importante olhada para a programação em longa-metragem do festival de filmes de animação Anima Mundi uma vez que, cada vez maior, está difícil acompanhar a mostra de curtas e conseguir extrair reflexões menos pontuais. E, em DVD/VHS, resgatamos um nome pouco discutido do "cinemão" hollywoodiano, para analisarmos seus trabalhos: Richard Donner (a seção, como de praxe agora, entra no ar 15 dias depois da edição). Boa leitura.

Eduardo Valente