Por um sentido para as imagens


Os protagonistas se encontram com Jesus Cristo e
Paulo José em O Homem Que Copiava de Jorge Furtado

No final de O Homem Que Copiava, Leandra Leal, diante de um símbolo cristão, fecha o quebra-cabeça do filme. Depois de ler uma carta, diz que a vida, quando narrada, passa a ter mais sentido. Sem a narração ou a narrativa, mostra Jorge Furtado, é só um festival de fragmentos. Partindo dessa frase final, chegamos ao filme. Furtado mostra o cinema como organizador da aventura humana, determinada pela convivência entre ações premetidas e casuais. Sem buscar um sentido para a existência no "divino", mas não deixando de se referir a ele em diálogos ou nas opções de enquadramento, o diretor encontra esse sentido na expressão do homem. Só seu olhar para o mundo no qual vive é capaz de ver nesse mundo algo plausível. E tal olhar, como sabemos, é instransferível. Cada um tem o seu e, por extensão, os sentidos são muitos. Só é preciso construi-los.

Esse poderia ser o tema de Furtado, mas é também e principalmente a forma. Embora espicace seu relato com uma fragmentação aparentemente pós-moderna, na qual convivem registros variados e tempos dramáticos distintos, sem evidencia de fronteiras entre eles, o cineasta dispõe os estilhaços de modo a criar um conjunto com unidade multifacetada. A verdade dos fatos não está nos fatos, mas nos pontos de vistas de quem os enxerga. Esses são óticas complementares, mas não excludentes. No entanto, há uma verdade, sim, a do autor. E essa é composta da soma das verdades dos personagens.

A verdade. Dois autores citados nos diálogos tiveram um embate com essa questão mais filosófica que factual nos temas e nas formas de suas principais obras: Shakespeare e Cervantes. O primeiro é creditado por ter elaborado as maiores verdades sobre o resultado do banho de cultura e civilização recebido pela natureza humana no período compreendido pelo calendário cristão. Em suas peças, os homens, por motivos variados, desnudam-se. São aquilo que fazem, mas também as motivações, em geral condenáveis pelo senso comum. Na maioria das vezes, são destrutivos e destruídos. De qualquer forma, moldam o destino. Cervantes é outra história. Em Don Quixote, desconstrói as narrativas heróicas. Não há verdade. Tudo é invenção, construção, imaginação. A única ótica possível são todas. Pois as mesmas imagens, como a do santo carregado pelo narrador, têm mais de uma significação.

A ótica principal do filme é verbal: a narração em off de Lázaro Ramos. Sua voz quase onipresente, que para muitos redunda com as imagens, é a verbalização de um fluxo mental. Mas o filme não adota, visualmente, o ponto de vista subjetivo. A maioria dos planos é sobre a visão de Lázaro, não a visão de Lázaro, daí a repetição da descrição verbal-visual. Seria uma forma de colocar em convivência e tensão uma imagem objetiva e um olhar subjetivo. O olhar de Furtado, portanto, é o mesmo de Deus. Nesse papel, ele observa. Assiste ao teatro dos homens, com seus acidentes e imprevistos, sem julgar suas atitudes no palco. Escravos de circunstâncias sobre as quais não têm domínio, mas diante das quais podem tomar uma atitude transformadora, os personagens transgridem limites éticos para reagir às suas condições. Fazem isso porque, à maneira de algumas criações dostoievskianas, agem com moral própria, não com a determinada pela sociedade na qual estão inseridos.

E como se dá essa inserção social? Na verdade, ela é relativa. Embora os quatro personagens tenham emprego e ganhem dinheiro suficiente para sobreviver dentro da lei, eles não fazem parte dos alvos das campanhas publicitárias responsáveis pelos sonhos consumistas. Sem poderem comprar os produtos que os legitime socialmente, não apenas o básico, o quarteto não se sente parte daquele universo gerido e alimentado pela mídia de imagens. Para isso, precisam de dinheiro. Ou seja: manipular um símbolo, pois não passa disso, para adquirir outros. Esse signo mediará suas relações afetivas, seja pela duplicação, seja pelo roubo. Num mundo onde tudo é imagem e onde as imagens são muitas, o protagonista só tem acesso a pedaços delas como operador de fotocopiadora. Sua atividade remunerada leva-o a criar um mundo de signos mancos e às vezes sem significação. Ele tem de inventar seu cosmos por não dominar os códigos exteriores à sua interioridade.

Nessa convivência entre signos, muitos são simulacros. Tudo no filme, aliás, é simulação. Os personagens mentem, omitem, enfeitam e distorcem. A grana é falsa. Muitas imagens, como a do céu no teto do elevador de um hotel chique, são fakes. Nesse sentido, o fato do elenco não ter gaúchos nos papéis centrais, é sintomático. Assume-se a representação e o postiço como forma de se chegar ao "autêntico" sem precisar firmar um pacto com o estatuto do realismo. O sotaque pouco à vontade do baiano Lázaro Ramos e da carioca Leandra Leal são coerentes com a proposta do filme. Em um registro onde se simula, a simulação maior é a da obra.

Furtado pisa no acelerador para narrar os retalhos de sua narrativa, como se quisesse pôr tudo dentro de um clímax permanente. Estaria repetindo a velocidade alienante e estroboscópica de boa parte do cinema-espetáculo de Hollywood e do cinema independente de muitos lugares? Longe disso. Porque nesse cinema o evento são as pequenas coisas, não os grandes acontecimentos, embora estes também tenham espaço na tela, como em uma cena de assalto e outra de perseguição à pé pelas ruas. Mas a dinâmica de Furtado está de acordo com seu princípio. Num quadro onde o imprevisto é determinante, ele mostra a vida como se o mais banal fosse importantíssimo, capaz de alterar todo um percurso. Pertinente. Centrado em personagens de classe média baixa, sempre à espera do grande acontecimento de suas vidas, essa pressa tem muita da pressa deles para ascender, no caso não só material como afetivamente, as duas formas de criarem uma identidade em uma rede de aparências vazias. E o que faz o filme, no fim dos fragmentos, é preencher os vazios. E juntar os retalhos. "A vida é um quebra-cabeça", como diz Leandra Leal, inspirada no final de Carta ao Pai, de Kafka, mas contando-a fica mais fácil.

Cléber Eduardo