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Psicose, de Gus Van Sant

Psycho,
EUA, 1998
Muita bobagem foi dita a respeito de Psicose.
A decisão de Gus Van Sant de refilmar um "classico oficial"
(e poucos filmes parecem carregar esta distinção como esse
de Hitchcock) e de fazê-lo plano a plano parece ter atingido em
cheio os nervos de muitos cinéfilos. As reações de
ultraje diante da proposta de Van Sant acabam por revelar parte do que
o projeto de Psicose tem de interessante: dessacralizar o filme
de Hitchcock (e o conceito de "clássico"). O "ultrajante"
filme de Van Sant e todo o debate em torno dele acabou por contribuir
muito para tirar o pó do Psicose original e trazê-lo
mais próximo a nós. E nada podia ser melhor para um filme
com este estatuto, se bem que – a julgar por muitas reações
ao projeto de Van Sant – muita gente prefere ele num pedestal bem distante
de nós.
Outra constante nas reações
ao Psicose de Van Sant foram os comentários de que o diretor
teria feito o filme buscando ganhar dinheiro fácil, o que diz mais
sobre como na mentalidade da maior parte das pessoas que escrevem sobre
cinema está embutida a idéia de comércio. Porque
descartar o projeto de refilmagem de Psicose como uma mera forma
de roubar dinheiro do público é uma saída fácil
para não lidar com as questões estéticas que o filme
levanta, e o projeto de Van Sant, bom ou mal, é um experimento
interessantíssimo.
Um bom exemplo tanto de como este novo Psicose
é um projeto bastante arriscado quanto de como o debate sobre o
absurdo do filme ser refilmado plano a plano pode ser visto no excelente
trabalho com cor do filme (algo que passou em branco no meio da gritaria).
Há algo estranho com as opções de cores da maior
parte dos objetos do filme, algo que incomoda constantemente nosso olhar.
O vídeo curiosamente ajuda a responder onde estava o incômodo:
basta deixar a imagem do televisor em preto & branco, e pronto – ficamos
com uma experiência normal. O que Van Sant fez, auxiliado pelo diretor
de fotografia Christopher Doyle e o diretor de arte Carlos Barbosa, foi
fotografar em cores cenários, objetos e figurinos cujas cores foram
pensadas para serem fotografadas em p&b. (Uma outra bem mais simples
sobre a falta de proporção nas reações para
com o filme, por que, dentro de toda a histeria a respeito de Vince Vaughn
e Anne Heche, ninguém mencionou que Julianne Moore e Viggo Mortensen
eram atores bem melhores do que Vera Miles e John Gavin?).
Tudo isto dito, o que o experimento de Van
Sant revela? Para onde este jogo de se apropriar de imagens antigas nos
leva? É aqui que Psicose (assim como Gerry, filme
com o qual ele tem muito de comum, mas usando modelos bem diferentes dos
de Hitchcock) revela suas fraquezas. Porque se a experiência de
Van Sant levanta vários pontos de interesse em teoria, ela também
acaba chegando na prática a uma imagem vazia (sensação
esta amplificada em Gerry). Porque nas imagens que Van Sant produz
com tanto respeito e cuidado acaba por se refletir um enorme nada, uma
sensação de que não há o que ser produzido.
Psicose (e Gerry) acabam por se revelar experiências
tão fascinantes quanto frustantes.
Filipe Furtado
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