O pêndulo do consumo e da exclusão


O dinheiro como lógica oculta que move o enredo: O Homem Que Copiava

Atire a primeira pedra aquele que nunca quis queimar dinheiro. Atire a segunda quem nunca sonhou em ganhar na loteria. Esses ímpetos e devaneios certamente refletem algum mal-estar frente ao sistema que nos circunda. Não é diferente para os personagens do segundo longa de Jorge Furtado.

O Homem que Copiava é sobretudo um filme híbrido. Seu diretor não hesita em aglutinar diversos gêneros cinematográficos como comédia, romance, aventura, quadrinhos e desenho animado. Junto a essas colagens (e cópias de cópias) temos um filme cujo enredo e escolhas estéticas transitam entre uma estrutura moderna e uma narrativa clássica.

Desde a primeira seqüência Furtado escancara seu tema: o antagonismo entre a exclusão e a vontade de consumo. Todos os personagens de O Homem que Copiava oscilam entre esses opostos. Cardoso, Marinês, Sílvia e André são trabalhadores que ganham um pouco mais de dois salários mínimos - o necessário para pagar as contas, insuficiente para seus desejos consumistas.

O dinheiro, elemento central do enredo, propulsiona a interação de todos os personagens – dramaticamente, são a vontade e a própria dificuldade do enriquecimento que os entrelaçam. Há algumas sutilezas nessa classificação. O par adulto Marinês-Cardoso se apresenta mais afoito para o consumo enquanto o par adolescente Sílvia-André almeja o dinheiro como uma forma de libertação do mundo que os circunda e desdenha. É na psicologia desses personagens adolescentes que se percebe o tom, poético e ensimesmado, de O Homem que Copiava. Tanto André quanto Sílvia, junto ao singelo anseio de liberdade, buscam um modo, social e simbólico, de adequação.

Pouco a pouco o dinheiro evidencia-se como empecilho e, paradoxalmente, única maneira de ascensão social. Tal contradição é bem expressa nos dois acontecimentos centrais do filme. De um lado, a violência. De outro, a sorte. Entre ambos passeia a cópia da ideologia vigente: o incessante acúmulo e dispêndio de capital. O pêndulo consumo-exclusão torna-se claro; e violência e sorte mostram-se como facetas de ruptura e reiteração do sistema.

A exclusão também é o tema principal do documentário Ilha das Flores, filme que revelou Furtado. Neste curta-metragem há uma crítica incisiva e uma denúncia indignada ao sistema que incita seres humanos a se alimentarem dos dejetos rejeitados pelos porcos. Quase quinze anos depois surge outro viés. É o tratamento temático e formal do consumo que distingue O Homem que Copiava do célebre documentário da Casa de Cinema de Porto Alegre. O último longa da ‘Casa’ possui críticas, mas, em seu conjunto não se apresenta como um filme crítico.

Após os dois fatos principais do filme ocorre uma abrupta inflexão narrativa. A partir deles Furtado desfila um punhado de clichês. Até mesmo o ritmo da narração se acelera e todos os fatos ganham uma impressionante autonomia. Se na primeira parte do filme temos uma desconstrução do sistema econômico e ideológico, na segunda percebe-se uma autonomização desse mesmo mecanismo. Essa mudança surge como uma decorrência direta da obtenção do dinheiro. É o próprio sonho; todos consomem o que bem desejam e um mundo idílico e idealizado torna-se – para os personagens e para o espectador – explícito, próximo ou factível. Junto a diversos acontecimentos temos perseguições, tramas, compras, muitas compras, e um desfecho ironicamente clássico.

A engenhosa intenção de Furtado soa ambígua. O afã de se comunicar com o público é evidente. Mais do que isso, O Homem que Copiava ambiciona agradar ao público. Os clichês, portanto, funcionam como um código básico de interação e atenuam o clima crítico presente na primeira parte do filme.

A total adesão aos clichês também remete à reprodução – afinal, não são os clichês a expressão mais sincera e ingênua dos mecanismos ideológicos? Não há dúvida, Furtado recorta, cola e copia no seu filme a ideologia que os demais filmes de blockbuster, consciente ou inconscientemente, reproduzem. Ele copia e reproduz a própria lógica da reprodução. A cópia e a obtenção de dinheiro levam à cópia e à obtenção de tudo aquilo que o dinheiro promete.

Historicamente, o mundo do consumo obteve o seu primeiro tratamento estético com o movimento da Pop Art. Andy Warhol, seu maior expoente, simplesmente deslocava uma lata da Campbell´s Soup da publicidade para o meio artístico. As famosas fotos de Marilyn Monroe, citadas explicitamente no filme, escancaravam os mecanismos de reprodutibilidade técnica da obra de arte (teorizada por Walter Benjamim cerca de trinta anos antes).

Pois bem. Tratemos de cinema, televisão e publicidade e veremos constantes utilizações dos clichês para simplesmente agradar, seduzir ou se comunicar com o público. Raros serão os casos em que o enredo tende a desconstruir os próprios clichês que os sustentam. O Homem que Copiava é um deles. Nesse viés, a reprodução dos clichês alcança uma sarcástica metalinguagem.

Um filme complexo e superficial. Seu hibridismo não é decorrência das inúmeras colagens nem do fragmentado mundo do seu protagonista, que combina xerox, quadrinhos e binóculo. Mas resulta da mescla de uma narrativa clássica com diluídos resquícios de uma estética pop. A história é contada a partir de inúmeras convenções narrativas. Simultaneamente, o enredo remete à incessantes desconstruções ideológicas. Por último, tudo se automatiza. Como se o elo entre infra-estrtutura e super-estrutura, realidade e sonho, ou economia e fetichismo, fosse simplesmente copiado e reproduzido. Não há crítica nem culpados; pois o dinheiro é a lógica oculta e legítima que move todo o enredo. É desse modo que Furtado reveste seu filme de uma máscara pop: ele almeja divertir e jogar com o público – eis o cerne do seu hibridismo.

A colagem de diversos gêneros remete a Robert Rauschenberg e à angústia de Horácio Oliveira, personagem do melhor Cortázar, afoito em encontrar sentido no caos contemporâneo (embora André possua principalmente uma ânsia de adaptação). Assim como os grafites de Keith Haring ou de Jean-Michel Basquiat, que oscilavam tranquilamente entre as ruas e os museus, esse filme tende a agradar público e crítica. Distinção essa, aliás, que não cabe aos fenômenos pop. É muita presunção supor que o público, esse conceito amorfo e anódino, seja destituído de crítica. Maior arrogância ainda dos críticos que insistem em se distinguir da massa ou de qualquer fenômeno da indústria cultural. Enquanto elucubramos, Jorge Furtado e a Casa de Cinema de Porto Alegre nos convidam a refletir, rir e se divertir frente ao impávido (neo-) liberalismo que nos entranha.

Pablo Gonçalo