O Mágico e o Delegado,
de Fernando Coni Campos


Brasil, 1983

Além de alguns curtas, o festival Cinesul 2003 exibiu apenas três longas de Fernando Coni Campos. A iniciativa não é suficiente para lançar um olhar abrangente sobre a obra do cineasta baiano, sendo mais uma vontade de resgate e uma devida homenagem, além de uma oportunidade de mostrar para o público a existência desse diretor que parece não ter sido muito considerado nos últimos anos de nossa história cinematográfica.

A intenção dos organizadores do festival era exibir O Mágico e o Delegado na sala de cinema do Centro Cultural dos Correios em uma sessão perfeita, onde seria mostrada uma cópia nova do filme. Infelizmente a cópia, cheia de defeitos, estava muito inferior a sua versão antiga, legendada em espanhol e a exibição deixou bastante a desejar. Mesmo com esses problemas a importância da obra não ficou comprometida. O Mágico e o Delegado é um ótimo exemplar de um filme de Coni Campos e programá-lo junto a Ladrões de Cinema e Viagem ao fim do mundo possibilita um trabalho de comparação bastante revelador.

O filme de 1983, aparentemente despretensioso, tem na leveza temática o elemento que dá a chance de Coni mostrar todo o seu talento como roteirista. Por trás da história ingênua, por vezes fantástica, ele arranja os acontecimentos de forma a exprimir com exatidão a sua crítica contra a falta de criatividade e o conformismo tacanho da realidade. A briga da autoridade ranzinza, truculenta e arbitrária contra a alegria desafiadora e anárquica do Mágico é vivida por personagens fabulosos que não representam com exatidão nenhuma instituição ou tipo humano. Todos os papéis são de figuras facilmente identificáveis mas que não permitem generalizações. Na pequena cidade onde o Mágico se encontra há a caricatura do delegado, a virgem, a carola, o bordel com suas prostitutas e a cafetina e muitos outros. Coni não ataca diretamente nenhuma conduta, não julga, não agride nenhum poder estabelecido. O que ele faz é usar esse universo diverso para contar sua história com uma boa dose de humor e assim conseguir passar sua mensagem para o maior público possível. O Mágico e o Delegado é por isso bastante acessível. O conflito principal, motivo do nome do filme, já é por si só capaz de prender a atenção. Mas ele é também o pretexto para Coni criar uma rede de outros pequenos conflitos pessoais dos diversos habitantes do lugarejo que se arma quando a chegada do Mágico é acompanhada por uma série de acontecimentos que mudarão a vida da cidadezinha, abalando de forma radical o comportamento das pessoas.

Fica então muito fácil ver aqui um certo medo, uma atitude esquiva, como se o diretor estivesse fugindo dos verdadeiros problema que sua obra se propõe a tratar. Mas é bom não aceitar isso como verdade tão facilmente. O Mágico e o Delegado é o último longa metragem da carreira de Fernando Coni Campos. Carreira essa marcada por tomada de posição aberta contra práticas que ele julgava danosas para o cinema brasileiro. É clara a sua vontade de fazer um cinema que não vestisse a camisa de força estética da televisão ou que não se curvasse aos ditames temáticos da Embrafilme. Se O Mágico e o Delegado não chega a ser radicalmente intelectual como Viagem ao fim do mundo ou marginal incômodo como Ladrões de Cinema ele também não é simplesmente um filme conformado. O apelo popular está presente nos três filmes, em graus e maneiras diferentes.

A coragem de Fernando Coni Campos aparece não só quando ele mostra Tânia Alves nua em planos nada moralistas e ao mesmo tempo nada vulgares. Suas provocações estão no próprio filme, em suas imperfeições. Aliás, elas são muitas. Se o roteiro de Coni dá conta perfeitamente da apresentação e do desenrolar das transformações, a concretização de suas idéias em película não acontece da mesma maneira. Não é apenas um problema de produção de arte ou de construção de uma época um pouco indefinida. Parece mais uma falta de desenvoltura na hora filmar. Como resultado O Mágico e o Delegado está repleto de cenas exageradas, deslocadas, que Coni não transpõe corretamente do roteiro. Mas nada que provoque rejeição. São imperfeições iguais a tantas outras que fizeram a história do cinema brasileiro.

As preocupações de Coni Campos são outras. Ele está comprometido com as possibilidades comunicativas de sua arte e sabe que ela tem que chegar aos espectadores para cumprir essa função. O Mágico e o Delegado não se fecha em divagações estéreis, em formalismos. Seus erros não impedem que sua mensagem sutil seja entendida. E sendo um filme com muita coisa para dizer isso é um sinal de que obteve êxito. Está faltando filme assim na praça.

João Mors Cabral