Ladrões de Cinema,
de Fernando Coni Campos


Brasil, 1977

Um Filme 100% Brasileiro

Se pensarmos cinema brasileiro não somente como um cinema feito no Brasil, mas também carregando qualidades e aspectos inerentes a seu povo e sua cultura, incorporando, para o bem ou para o mal, um estilo próximo daquilo que se convencionou chamar de "jeitinho brasileiro", então Ladrões de Cinema pode ser considerado um de seus mais representativos espécimes. E aqui, diga-se de passagem, entenda-se este "jeitinho brasileiro" não no sentido pejorativo, que poderia abraçar preconceituosos conceitos como preguiça, desleixo ou desonestidade, mas sim o ato de conseguir, usando de improviso, criatividade ou inteligência, vencer as adversidades e limitações que nos são impostas. Mais que isso: além de incorporar todas estas características, Ladrões de Cinema faz, a sua maneira e de forma cômica, um curioso e expressivo retrato do que seria fazer cinema no Brasil na época de sua realização; trata-se do nosso Noite Americana ou do nosso Assim Estava Escrito.

Na história dos pobres moradores de uma favela carioca que roubam um equipamento de filmagem de um grupo de gringos e resolvem, eles mesmos, fazer um filme, temos uma metáfora mais que óbvia do cinema como atividade marginal. Coni Campos, no entanto, vai muito mais além, pois seus cineastas improvisados não optam por macaquear caminhos já traçados e que lhe seriam familiares, mas distantes de sua vivência real, como as fitas americanas ou as novelas globais (então no auge da popularidade) para contar a história da Inconfidência mineira e Tiradentes. Vão, sim, buscar inspiração em sua realidade cotidiana, e no samba, pois, mais que o Tiradentes histórico, o personagem de seu filme é aquele do samba-enredo composto por Mano Décio e Silas de Oliveira para o Império Serrano. Fazem, então, do ato de filmar uma espécie de carnaval; não tanto o carnaval espetaculoso do desfile das grandes escolas de samba, mas o carnaval espontâneo dos blocos de sujo.

Assim, tanto Coni Campos como seus personagens vão driblando a falta de recursos e a precariedade técnica, tirando leite de pedra, aproveitando-se da riqueza dos cenários reais, com poucos e econômicos planos, sendo a sequência da dança do minueto na quadra da escola o melhor exemplo deste estilo. E, além do já decantado retrato do jeito brasileiro de filmar, temos também em Ladrões de Cinema uma das melhores representações do que poderia ser considerado uma forma brasileira de atuar. Com um elenco de sonho, que inclui figuras seminais do cinema nacional como Wilson Grey, Milton Gonçalves, Grande Otelo, Antônio Pitanga, Rodolfo Arena, Procópio Mariano e José Marinho, esta atuação à brasileira pode ser apreciada em especial durante a primeira meia-hora, quando, em diálogos improvisados sempre ao redor de uma mesa de botequim repleta de cervejas, os personagens discutem sobre como realizar seu filme. E, em meio às feras, brilha a estrela de Lutero Luís, não menos que genial como o traíra Silvério.

Pouco tempo antes de sua morte, Coni Campos já se definia como um ex-cineasta, descontente com os rumos aos quais o cinema nacional foi levado pela política da Embrafilme e pela hegemonia de uma certa "panelinha" que permanece até hoje cagando regras para a realização e distribuição de filmes. Sua ausência faz-se expressiva como mais uma voz alternativa no momento atual, quando uma forte corrente no cinema brasileiro busca o êxito nas bilheterias fazendo justamente o oposto de Coni e seus personegens, ou seja, calcando seu trabalho em modelos pré-estabelecidos, assim como numa competência artesanal e no aproveitamento de recursos técnicos direcionados ao público classe média dos multiplexes, o que acaba por resultar em filmes incolores, inodoros, insípidos e, principalmente, sem cara de Brasil. Mais que isso: acima de tudo envergonhados de sua realidade, sua tradição e seu passado.

Gilberto Silva Jr.