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Gênio Indomável
/ Encontrando Forrester, de Gus Van Sant

Good Will Hunting, EUA, 1997
Meeting Forrester, EUA, 2000
Um espaço de dois anos separa Gênio
Indomável de seu irmão caçula, Encontrando
Forrester. Partindo de uma mesma idéia, mas com abordagens
diferentes, as duas obras se igualam, ao mesmo tempo em que definem distâncias
e revelam contrastes. É o que se poderia chamar filme de complemento,
talvez. Certo, porém, é o desgosto produzido pelos dois
a um grupo pertencente à crítica fria, cética e pseudo-esnobe
(o esnobismo demanda às vezes uma fineza difícil de ser
alcançada).
Quando, graças à sua atuação
em Gênio Indomável, Robin Williams foi servido com
o Oscar pelas dondocas da academia, o comentarista oficial da transmissão
brasileira da cerimônia exclamou algo como: "eu não
acredito que esse canastrão ganhou!". Esse foi apenas um entre
os diversos ecos maldosos ouvidos não só sobre o ator, como
sobre a obra em questão; ouviu-se dos franceses, por exemplo, que
se tratava de um filme apelativo e a dois passos do didático,
como se ele tivesse saído diretamente do simplismo de um livro
de auto-ajuda. Foi certamente o que se disse anos atrás sobre muitos
filmes de Douglas Sirk.
Fica o desentendimento, mas acima de tudo
uma questão extremamente subjetiva: até onde se pode ir?
Qual o limite que separa a linha tênue entre o ridículo e
o sincero, entre a demagogia e a entrega? Talvez a resposta certa seja
autenticidade, mas nesse caso escancara-se de vez a delicadeza
subjetiva da questão, já que honestidade artística
é algo impossível de medir: o que é sincero para
mim pode parecer evidentemente falso para outro...
O que diferencia, porém, Gênio
Indomável de qualquer filme sentimentalóide é
sua inegável densidade. Por trás da narrativa leve e sedutora,
por trás do humor, da maravilhosa capacidade de prender a atenção
do público, há um vasto universo mental e filosófico,
dissimulado num remedo humilde e sincero. Gus Van Sant é a prova
viva de como um diretor pode mudar a cara de um filme, de como a mão
de um autor decide o destino de uma obra. Gênio Indomável
é a cara de Van Sant: profundo, inventivo, generoso, libertário
e anticonformista. O filme acabou confirmando o que se tinha vislumbrado
em To Die For/Um Sonho Sem Limites, ou seja, a sensação
de que o diretor tinha conseguido trazer o cinema (verdadeiramente) independente
para os grandes estúdios, juntando a eficácia do know-how
industrial à uma rica experiência individual.
O filme parece moldado para Robin Williams,
o "canastrão"; há, de fato, um paralelo tocante
entre o ator e a obra: os dois estão no limite, sem medo de cair
no ridículo e no meloso. Antes de Gênio Indomável,
Williams até então sempre tinha se saído com grande
dignidade nos projetos mais insípidos, escapando da demagogia por
uma incrível ambigüidade que o torna surpreendente e complexo
- ele é um ator no qual não distinguimos a tristeza
da alegria, o riso das lagrimas; é difícil saber quando
está chorando e quando está rindo. Williams é ao
mesmo tempo populista e moderno, um pouco como o próprio filme
de Van Sant, e também um intérprete com a emoção
à flor da pele, mas nunca artificial.
Assim, Williams e Van Sant transitam entre
os dois pólos, o do cinemão lacrimal e o da análise
psicológica, expandindo o contato com o espectador sem, porém,
subestimá-lo. A tarefa exige sensibilidade: os dois têm de
sobra. A cena mais bonita do filme é quando Will (Matt Damon),
o gênio, tem a primeira consulta com o psiquiatra interpretado por
Williams; ele observa uma gravura pintada pelo médico e tenta provocá-lo,
buscando associações entre o desenho e o estado espiritual
do psiquiatra. A câmera mostra, no ponto de vista subjetivo, a imagem
da gravura, um barco errando triste e solitário pelos mares; a
música de Danny Elfmann surge com seus acordes suaves e enigmáticos,
uma melodia tão cerebral que parece querer penetrar na mente humana.
No plano seguinte, o objetivo, Will observa, concentrado, se lançando
em mais um jogo frio de provocação, enquanto, mais atrás,
quase escondido no plano, meio desfocado, o psiquiatra caminha de um lado
para o outro, prevendo que o paciente vai descobrir, vai chegar lá.
"É uma mulher, não é?" Williams agarra
o gênio pelo pescoço e o põe no seu lugar. A música
de Elfmann continua, como que nos levando pelos mares infinitos e confusos
da solidão do psiquiatra, que logo aparece em sua casa, olhar meditativo,
entre pratos espalhados pela pia e uma meia-escuridão de entristecer
fantasmas. Desde o começo do filme, quando ouvimos pela primeira
vez a música envolvente de Elfmann, fica claro que é essa
a viagem que Van Sant nos propõe, uma viagem pelos caminhos tortuosos,
complexos e contraditórios da mente dos seus dois personagens principais.
Nesses pequenos espaços solitários
e sombrios acontecem os momentos fundamentais do filme: a casa desarrumada
de Williams, o barraco de Will, o consultório modesto... Espaços
épicos, habitat naturais que mostram personagens em busca de sombra,
isolamento, reflexão silenciosa. O trocadilho do título
original é a ironia do grande sonho arrivista americano: good
will hunt, ou seja, o bom Will deve caçar, buscar a vitória,
os grandes espaços gloriosos onde desfilam os reis da matemática,
trocar o seu bilhete premiado. Uma sociedade onde a ambição
é supervalorizada e que não entende os traumas mais íntimos,
as seguranças mais legítimas, o choro guardado que explode
com grande dignidade; "eles que se fodam" diz o psiquiatra,
abraçando o paciente engasgado. Não é a glória
que se deve procurar, diz Van Sant: é a felicidade pura.
Gênio Indomável lembra
os primeiros e melhores filmes de Hal Hartley, em que o tema da dificuldade
de adaptação da individualidade numa sociedade pré-programada
se mistura com o drama de tomar decisões (no final, Will precisa
decidir entre uma proposta de emprego e uma garota; escolhe a garota).
Não é por menos que Van Sant, em toda sua carreira, sempre
filmou a juventude e os excluídos - dois grupos que se encaixam
melhor do que qualquer outro na temática. Encontrando Forrester,
lançado, como já foi dito, logo após Gênio
Indomável, retoma a fábula romântica do gênio
perdido, da pérola escondida na vastidão urbana. A história
do garoto negro e literato repete com a mesma sensibilidade, a mesma coragem
de chegar no limite da demagogia a do gênio suburbano, e até
mesmo os cenários sombrios e os personagens isolados (um Sean Connery
excepcional) estão de volta. O que diferencia, no entanto, Forester
do antecessor Will, é que aqui a mensagem parece exaltar
a ambição, a escalada social (talvez por causa da questão
racial). Não é mais a questão de ter que buscar ou
não glória, e sim alcançá-la com dignidade
e estilo, sem esquecer dos valores humanos fundamentais. Entre os dois
filmes, mil vezes a atitude blasé do primeiro.
Bolívar Torres
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