Até as Vaqueiras Ficam Tristes,
de Gus Van Sant


Even Cowgirls Get The Blues, EUA, 1993

Adaptação do cultuado romance de Tom Robbins, Até as Vaqueiras Ficam Tristes é um filme geralmente mal recebido, mesmo por espectadores interessados na obra de Gus Van Sant. Após subir três degraus importantes, com seus filmes anteriores (Mala Noche, Drugstore Cowboy e My Own Private Idaho, todos com ótima repercussão), Van Sant realiza Até as Vaqueiras... em 1993 e experimenta seu primeiro desastre comercial. Mas, para sua sorte (ou de seu bolso, mais especificamente), enquanto o filme era apresentado em festivais e invariavelmente recebia desaprovações, um contrato já estava assinado, fruto do êxito dos primeiros filmes, e seu posterior trabalho, Um Sonho Sem Limites, seria financiado pela indústria e contaria com Nicole Kidman no papel principal. Coube a Até as Vaqueiras... o destino ingrato: poça situada entre a fase independente (e ascendente) de cineasta pós-beatnik e a "admissão" em Hollywood, passagem indefinida – limbo.

O filme, entretanto, está longe de ser a bomba que a avaliação de sua carreira comercial – e mesmo crítica – pode sugerir. Há muita coisa interessante em Até as Vaqueiras..., a começar por sua protagonista, Sissy Hankshaw (Uma Thurman), uma menina que nasceu com inusitada anomalia: seus polegares são hipertrofiados. O que há de vantajoso para ela nessa anatomia diferenciada? Segundo seu médico, que a conhece desde a infância, Sissy é uma evolução da espécie, porquanto apresenta desenvolvida aquela que é uma das essências do ser humano, a diferenciar-lhe dos chipanzés (polegar opositor e telencéfalo desenvolvido – quem viu Ilha das Flores, curta antológico de Jorge Furtado, sabe bem disso). Em termos objetivos, o que aparece para o espectador é Uma Thurman com dedos absolutamente enormes, desproporcionais, passando da infância em que preocupava sua mãe (receosa de que a filha jamais fosse encontrar um marido) à vida adulta on the road (e eis que uma palavra de ordem da beat-generation surge novamente na obra de Van Sant), pois pegar caronas e viver pulando de uma a outra cidade é a principal ocupação de Sissy. Afinal de contas, com um dedão daquele tamanho, é quase impossível não chamar a atenção dos carros – ou de um avião, como ocorre na divertida cena após os créditos iniciais do filme (que terminam com a dedicatória a River Phoenix, falecido protagonista de My Own Private Idaho).

A vantagem de Sissy é bastante clara: ela se torna a maior hitchhiker do mundo, seu dedo como metonímia de sua vocação (que talvez seja a vocação de todo jovem) para o trânsito constante, vida sem parada certa. O caminho supera as pousadas (Cervantes). Sissy vive uma juventude em estado bruto, sem se prender a nada, nem a ninguém. O filme acaba sendo um elogio da efemeridade: sua derradeira imagem consiste em cartas de amor pegando fogo, palavras de afeto e devoção virando cinzas. Nem o amor resiste a esse fluxo incessante. A primeira cena de Sissy adulta já revela no que sua vida se tornou após os dezoito anos: ela dormindo sozinha à beira de uma estrada rodeada de mato, a mesma estrada antes presente em Drugstore Cowboy e Idaho. É em Até as Vaqueiras..., por sinal, que Van Sant se aprofunda nos regionalismos e nas particularidades da paisagem que serve de pano de fundo para praticamente todos os seus filmes, ou seja, a região do Oregon, o que se confirma na segunda metade do filme, quando Sissy se hospeda num spa dominado por vaqueiras lésbicas.

As vaqueiras se rebelam de uma forma, como não poderia deixar de ser, inusitada. Drogando os grus americanos, aves típicas da região, e alterando um ciclo que eles faziam desde que se conheciam como pássaros, elas despertam a fúria da população e das autoridades locais. E isso não é o mais esquisito do filme: há ainda Noriyuki "Pat" Morita ressurgindo da penumbra da série Karate Kid, então estagnada após o terceiro (e desastroso) filme, para fazer um místico habitante das montanhas do Oregon, espécie de "japameríndio". Mas onde outros traçariam um painel do grotesco, Gus Van Sant age com sensibilidade e não permite que seus personagens enveredem pelo freak show. Uma das principais características do diretor, sem dúvida alguma.

O clima setentista – revival típico do início dos anos 90 de que Gus Van Sant havia sido precursor com Drugstore Cowboy – requerido pelo filme, uma vez que ambientado naquela década, não fica muito claro. Está certo que Van Sant, à diferença de Todd Haynes, por exemplo, não mergulha na composição visual do período em que se situa sua história para então extrair as formas expressivas de que necessita. Ele filma com um estilo menos atrelado ao tema de inspiração (o que não significa dizer que o ignore no momento de pensar o filme imageticamente), repetindo técnicas e até assumindo refrões visuais (aquelas nuvens em alta velocidade são o melhor exemplo). Em Até as Vaqueiras..., contudo, a coesão dos dois trabalhos anteriores parece se dissipar num humor muito pouco convincente, com poucas cenas que o justifiquem.

Como elo entre Idaho e Um Sonho Sem Limites, Até as Vaqueiras... oferece pistas para sua compreensão: a primeira protagonista feminina, o mais road movie dos filmes de Van Sant (como que para se despedir – ainda que não seja uma despedida de fato – da herança beatnik em alto estilo), o humor negro sendo afinado, o mercado de imagens (pensar nas formas diferentes como Sissy – que é modelo capa de revista – e a personagem de Nicole Kidman vendem suas imagens em seus respectivos filmes). No entanto, a despeito de poder ser visto como peça coerente na carreira de Van Sant, Até as Vaqueiras Ficam Tristes tem um ritmo truncado, corre riscos constantes de adormecer o espectador menos descansado (a primeira seqüência no spa é particularmente enfadonha). Por fim, em um só adjetivo, diríamos que é um filme interessante.

Luiz Carlos Oliveira Jr.