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Todd Haynes quer fazer as pessoas chorarem. Por isso fez Longe do Paraíso, que estréia hoje nos cinemas do Rio. O filme, que chega finalmente ao Brasil depois de uma carreira de avassaladora aclamação pela crítica, iniciada no Festival de Veneza de 2002, de onde saiu com quatro prêmios (entre eles uma menção honrosa para Haynes), e continuada por quatro indicações ao Globo de Ouro e quatro ao Oscar e o reconhecimento como melhor filme do ano passado por quase todos os círculos de críticos dos EUA, é um melodrama. Daqueles que de encher os olhos de lágrimas, bem no estilo dos dramalhões dos anos 50. Mais que isso, é abertamente inspirado no universo do alemão Douglas Sirk, que naquela década mergulhou profundamente no gênero em filmes como Tudo que o céu permite (1955) e Imitação da vida (1959), filme que, aliás, inspiraram o de Haynes. Longe do Paraíso conta a história de Cathy Whitacker, uma típica dona de casa de classe média da América sonhadora do pós-guerra vivida por Julianne Moore - escolhida melhor atriz em Veneza e indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar pelo papel, neste que é seu segundo trabalho com Haynes. O primeiro foi A salvo (1995). Cathy tem uma família perfeita, um lar perfeito, um casamento perfeito com Frank, um executivo de uma fábrica de TVs vivido por Dennis Quaid - indicado ao Globo de Ouro pelo papel. Tudo são flores e as cores otimistas inspiradas na paleta de Sirk até que a mulher descobre que o marido tem tendências homossexuais. Começa então a jornada do casal para tentar "curar" a anormalidade do marido. Ao mesmo tempo, entretanto, ela começa a se aproximar do gentil jardineiro Raymond, negro letrado e amante de arte que luta contra o preconceito da sociedade, vivido por Dennis Raysbert. A via-crúcis familiar, secreta para a sociedade, soma-se a uma onda de fofocas por causa da amizade de Cathy com Dennis, fazendo com que ela mergulhe em uma trilha de sofrimento existencial que leva à pergunta: há felicidade possível neste mundo? A história amarga parece proclamar que não, para sofrimento do espectador. Mas fazer chorar não é um prazer sádico do diretor californiano de 42 anos que ao longo dos anos 90 se tornou um dos mais importantes cineastas surgido no círculo independente americano. "A sensação que eu queria criar era o sentimento de que não importa o quanto as pessoas sejam boas e o quanto elas lutem para realizar seus desejos, o mundo vai tentar tornar isso impossível. O tipo de choro que eu queria causar é um choro por este mundo", explica o diretor, por telefone, de sua casa, em Portland, no Oregon. Para ele, o uso do melodrama era essencial. É mais uma das inteligentes maneiras de criticar a sociedade encontrada por Haynes, um cineasta recheado de referências, que mistura facilmente em seus filmes cultura pop, filosofia grega, autores como Jean Genet e Oscar Wilde, várias citações cinematográficas e, sobretudo, tipos que não se encaixam no padrão da normalidade. O desviante é sua obsessão. É assim desde o média-metragem Superstar (1988), que conta a história da cantora Karen Carpenter usando bonecas Barbie. Foi assim em seu primeiro longa-metragem, Veneno, com o qual ganhou o prêmio do Festival de Sundance em 1991, a Meca do cinema independente americano, em que contava três histórias de personagens estranhos, um menino que seria um anjo, um cientista que se transforma em um monstro ao ingerir o instinto sexual que ele isolou em laboratório, um presidiário que reencontra outro por quem fora apaixonado na juventude. Foi assim em A salvo, em que a personagem de Julianne Moore desenvolve uma estranha alergia e entra em um grupo para se isolar da sociedade. Foi assim em Velvet goldmine, em que o universo dos roqueiros glam é retratado com profundo desencanto. Homossexual assumido, Haynes sempre tem a temática gay em seus filmes, ainda que em alguns casos apenas simbolicamente. Mas sua obra nunca foi considerada restrita a guetos ou ao pseudogênero "cinema gay". Pelo contrário, freqüenta sempre os mais importantes festivais e é constantemente celebrado apenas por seu cinema, sem panfletarismos (que ele renega, mas que acaba de fato exercendo nos filmes). Na entrevista a seguir, Haynes, cujo novo projeto será uma biografia simbolista de Bob Dylan em que o músico será vivido por vários atores, entre eles um menino negro e uma mulher, fala de suas obsessões, de desviantes, de doença, de cultura gay, e de como chorar é bom. (Alexandre Werneck) Um detalhe que marca seus filmes é um forte diálogo com a história do cinema. Há muito de A mosca da cabeça branca na história de ficção/terror de Veneno, por exemplo. Já o roteiro de Velvet Goldmine usa a estrutura de Cidadão Kane. Já Longe do Paraíso é abertamente inspirado nos melodramas de Douglas Sirk. Por que usar Sirk? É verdade que uso muitas referências. Meus filmes são interpretações sobre a produção cultural e sobre idéias. Não acho que eu possa inventar uma nova linguagem para fazer filmes. O que faço é interpretar linguagens. É importante olhar para essas linguagens porque elas carregam muito das idéias que lhes deram origem e muito das culturas que as cercam. Por isso uso referências. Usei Sirk porque eu realmente queria ir mais fundo no melodrama do que já se foi no passado. Sirk foi o mais forte no uso da cartilha do melodrama nos Estados Unidos. Queria fazer um filme de gênero para fazer a ponte com questões que o público atual poderia enxergar e com as quais pudesse se ligar emocionalmente. E este foi o maior dos desafios. Filmes de gênero podem ser rejeitados ou considerados menores por quem considera que o cinema é sobre a realidade e quer tudo de forma naturalista. Mas as pessoas se esquecem de que o melodrama é a mais autentica das histórias, porque é sobre a vida doméstica, sobre o que acontece dentro das casas, com famílias. Diferente de quase todos os gêneros de cinema popular, que escapam de questões reais, o melodrama é sobre questões cotidianas. Mas as pessoas se esquecem disso e vêem neles apenas excessos dramáticos e histórias teatralizadas. Você disse há algum tempo que com Longe do Paraíso queria fazer as pessoas chorarem... Acho que chorar é bom. Chorar é essencial. É claro que muitas vezes somos simplesmente manipulados para chorar diante de filmes e não aprendemos nada com eles. Mas acho que há bons motivos para chorar com um filme se você realmente pode aprender com esse choro. Mas o fato de você ter optado pelo melodrama não pode fazer o filme ser acusado de lacrimogêneo, de apelativo? Não se trata apenas de chorar, mas de como e por que as pessoas choram. A sensação que eu queria criar no final do filme era um sentimento de que não importa o quanto as pessoas sejam boas e o quanto elas lutem para realizar seus desejos, o mundo vai tentar tornar isso impossível. Eu queria causar um choro por este mundo. É interessante você dizer isso, porque seus filmes sempre estabelecem oposições entre mundos. Em Velvet goldmine São os anos 70 coloridos e libertários contra os 80 cinzentos e opressivos; em Veneno é a prisão escura da modernidade contra o reformatório florido de feições clássicas. Em Longe do Paraíso são, ao mesmo tempo, os anos 50 e a atualidade, contra uma utopia de mundo irrealizável. Visão pessimista, hein? Não me sinto bem com filmes que garantem bem-estar. Acho que é muito mais positivo e dá muito mais esperança mostrar as pessoas lutando para mudar a história do que pessoas sendo campeãs ou se tornando heróis e resolvendo todos os problemas de suas vidas. Acho que sou é otimista, porque acredito que filmes podem fazer você pensar sobre sua vida e transforma-la. Para fazer isso, você precisa mostrar os problemas. Quando você dá as soluções, você tira do público sua capacidade de mudar suas próprias vidas. Todos os seus filmes são centrados na figura do desviante e sempre mostrando esses personagens sendo tratados pela sociedade através dos olhos da saúde e da limpeza, como se eles fossem doenças. Por que essa obsessão? É verdade. Esses dois detalhes se repetem em todos os meus filmes. Acho que mais fortemente em Veneno e A salvo, que eram filmes sobre a AIDS, sobre como a sociedade lida com seus medos e opera para regular comportamentos usando o pânico em torno da epidemia. Tudo que se relaciona com o corpo é muito delicado. Estamos constantemente preocupados e com medo do corpo. A sociedade costuma impor a idéia de que o corpo é uma armadilha, que nele estão fechadas rupturas e sintomas. Mas não se trata apenas do corpo. Em Velvet goldmine, por exemplo, a sanidade mental também está em jogo. Em Longe do Paraíso, aliás, a homossexualidade é vista pela sociedade como uma doença moral, além de física... Sem dúvida. Esta é a maneira como a sociedade mantém seu controle: fazendo as pessoas responsáveis por seus próprios problemas. É fácil: chama-se a pessoa de doente, de maluco, de diferente, de desviante. Essa é a luta dos personagens de Longe do Paraíso e de meus outros filmes. Eles são um problema para a sociedade porque são considerados doentes e em nossa sociedade você não pode ser doente, não pode ter o corpo fora de controle, porque neste caso, algo deve estar errado com sua mente também. Em seus outros filmes o desviante está sempre em um lugar definido pela sociedade para ele. Era a prisão ou o campo científico em Veneno, uma clínica em A salvo, uma tribo roqueira em Velvet goldmine. Em Longe do Paraíso ele está no seio da própria sociedade normalizada, brota de dentro dela e se conserva dentro dela. Por que a mudança? Isso tem a ver com o elemento que você observou sobre a doença: o que me parece central no que eu dizia sobre o corpo é que o anormal está sempre dentro do corpo. Veneno é sobre isso o tempo todo. O corpo e o que sai dele causa horror: sêmen, fezes, catarro. Mas há também uma dimensão psicológica que considero central: não conseguimos dar conta do que está dentro de nós. É o que acontece com Cathy no filme: ela é a única incapaz de ser anormal, de ser desviante. É uma crítica ao clichê do sonho americano? Definitivamente sim. É como queríamos mostrar: a fragilidade daquela imagem de esposa e mãe a dona-de-casa americana dos anos 50 e como isso é destruído pela descoberta de Frank. E, em um nível mais profundo, o quão pouco ela recebe em termos de amor. Ela diz que é feliz e ela realmente parece feliz, mas ela nota que não recebe a atenção que mereceria. Ela descobre que precisa de mais. É a partir da descoberta dele que ela se vê obrigada a ir mais fundo em seus desejos e necessidades. É uma história cheia de contradições. Quando Veneno ganhou Sundance o New York Times disse que um filme gay tinha vencido o festival. Já Longe do Paraíso foi indicado ao Oscar, assim como Velvet goldmine e ninguém falou que eles eram filmes gays. Não é curiosa a maneira como seus filmes transitam entre esses clichês? Acho que isso apenas indica a fraqueza dessas classificações. Veneno fez parte daquele momento em que se iniciava o que foi classificado como new queer cinema, que por um lado queria identificar filmes com temática gay, mas por outro lado queria simplesmente identificar um novo mercado. Era um novo público para o qual apontar produtos. Era um público mais artístico etc. Por isso os filmes tinham tanta experimentação. E hoje há apenas filmes agradáveis para aquilo que as pessoas acham ser um público gay. Mas naquele momento ou depois você se considera a serviço de uma causa gay ou da comunidade gay ao tratar sempre dessa temática em seus filmes? Não, não me considero a serviço do movimento gay. De fato, Longe do Paraíso é um filme particularmente antagônico àqueles filmes de liberação. O filme é sobre a mulher e não sobre como Frank se descobre. É como aquilo não é positivo para ela. Por outro lado, não é para fazer dele um vilão. É para mostrar as lutas de cada uma e de todas aquelas pessoas. O filme mostra que todas elas lutam intensamente cada uma de sua maneira, e que elas podem comparar suas lutas, mas mesmo essas lutas não são iguais. O seu próximo projeto é o filme sobre Bob Dylan Podemos esperar um Dylan desviante? Um pouco. A doença não deve ter um papel tão preponderante, mas os outros elementos típicos no meu cinema sim. É algo muito específico sobre a relação entre um artista criativo e a sociedade que o cerca. É muito sobre a rejeição do sucesso e da popularidade. É motivado, no caso de Bob Dylan, pelas várias mudanças que ele sofreu ao longo de sua vida. Estou escrevendo, mas estou dando uma pausa agora. Karim Aïnouz começou no cinema com você, como estagiário em ‘Veneno’. Você assistiu ao filme que ele dirigiu, ‘Madame Satã’? Não vi ainda. Estou muito, muito ansioso para vê-lo. Já li tanta coisa positiva a respeito dele... Ele finalmente será exibido durante uma semana em Portland no fim deste mês e vou poder vê-lo. Já alguns pontos de contato entre o filme e o seu trabalho. Você diria que Karim aprendeu com você? Karim sem dúvida tem uma visão muito pessoal artisticamente. Ainda que nós dois sejamos inspirados por temas ou idéias similares, seus curtas-metragens, que eu pude ver, mostram como ele é inspirado e como é hábil para fazer algo belo. Seria alguém por quem eu ficaria muito orgulhoso se dissessem que foi inspirado em mim. Entrevista concedida por telefone a Alexandre Werneck em junho de 2003. |
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