|
50 + 1.
Pode ser uma boa idéia, mas também pede o sopro
de uma renovação, do início ou do reinício
de um ciclo. Então não é de se espantar
que esse mês a edição esteja sensivelmente
diferente daquelas publicadas nos meses anteriores: às
exaustivas pautas que dominavam inteiras as seções
de artigos (cinema brasileiro em 2002, cinema americano e
a construção de uma imagem, tributo a cineastas
contemporâneos), responde uma pauta mais fragmentária,
correspondendo a aspectos diversos do cotidiano crítico
entrevistas, publicação de documentos,
acompanhamento de mostras, textos sobre filmes mas,
acima de tudo, tentando responder mais rapidamente e com mais
agilidade aos acontecimentos do cinema.
Curiosamente,
um dos filmes mais interessantes surgidos no ano até
agora também fala sobre reinício. É O
Homem Que Copiava, de Jorge Furtado. Nada mais natural,
pois, do que nos aprofundarmos no filme para além da
tradicional crítica.
Da mesma
forma como pretendemos a partir de agora dar mais atenção
a certos filmes que povoam com mais firmeza os redatores da
revista, abrimos esse mês um espaço certamente
que já existe na revista (Johan van der Keuken, Carlos
Reygadas, Pablo Trapero), mas que esperamos tornar-se hábito:
a entrevista com realizadores estrangeiros. Mais uma maneira
de prolongar e fazer avançar a experiência dos
filmes que falam mais alto para nós, nessa edição
o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul (mas também
conhecido simplesmente por "Joe") fala sobre Eternamente
Sua / Blissfully Yours, um dos filmes mais estimulantes
vistos por Contracampo em 2002, no Festival do Rio. Chance
para mais uma vez voltarmos a falar de uma obra única,
experiência de cinema táctil sobre a passagem
do tempo e os prazeres dos sentidos.
Mas a
grande vedete da edição é uma homenagem:
Fernando Coni Campos (pronuncia-se "côni").
Retrospectado no Cinesul 2003, o "ex-cineasta" Coni
Campos (como ele mesmo se considerava em meados dos anos 80),
falecido em 1988, teve exibidos três de seus longas-metragens
e uma meia dúzia de curtas. Oportunidade para ganhar
contato com um conjunto importante e invisível de filmes
e pena mais ainda que certos filmes seus, entre os
quais Uma Nega Chamada Teresa, o primeiro Morte
em Três Tempos, o censurado e jamais exibido Um
Homem e Sua Jaula, não tenham sido exibidos
e conhecer um pouco melhor a obra de Coni Campos, um cineasta
que sempre viveu sob a égide de maldito, rodou filmes
decisivos como Viagem ao Fim do Mundo e Ladrões
de Cinema e, por índole própria que de certa
forma o impediu de participar das panelinhas de sempre de
nosso cinema, hoje permanece na memória nacional mais
como um vulto do que como um sólido realizador (coisa
que suas relações com a patota dominante jamais
o deixaram ser). Uma pena. Complementando a cobertura do Cinesul
2003, dois textos sobre o cinema argentino recente, alvo de
uma pequena mostra de quatro filmes que ofuscou sobremaneira
a competição oficial, sempre com muito poucas
surpresas. (Aliás, correu à boca pequena a piada
de que a verdadeira Competitiva do festival era entre a festa
de abertura e a de encerramento, já que o vencedor
de melhor filme não leva o prêmio. Em tempo:
ganhou a de abertura).
Por fim,
retorno a Cannes, com uma observação sobre os
filmes americanos exibidos pelo Festival (Gus Van Sant, Eastwood,
Vincent Gallo); e em dvd/vhs, sempre duas semanas após
a entrada da edição, uma revisão da obra
do vencedor da Palma de Ouro com Elephant, Gus Van
Sant. Boa leitura.
Ruy Gardnier
ça
fotos da edição: Fernando Duarte |