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O Cinema dos Dardenne e seus
detratores "repetitivos"

É engraçado
se notar alguns estigmas que a idéia de autoria trouxe para a análise
de cinema. Dois, completamente opostos, me fascinam em especial. Primeiro,
o do diretor "sem estilo". Este talvez me interesse porque tem sido muitas
vezes usado por pessoas que me procuram pessoalmente, tratando dos meus
dois primeiros curtas, que aliás compõem toda minha "obra" em cinema até
hoje. Sendo um deles um filme de cunho mais dramático e intimista, em
preto e branco, e o segundo, uma multicolorida comédia-musical, são inúmeras
as análises apressadas que ouço, do tipo "afinal, qual o verdadeiro Eduardo
Valente?", ou então, "ah, este sim tem a sua cara!" (já usado para os
dois filmes), ou ainda "prefiro tal filme, você vai fazer mais deste jeito,
né?". Como crítico, mais até que cineasta, isso tudo me parece muito interessante
porque, embora nem um pouco planejada, a contraposição destes dois primeiros
filmes acabou sendo muito rica para mim em termos criativos. Se sempre
soube que podia contar com uma recepção destas, por outro lado não paro
de me fascinar com o quanto os filmes parecem parecidos para mim, como
obedecem aos mesmos impulsos primeiros - e o fato de duas ou três pessoas
terem me procurado dizendo ter percebido exatamente isto me deixou extremamente
feliz. No entanto, continua me incomodando o pouco esforço que se faz
hoje em dia para perceber a obra pelo que ela seja, independente destas
noções mais rasteiras de "autoria" e "estilo". Ou mais: que a noção de
autoria esteja cada vez mais localizada em tudo de menos interessante
que os filmes nos propõem.
Um outro lado desta mesma moeda é o assunto do qual realmente quero tratar
aqui: se alguns são tratados como "sem estilo", pela mesma regra se fala
dos "repetitivos", "formulaicos". Tratei disso de forma específica há
algum tempo, quando da estréia do filme de Eduardo Coutinho, Babilônia
2000. O filme seguinte de Coutinho, Edifício Master, acabou tendo a mesma
recepção que eu antecipava no anterior: "trata-se de uma obra importante,
as pessoas entrevistadas são ótimas e engraçadas, mas o Coutinho é apenas
um repórter repetindo uma mesma fórmula". Todos, aliás, dizendo que o
filme é muito bom (afinal é de mau tom falar mal de Coutinho), mas sempre
com estas ressalvas quanto à "repetição" em Coutinho. Ora, mais uma vez
aparece (ainda que com resultado ao contrário) a mesma percepção rasa
do que venha a ser uma noção de estilo e de autoria - como se a colocação
da câmera definisse por si só uma obra.
Teríamos, então, diretores sem estilo e diretores repetitivos. Ora, isso
afinal não passa, mais uma vez, da boa e velha noção "middle brow" do
cinema, onde não se deve ir nem tanto ao céu nem tanto à terra. Ou seja,
é bom um diretor ter traços estilísticos reconhecíveis (para quem assiste
poder dizer que reconheceu ali o "autor"), mas que não sejam muito parecidos
(para quem assiste poder ver "evolução" na obra do autor). São por essas
e outras que alguns acham o Almodóvar atual ou "pouco almodovariano" ou
"muito melhor que o anterior" (sem reconhecer o que há de permanente,
e as figuras que de fato emprestam coerência ao seu olhar de mundo), ou
porque acham que A História Real é um filme "não-lynchiano" (como se ser
lynchiano fosse apenas uma coisa).
Toda esta introdução foi para que cheguemos, então, ao cinema dos irmãos
Dardenne. Cinema este que é bem pouco conhecido aqui no Brasil, mas que
tem agora em julho a chance de ser muito bem visto (com a entrada em cartaz
do mais recente dos filmes, O Filho, e a exibição especial dos dois anteriores,
A Promessa e Rosetta - ganhador da Palma de Ouro em Cannes - no Cineclube
CineSESC). Ficam faltando ainda seus dois longas de ficção anteriores
(Je pense à vous e Falsch), e seus curtas e trabalhos em documentário,
mas pode-se dizer que está sendo exibido o grosso da sua carreira no sentido
de sua visibilidade no cinema mundial, tendo sido a exibição de A Promessa
(1996) na Quinzena dos Realizadores de Cannes o primeiro momento em que
o cinema dos irmãos chamou a atenção. Mas, até a vitória de Rosetta em
1999, ninguém os considerava figuras centrais do cinema mundial (e mesmo
esta vitória foi um enorme choque no Festival daquele ano). A partir daí,
porém, o filme recebeu considerável atenção, e o seguinte (O Filho) também
foi lançado na competição de Cannes. No entanto, como acontece com o reconhecimento
de Coutinho pós-Santo Forte, levou aos irmãos Dardenne apenas três filmes
para receberem reconhecimento e admiração, mas com elas vindo junto várias
críticas a uma tal "repetição de estilo", que tiraria até algum ponto
o mérito de seus filmes. Pois, assim como foi o caso com Coutinho, mais
uma vez se necessita aqui colocar por terra essa leitura tão rasa do que
seja o cinema destes diretores.
Para início de conversa, se pode existir uma crítica quanto à repetição
nos irmãos Dardenne que se deva levar minimamente a sério, ela deveria
ser sobre o conteúdo de seus filmes muito mais do que sobre seu estilo
audiovisual (aliás, mais uma vez assim como em Coutinho). Porque, de fato,
o que impressiona na experiência de assistir-se A Promessa, Rosetta e
O Filho é o mesmo universo onde seus personagens encontram-se mergulhados,
e a estrutura narrativa extremamente semelhante entre os três filmes.
Primeiro, a impressão de que pegamos um filme já começado, porque a história
não possui exatamente um início e sim um "ponto de entrada". Depois, a
compreensão lenta e gradual dos elos de relação que ligam os personagens
(quem é filho de quem, quem é patrão de quem, quem é namorado de quem),
nunca simples e unidimensionais. Finalmente, o estabelecimento de um drama
que encontra significado tão somente a partir da observação da ordem da
estrutura social que rege as personagens, mais significativamente ainda,
aquela das relações de trabalho. Nos filmes dos Dardenne as dimensões
do individual e do coletivo se misturam sempre, e os dramas existenciais
nunca estão desconectados das questões de ordem social e da colocação
dos personagens no mundo à sua volta.
Mas talvez exista uma semelhança ainda mais impressionante na estrutura
destes dramas: todos eles tratam da questão da possibilidade do estabelecimento
de uma empatia, de uma relação humana que parta da tentativa do "conhecer
o outro", onde mesmo os mais diferentes, e muitas vezes antagônicos, achem
um lugar das relações onde possa se dar a compreensão, o perdão, a compaixão.
Se aos Dardenne só parece interessar como tema a vida de pequenos personagens
da classe trabalhadora em seus dramas dolorosamente comuns, impressiona
ainda mais a sua insistência na possibilidade ainda hoje redentora dos
"encontros" entre os personagens. Encontros estes que podem acontecer
nas circunstâncias (pessoais e sociais) mais inesperadas. Algo, aliás,
muito parecido com o que acontece no cinema de Coutinho entre entrevistador
e entrevistado. E, em ambos os casos, se deve quebrar a última parede
e perceber que é partir deste pressuposto do encontro que se deseja realizar
um movimento final na realização cinematográfica: a partir da experiência
tornada comum entre o espectador e os "personagens" na tela (e parece
especialmente rica esta noção de personagem, uma vez que ficção e realidade
parecem se misturar tanto na obra destes realizadores), a empatia e o
entendimento das semelhanças nas relações humanas mesmo entre pessoas
tão diferentes.
São estes os pressupostos éticos que regem o trabalho destes realizadores,
e é somente a partir deles que podem aparecer os componentes estéticos
que compõem suas obras. O erro maior está em querer se analisar os seus
trabalhos a partir de uma noção de repetição que parta da estética antes
da ética: é não ver o que de mais básico há no entendimento do que seja
o cinema (ou ainda mais, a experiência humana) para os cineastas em questão.
Afinal, foi dentro deste entendimento que cada um deles encontrou, sim,
um universo audiovisual que pareceu o mais adequado para colocar seu cinema
em ação. Embora este universo sofra pequenas e sutis mudanças de filme
a filme, de acordo com o tema, é da coerência deste olhar sobre o mundo
(refletido na forma dos filmes) que é feita a grandeza e a importância
do cinema deles.
No caso dos Dardenne, isso inclui uma câmera cada vez mais grudada aos
seus personagens (como se tentando, de fato, fazer o espectador "viver
o que eles vivem"), cortes abrutos que nos jogam numa seqüência já começada
ou terminam uma seqüência que ainda não parecia ter acabado (num entendimento
de que o encadeamento dramático na experi~encia de nossas vidas, não é
organizado e único), e um trabalho dentro de cada bloco narrativo onde
os movimentos da câmera revelam e escondem seguidamente pequenos detalhes
daquele mundo (negando, assim, a possibilidade de um escopo total que
nos permita algo próximo de uma compreensão de "tudo que acontece"). Todos
estes pressupostos (bastante próximos do entendimento que Coutinho tem
do seu cinema, como já visto em entrevistas aqui mesmo na revista) não
são o desejo de se achar um "estilo", e sim a necessidade de uma estética
que reflita obrigatoriamente a ética que rege seus filmes.
E é por isso tudo é que parece tão tolo se apegar a tais procedimentos
para encontrar neles uma "repetição". Os Dardenne (e Coutinho) tratam
do ser humano a partir da lógica de que cada um deles é um ser diferenciado.
Portanto, o simples fato do personagem em frente à câmera ser outro significa
dizer que é um outro universo que se abre à nossa frente. A compreensão
desta diferença entre as pessoas, mas também da possibilidade do encontro
e da troca entre estes diferentes, é o que se reflete em cada um de seus
filmes e no tratamento estético dado a eles. O que torna seus filmes não
repetitivos, e sim parte de um mesmo universo. Universo este que é, muito
mais do que "autoral", coerente.
Eduardo Valente
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