|
EUA:
Decifra-me ou te devoro


Elephant de Gus Van Sant
Quando
Gilles Jacob e Thierry Fremeux, os responsáveis principais pela
seleção oficial do Festival de Cannes, anunciaram os filmes
a serem exibidos na competição em 2003, eles fizeram questão
de afirmar que, ao contrário do momento absolutamente tenso e polarizado
em que o mundo se encontrava (a guerra do Iraque, as tomadas de posição,
etc), a seleção deste ano não tinha um forte cunho
político ou de discussão da atualidade, diferente do que
acontecera no ano anterior (com a presença de títulos como
Tiros em Columbine, Kedma, Intervenção
Divina). Se é fato que é sempre bastante redutor tentar
achar linhas mestras que liguem uma enorme variedade de filmes, o que
não dá é para negar o seguinte: tenham se dado conta
ou não os curadores, Cannes teve uma vedete temática sim
- os Estados Unidos da América. Que surgiram em cena, é
verdade, das formas mais variadas (inclusive ganhando a Palma de Ouro).
Mas que estiveram presentes o tempo inteiro, tal e qual a sombra que parecem
projetar sobre o imaginário mundial hoje (lembrando que, obviamente,
não havia tempo hábil para a situação do Iraque
ter repercutido ainda em filmes já prontos para este ano).
Os EUA como objeto
distante, mas presente
De fato, houve filmes
onde os EUA não eram exatamente o tema, mas sua presença
era sentida, como se inevitável. Este é o caso, por exemplo,
de Les Invasions Barbares, de Denys Arcand. O título mesmo,
se refere ao atentado de 11 de setembro, como o filme deixa claro: a impressão
de que aquele acontecimento foi o primeiro de uma série de "invasões
bárbaras" aos "donos do mundo". Não se pense, porém,
que há aqui simpatia pelos EUA e o que eles representam, pois esta
tese sai da boca dos cinqüentões canadenses que lidam com
a iminente morte de um deles. Os EUA surgem aqui como metáfora
da morte dos ideais de uma geração de humanistas, que já
não se reconhecem totalmente no mundo à sua volta - um mundo
onde, aparentemente, falharam como proposta de geração.
De outra sorte completamente
é o surgimento dos EUA no filme derradeiro de João César
Monteiro, Vai e Vem. Embora tão testamento quanto o filme
de Arcand, não há melancolia em Monteiro, apenas seu olhar
completamente cáustico e hedonista, ao mesmo tempo. Correção
política não existe no dicionário do diretor, e as
duas referências diretas aos americanos são devastadoras:
primeiro com piadas contadas em um velório sobre a situação
do Afeganistão pós-ataque americano e sobre a inteligência
média do povo americano no geral. Depois, com a presença
de um poster de George Bush Jr. ao lado do leito de hospital onde o personagem
de Monteiro vai parar, tendo abaixo desta imagem uma escultura monumental
de um pênis de madeira, que teria sido o motivo da ida de João
Vuvu (o personagem) ao hospital. O recado é simples e direto: os
EUA estão estuprando o mundo, e se orgulham disso. Aliás,
havia outro filme português muito menos interessante do que este,
mas que usava a mesma verve cínica com relação aos
EUA: A Mulher que queria ser Presidente dos EUA, de João
Botelho.
Como o Iraque ainda
não era uma realidade consumada, o Afeganistão surge como
o principal espaço enfocado como resultado das relações
exteriores americanas. Além dos já citados, que mencionam
a situação local, havia dois filmes de fato que passam no
país: o primeiro filme realizado lá por um cineasta afegão
em muitos anos (Osama, que apesar do nome não faz qualquer
menção à Bin Laden), que foi um dos maiores sucessos
de boca a boca do Festival; e o filme de Samira Makhmalbaf, A cinq
heures de l'apres midi, que conta a história de uma adolescente
que sonha em ser presidente do Afeganistão (e sua lógica
é simples: "se George Bush é presidente dos EUA, porque
eu não posso ser daqui?"). Em ambos o que surge é um país
em situação de confusão absoluta com sua nova situação
(uma avant-premiere do que vemos hoje no Iraque), onde a queda de um regime
é fonte de um completo vazio de certezas e identidade.
O cinema americano
olha para os EUA

Vincent
Gallo e Chloe Sevigny, The Brown Bunny
Talvez um dos mais
fascinantes recortes para se falar dos EUA, porém, seja através
do seu próprio cinema. Neste sentido, é interessante observar
que dos três concorrentes à Palma de Ouro, dois foram produzidos
completamente fora do sistema dos estúdios. Um acabou levando a
Palma de Ouro, e o outro foi recebido com a maior polêmica de Cannes
em muito tempo, execrado por muitos (principalmente, aliás, pelos
americanos), mas depois bastante elogiado por uma série de críticos,
principalmente franceses. Em pólos tão opostos na recepção,
o que eles têm em comum é justamente sua produção
fora de Hollywood, o que acaba sendo um retrato bastante contundente da
atual política de produção americana, no geral. Também
é interessante olhar para o que dizem os dois filmes da imagem
americana no viés mais interessante que se pode ter: com capacidade
crítica de distanciamento, mas ainda assim de dentro.
Elephant, de
Gus Van Sant, foi feito à convite da HBO, rede de TV que já
produz alguns dos programas e telefilmes mais interessantes, e que começa
a dar passos no cinema. Saiu de Cannes com uma Palma de Ouro que, se não
foi uma surpresa completa, também não era esperada - muito
menos junto com o prêmio de Direção. O filme, pode-se
dizer, pega de onde Tiros em Columbine deixou no ano passado -
ou melhor, realiza o movimento absolutamente oposto. Onde Michael Moore
usava Columbine como ponto de partida para tentar entender uma série
de coisas sobre os EUA, com o máximo de generalizações
e teorizações possíveis, Van Sant parece buscar uma
genealogia humana no mais banal dos rituais rotineiros - o da ida à
escola.
Van Sant, ao contrário
de Moore, não tem nenhuma teoria a apresentar, muito pelo contrário:
quer entender tanto quanto nós quem são aqueles jovens,
quem são os jovens da América de hoje. Entender, diga-se,
não quer dizer explicar, mas sim esticar uma mão na sua
direção e tentar apenas mostrar que se importa em tentar
ver um pouco o mundo como eles vêem. A filmagem que Van Sant faz
do dia a dia de uma escola é inédita em termos de tratamento
dramatúrgico, principalmente no seu encadeamento narrativo quase
hipnótico e nada intrusivo, com um resultado naturalista ao extremo.
A alguns o filme pareceu distante e frio, mas está longe disso.
Tenta apenas não usar dos estereótipos clássicos
definidores de papéis ao jovens - quer apenas ser mais um deles.
E ao colocar subliminarmente a mesma pergunta que Moore tanto trompeteou
("Afinal, o que há de errado conosco?"), o filme chega pelo lado
oposto ao mesmo final do documentarista: nenhuma resposta satisfatória.
Apenas a constatação do elefante que está lá
na sala, incomodando muita gente.
De outra ordem completamente
é The Brown Bunny, de Vincent Gallo. Produzido com mínimo
financiamento principalmente do exterior (França, inclusive), o
filme é uma retomada radical da produção independente
americana, no tempo em que o termo ainda tinha um sentido mais claro.
Dirigido, fotografado, estrelado e montado por Gallo, o filme é
um "road movie" existencial que segue um homem em sua viagem de Costa
a Costa dos EUA. Não se sabe exatamente o que ele busca, e o que
importa aqui também parece ser mais a estrada do que o destino
(embora o final inverta um pouco esta impressão). Gallo faz uma
narrativa eminentemente visual e de manuseio do tempo, onde qualquer inferência
dramatúrgica parece ficar distante. Em comum com Van Sant, aliás,
um certo hipnotismo em que o espectador é convidado a mergulhar.
Os críticos
em geral, especialmente os americanos, preferiram não fazê-lo,
recusando o filme pelos motivos mais banais. Como se uma recusa à
narrativa tradicional fosse motivo em pleno Festival de Cannes para descartar
um filme que, na verdade, propunha muito mais do que a média dos
filmes exibidos. De fato, há na trajetória deste jovem literalmente
"sem destino" (e o fato dele ser motociclista não parece gratuito)
uma retomada do cinema dos "beatnicks", embora com a inegável sensação
de que não há por trás dele a transgressão
ou os motivos claros dos anos 60. Este "mal estar" moderno, mundial mas
essencialmente americano pós-11/9 (basta pensar no igualmente melancólico
A Última Noite) é o que dá ao filme um interesse
ainda maior. Ao contrário de Van Sant, Gallo não se dispõe
a analisar um ícone recente da História americana, mas assim
como o colega (que já andou por essas estradas americanas muitas
vezes - basta pensar em Drugstore Cowboy, Garotos de Programa),
sua falta de conclusões firmes chegam mais ou menos ao mesmo ponto:
uma sensação de perda e da incapacidade de explicá-la
ou viver em paz com ela.
Duas reflexões
sobre a América

Sean Penn contido por policiais em Mystic
River de Clint Eastwood
Se nestes
filmes citados até aqui a América surge em um caso como
ícone presente no imaginário mundial e no outro como leitura
absolutamente visceral de quem a vive, os dois filmes mais representativos
sobre o tema são justamente radicalizações destas
tendências, que se permitem porém, com muito mais facilidade,
a serem lidos como autênticos tratados sobre o que representa a
América. Um deles escrito de fora, completamente, e o outro, totalmente
de dentro.
Lars Von Trier não
esconde de ninguém que a idéia para seu Dogville
veio da recepção a Dançando no Escuro por
alguns críticos americanos, revoltados por ele haver feito um filme
sobre seu país sem jamais ter pisado lá. Citando argumento
tão cínico quanto indiscutível ("não me parece
que os realizadores de Casablanca tenham se preocupado com a realidade
de lá"), o filme de Von Trier é, de fato, uma declaração
de guerra contra a invasão americana do imaginário global.
Trier afirmou na entrevista após a exibição em Cannes
que seu filme não é sobre a América e sim sobre a
imagem onipresente da América com que ele tem convivido em sua
casa desde a mais tenra infância - na TV, no cinema, nas lojas.
A partir deste ponto
de partida, o diretor relaciona o filme com sua obra anterior ao buscar
novamente uma personagem feminina que sofre nas mãos de todos que
a cercam. Só que duas coisas diferenciam este filme de todos os
outros: primeiro, o formato visual e narrativo escolhido, que em tudo
remete aos EUA. A pequena vila montanhosa que é encenada de forma
completamente artificial num galpão remete à mais óbvia
idéia de recriação e simulacro. Também é
usado por Von Trier uma época e um tipo de narração
que remete a tantas outras narrativas americanas típicas (como
as de John Steinbeck), de forma a não restar dúvidas de
que seu tema é sim a alma americana como ele a vê. E como
ele a vê é certamente um olhar muito pouco lisonjeiro, onde
a cordialidade se mistura com o mais profundo rancor, onde a noção
de comunidade serve a um individualismo atroz, onde o discurso das boas
intenções esconde os atos mais violentos.
Se o filme é
exemplar nesta exposição, a virada de seu último
ato é o ápice que completa o retrato. Nele, o sacrifício
e a subserviência de seus últimos filmes é substituído
por uma tal explosão de violência e vingança que só
mesmo os filmes americanos mais típicos podem dar conta (é
de se pensar em Scorsese e Peckinpah, juntos). É inegável
a manipulação absurda que Von Trier impõe ao espectador,
mas é igualmente fascinante sua capacidade de dominar a linguagem
do cinema para isso. Misturando análise e catarse como poucos artistas
modernos, Von Trier consegue atingir todos os seus objetivos - tanto dentro
do filme como fora, como se pôde ver pela recepção
que conseguiu.
De uma outra cepa
completamente diferente é o cinema de Clint Eastwood. Onde tudo
em Von Trier é exagerado e claramente manipulado, Eastwood filma
com a sutileza e a clareza que apenas os maiores mestres do cinema americano
clássico possuem (mais neste novo filme do que jamais). Mystic
River impressiona justamente por retomar algo que já era forte
na carreira do diretor (pensem em Os Imperdoáveis ou Um
Mundo Perfeito), mas que nunca foi tão bem explorado quanto
aqui: a capacidade de refletir profundamente sobre os alicerces do "ser
americano" enquanto realiza um exemplar filme de gênero, narrativo
e modelar.
Baseado num romance
de Dennis Leheane muitíssimo elogiado, o filme carrega nas tintas
shakespereanas ao contar a pequena tragédia que une três
famílias americanas típicas (não por acaso, moradoras
de Boston, a "Nova Inglaterra" onde surgiu a América). Por trás
de um enredo policial com todos os temperos do gênero, que Eastwood
tem enorme prazer em filmar (a investigação, a relação
entre os parceiros policias, as falsas pistas e o suspense), o que está
é um profundo olhar sobre os temas da culpa, da violência
intrínseca da sociedade americana e, sim, mais uma vez da vingança
(no caso de Eastwood tematizando sempre a tomada da justiça nas
próprias mãos).
Mas, talvez o mais
bonito de se ver seja a forma como Eastwood, sua equipe e elenco, façam
parecer tão simples filmar isso tudo com tamanha quantidade de
nuances e camadas. O filme de Eastwood, em sua realização,
representa o que de melhor a América possui: a capacidade de olhar
para si mesma, de juntar pessoas das mais diferentes idéias (como
o republicano Eastwood e os radicalmente de esquerda Tim Robbins e Sean
Penn) em torno de um mesmo objetivo, e de incorporar na sua prática
e na sua ação a sua própria forma de reflexão.
Num final que é tão conflituoso quanto belo, Eastwood retrata
todos os conflitos internos que fazem da América esta enorme esfinge
que todos parecem precisar decifrar. Em torno dela, ainda, parecem girar
os destinos do mundo. E, se de Cannes saiu alguma impressão é
a de que todos sabem disso. Mas ninguém, ninguém mesmo,
consegue saber o que isso significará. Porque a América,
definitivamente, é muitas mais do que cabem em duas ou três
idéias pré-concebidas e compreendê-la mostra-se tão
impossível quanto necessário.
Eduardo Valente
|
|